Economia
Projetar aeroporto é um sonho de todo arquiteto
| LUIZA BARREIROS Repórter Quando o novo Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares for inaugurado, provavelmente no próximo dia 16 de setembro, todos os elogios ou críticas à sua concepção física irão para uma só pessoa: o arquiteto alagoano Mário Aluísio Melo, 55 anos. Autor do projeto arquitetônico da maior obra executada no Estado nos últimos anos, ele pensa na forma que o novo aeroporto de Maceió teria desde 1998, quando foi contactado pela primeira vez sobre a possibilidade de o projeto sair de sua prancheta. O trabalho é considerado por ele uma síntese de tudo que já fez desde a formação, na Universidade Federal de Pernambuco, há 32 anos. A Escola do Recife, como é conhecida, é considerada por ele, sem nenhum tipo de xenofobia, uma das melhores de sua época. Não tinha nenhum gênio, mas tinha uma produção de arquitetura muito ligada ao detalhe, à técnica, ao acabamento e não afeita ao devaneio, explica. A obra do aeroporto soma-se a um currículo onde já constam a criação do Terminal Rodoviário, do Fórum de Maceió, do Maceió Mar Hotel, da Escola Fazendária, do posto da Polícia Rodoviária Federal, além de muitos edifícios e residências particulares. Para coroar o momento profissional vivido por ele, no início do ano Mário Aluísio foi convidado para expor seus trabalhos junto com cinco nomes da arquitetura internacional e outros 11 arquitetos brasileiros na Bienal Internacional de São Paulo, que acontece em outubro. Foi uma grande surpresa, eu não esperava. Acho que tem a ver com a coisa de eu ser do Nordeste, disse ele, que será visitado em um stand de 100 m², num evento com um público estimado de 200 mil pessoas. Na última segunda-feira, durante visita à obra do aeroporto, Mário Aluísio falou à Gazeta sobre sua mais nova - e imensa - criação. Gazeta - O aeroporto é a obra da sua vida? Mário Aluísio - Acho que é uma obra que todo arquiteto sonha um dia realizar, porque tem uma repercussão social muito grande. Na verdade, a obra mais importante que eu acho foi a Rodoviária [Terminal Rodoviário João Paulo II, no Feitosa, construído em 1978], porque na época eu tinha só quatro anos de formado e tive a sorte de realizá-la no início da profissão. A partir da rodoviária, a coisa deslanchou e o aeroporto vem quase como um coroamento para mim. Foi importante e prazeroso, mas muito difícil. Qual o maior desafio para projetar um aeroporto? Trata-se de um equipamento no qual as condicionantes técnicas e tecnológicas são muito grandes, afora a coisa de comportamento, da própria forma da obra, da sua fiscalização. O projeto foi muito trabalhado e muitas vezes teve que ser adaptado em função disso. Entre o que o sr. pensou inicialmente e o que foi construído, há muita diferença? O princípio não foi tão alterado, mas o primeiro croqui, sim. Na verdade, a coberta central não era essa que está lá, mas a forma de olho, que permanece, já havia desde o começo. Até porque se entendia, desde o começo, que a chegada dos aviões pelo lado ar ficaria mais condicionada a uma coisa que abrisse e, acompanhando uma curva, abrigasse os fingers [pontes que ligam a ala de desembarque à aeronave]. Quanto tempo de estudo foi necessário à concepção de um projeto tão específico? Esse projeto começou a ser trabalhado em 1998. Antes, na eleição do ex-presidente Fernando Henrique, já se trabalhava na idéia de como seria o aeroporto, mas o trabalho específico só começou em 1998. Depois passou por períodos meio que letárgicos. Demoramos quase oito meses para decidir se ele seria sobre o antigo ou se deslocado do antigo para fazer um novo, como acabou acontecendo. Na época, pesou também o entendimento de que o antigo estaria na divisa entre dois municípios [Maceió e Rio Largo]. Como não poderia ser feito totalmente em Rio Largo, porque a pista havia sido ampliada e o eixo da pista deslocado em sentido contrário, então fez-se a opção de se construir o novo nesse local de agora. O projeto passou por definições em vários setores da Infraero e cada qual tem seu interesse: manutenção, operação, comercial. Além disso, há aspectos como uma galeria técnica, que é um andar que não se vê, onde ficam todas as máquinas, equipamentos, ar-condicionado. Definições de altura, sobe forro, baixa forro... Tem coisas, como por exemplo as extensões das pontes que vão até a aeronave: não podem ter mais do que 8% de inclinação. Quando você projeta logo, elas ficam todas arrumadinhas, mas isso não pode ser em função das asas dos aviões. No meio do projeto, a Infraero adotou uma nova esteira de bagagens em que a mala sobe e desce, e tivemos que trabalhar o pé-direito para poder fazer esse sistema. Também mudamos o projeto para adequar às distâncias de filas. Havia ainda um controle muito rígido de área. Trabalhou-se por muito tempo com 14 mil m² e depois se expandiu para 17 mil m². Então quer dizer: é um projeto de uma maturação muito demorada. Nós concluímos o projeto em meados de 2000, a licitação foi em abril de 2001 e o início da obra foi em abril de 2003. Agora o sr. sabe tudo sobre aeroportos? (Risos) Há mestrado e doutorado em aeroporto. Não conheço tudo, mas conheço grande parte. Não existe necessidade de conhecer tudo quando se está na concepção geral. O