Economia
Economista diz que Mapa da Fome tem falhas
FERNANDO ARAÚJO Os três volumes do estudo denominado ?Mapa do fim da fome em Alagoas?, encomendado pelo governo do Estado ao Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), contém dados e informações desconexas da realidade alagoana; uma cópia apressada de pesquisas do IBGE e trabalhos de vários escritores, inclusive autores locais. Esta é a conclusão a que chegou o economista Cícero Péricles, ao analisar o documento, que teria custado R$ 200.000,00 aos cofres públicos e foi entregue há cerca de duas semanas à ministra Benedita da Silva pelo governador Ronaldo Lessa. Segundo o economista, as conclusões do trabalho são conhecidas há três anos: as famílias pobres são as mais carentes em termos de infra-estrutura; existe uma relação direta estabelecida pela discriminação racional; há mais pobres entre os desempregados e trabalhadores informais que entre empregados e trabalhadores com carteira assinada, e as famílias mais pobres têm menos escolaridade e maior número de filhos. Para conhecer a realidade social do Estado, diz Cícero Péricles, basta ler o último estudo do professor Fernando Lira sobre a economia alagoana, onde está provado que a pobreza e o desemprego são as causas principais da fome e que a concentração de renda e da terra constituem os determinantes principais da situação da fome e miséria em Alagoas. ?Essa pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas deveria servir de subsídio para as futuras políticas sociais e, principalmente, para a definição de seus gastos, mas infelizmente não trouxe nenhuma informação nova ou análise mais complexa ou profunda do que já tenha sido feito??, lamenta o economista, que também é professor da Ufal. Segundo Péricles, diagnóstico elaborado por técnicos da FGV é displicente até quando reproduz dados da realidade nacional na tentativa de adaptá-los ao Estado, o que demonstra a pressa com que foi produzido, a falta de profissionalismo e desrespeito ao povo alagoano. Lembra o economista que no capítulo 6, sobre instabilidade macroeconômica, mercado de trabalho e metrópoles, cujo título, adequado a uma pesquisa de caráter nacional, fica longe de um estudo sobre a realidade local, está escrito: ?Em Alagoas, as grandes cidades urbanas (com mais de 200 mil habitantes) foram as mais afetadas pela crise, apresentando maior aumento da taxa de desemprego...??. ?Onde esta pesquisa encontrou outra cidade urbana com mais de 200 mil habitantes fora Maceió??, indaga Péricles, ao confessar sua surpresa. Outro ponto que, segundo o economista, depõe contra a pesquisa atribuída à Fundação Getúlio Vargas está no capítulo 8, que trata dos custos de um programa de combate à miséria nos estados brasileiros. Na página 33, é reproduzida uma tabela com dois municípios cearenses ? Caucaia e Fortaleza ? como sendo auto-representativos de Alagoas, e nas páginas 34 e 35 se repetem as informações sobre em que meso-regiões estão localizados os municípios alagoanos. ?Lamentavelmente, o trabalho é concluído sem um perfil dos 102 municípios de Alagoas, plano escolhido para a erradicação da fome e o combate à miséria, segundo o título da pesquisa??, considera Cícero Péricles. A bibliografia da pesquisa também despertou a curiosidade do economista pelo excesso de fontes citadas (56, das quais 46 em inglês), o que, segundo ele, revela o forte domínio e o conhecimento que os autores têm da literatura econômica do mundo anglo-saxônico, mas que não dedicou-se a consultar fontes de informações nacionais e nenhuma sobre a realidade alagoana, objetivo central do estudo. ?Apesar da importância da bibliografia internacional para o conhecimento do problema da pobreza e as formas de combatê-la, fica evidente que as obras nacionais não foram utilizadas nesse trabalho??, constata Péricles. Ele registra ainda que as únicas fontes brasileiras utilizadas na pesquisa ? PNAD, Atlas PNUD e ECINF ? não constam da bibliografia, fato que ele considera, no mínimo, como uma desatenção. Péricles afirma que desinformações e dados antigos estão por toda parte ao longo da pesquisa. O capítulo 3 traça uma radiografia do setor informal, que nada mais é do que uma descrição do perfil dos trabalhadores por conta própria e empregadores alagoanos, utilizando, de acordo com o economista, dados do PNAD-99. ?Não é um estudo sobre ?micro-empresários alagoanos?? do setor informal do Estado??, explica Cícero Péricles, que se diz desapontado com o trabalho. Para o economista, a maior lacuna mesmo ficou por conta do estudo anunciado, na página 4, sobre a política de financiamento bancário para ?subsidiar a aplicação de políticas de crédito produtivo popular??, programa importante para os setores que tradicionalmente não têm acesso ao crédito financeiro. ?O que se espera de um ?diagnóstico? social para Alagoas? Uma análise da realidade regional, baseada em fontes de informações atualizadas, que nos permitisse vislumbrar os traços mais importantes e os problemas mais sentidos de sua população, para que se pudesse propor um conjunto integrado de políticas e metas na área social?, enfatiza Péricles, ao concluir que ?depois de uma leitura atenta, a sensação que fica é a de que nenhum dos dois objetivos foi alcançado?.