programa básico de um aeroporto não é tão complicado: operações de embarque, desembarque, embarque remoto. Mas há algumas especificidades, como uma placa que não pode deixar de ser vista, por exemplo. Isso é muito complicado e não tem como ter domínio de tudo. É um processo mesmo, em que a gente vai detectando problemas à medida que a obra vai sendo realizada. Tem um arquiteto que trabalha comigo, o Tiago Amaral, este sim está presente o tempo todo na obra e talvez, ele sim, saiba tudo sobre aeroportos. (risos) Foi preciso visitar muitos aeroportos? Fiz alguma coisa com isso. Visitei alguns como o de Confins [em Minas Gerais], que eu acho muito bonito, mas é um elefante branco. Visitamos com a equipe toda o aeroporto de Brasília. Afora isso, nas minhas viagens eu sempre fotografei aeroportos, mas os aspectos externos valem muito pouco quando o projeto é de um aeroporto. Como foi mudar a perspectiva e pensar uma obra para ser vista principalmente por quem está no céu? Na verdade, a concepção nasce da situação onde se insere o edifício. Se é numa cidade, como é que ele dialoga com as esquinas, com as curvas que a cidade pode ter? Se é no campo, como é que ele se insere na paisagem? Vai ser sobre a paisagem ou sob a paisagem? Agora, efetivamente, um aeroporto tem cinco fachadas: as quatro e mais a de cima. Ele tem essa particularidade. Quase todo projeto você pensa de cima, até pela distribuição física de circulações e de funcionamento. Mas você também não pode pensar numa planta sem pensar na fachada. No teto do aeroporto há uma abertura zenital de vidro em formato que lembra um olho. Foi essa a idéia do projeto? Na verdade, nesse projeto existe muita semelhança com outro projeto que desenvolvi para o Fórum de Recife, num concurso que não ganhei, no qual essa iluminação zenital era um círculo no centro da área. Esse rasgo que tem no centro, coberto por vidro especial, evitará o custo elevado de energia no saguão e em quase todo o aeroporto. Há também dois rasgos laterais em volta da coberta verde e, afora isso, há vidros laterais, que também permitirão a entrada de luz. E qual o sentido desse olho? Ele não nasceu como um olho. Não é uma questão estética. Foi muito mais um formato, para os aviões chegarem a esse grande conector que acompanha a curva. Imagine o seguinte: uma forma interessante de um avião chegar, já que ele é pontiagudo, seria um círculo, que é o caso dos dois satélites do aeroporto de Brasília. Esse raciocínio do semicirculo é para facilitar o acesso dos aviões. Na verdade, inicalmente não houve intenção do olho: a forma resultante é que ficou. Mas a idéia, isso sim existiu: nós queríamos aprisionar um jardim no centro do terminal, imaginando que quando você viaja, está muito tenso e a entrada em Maceió se daria por um jardim exuberante. Mas não poderia ter ar-condicionado, porque a planta não resistiria. Muitas obras arquitetônicas são belas, mas não conseguem ser funcionais. E o senhor foi criticado por isso no projeto do Fórum de Maceió. Numa obra como de um aeroporto, garantir a funcionalidade foi a principal preocupação? Eu acho que em toda obra. No que diz respeito ao Fórum, eu acho que a crítica principal é a de que as varas são muito pequenas. Nós tínhamos uma limitação de 4 mil m² para projetar e um número de varas definido. Então nós tivemos que fazer uma repartição de espaço em função de varas, que também acho pequenas. A sala do promotor praticamente não existe, a sala do juiz é pequena e você vê que tem varas que estão muito acumuladas de processos. Agora, eu acho que a questão de não ter feito escada ou elevador, mas ter colocado rampas dentro daquele espaço maior, isso funcionou bem, porque o Fórum é um equipamento que recebe muita gente do povo, não só juízes, advogados e promotores. E para essa gente simples, o elevador sempre inibe um pouco o uso. Mas em relação ao tamanho das varas, nós construímos dentro do limite de área que os recursos do Funjuris permitiam. Na época, se questionou ao desembargador Jairon Maia Fernandes [na época presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas] se era melhor fazer menos varas, mas maiores. Mas não se podia fazer um Fórum sem atender ao número mínimo de varas. Até pensou-se em fazer uma expansão com outro edifício no futuro, dobrando a área das varas atuais. A estrutura foi pensada numa situação dessas. Mas em qualquer obra, você tem que pensar na funcionalidade sem esquecer a forma plástica. Se você inverter a situação, não vai fazer uma boa arquitetura, mas a obra não pode prescindir de ser bonita. Da sua prancheta saíram projetos importantes da arquitetura de Alagoas. Qual a relevância formal do projeto do aeroporto dentro de sua obra? Ele é meio síntese de tudo. Há grandes questões que foram absorvidas pelo projeto, que foram os impactos dessas tecnologias, dessas alterações. Dependíamos do humor de quem definia o projeto de manutenção, comercial. Se o cara muda, tínhamos que conseguir manter tudo isso. Então, dar um equilíbrio nessa coisa toda foi muito complicado. ### QUEM É Nome: Mário Aluísio Barreto Melo Idade: 55 anos Naturalidade: Penedo (AL) Profissão: Arquiteto Cargo: Autor do projeto do novo Aeroporto Zumbi dos Palmares Formação: Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)