Economia
Efeito Mantega: dólar e risco-país sobem
| Deise de Oliveira Folhapress São Paulo - O dólar fechou ontem em alta de 1,75%, a R$ 2,22, pela cotação do Banco Central. O risco-país ficou em 238 pontos, alta de 2,14% em relação ao fechamento de segunda-feira. O anúncio de Guido Mantega para o Ministério da Fazenda foi o principal motivo para a disparada do dólar. O mercado, que já esperava a saída de Antonio Palocci, foi surpreendido pela nomeação de Mantega - um dos menos cotados pelo mercado. A saída de Palocci já era esperada, mas mudanças na economia sempre geram alvoroço. O mercado tinha expectativas diferentes quanto à nomeação e fez ajustes de posição, diz Guari Guazil, da corretora Guitta. Para Sandra Utsumi, economista-chefe do Espírito Santo Securities, o mercado abriu no escuro, com a perspectiva de mudanças na equipe da Fazenda e do Banco Central e, sobretudo, curioso sobre o pronunciamento de Mantega e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia de posse do novo ministro. A divisa norte-americana chegou a ser cotada a R$ 2,238, com alta de quase 2,76% no início das operações. Com a valorização da moeda norte-americana, o fluxo foi positivo, sobretudo pela atuação dos exportadores. O mercado de câmbio atingiu o equilíbrio e permaneceu na cotação de R$ 2,20. A moeda resistiu ao discurso de Mantega e do presidente Lula e à divulgação da nova taxa de juros nos Estados Unidos (leia mais na página A11). Para os próximos dias, os investidores deverão manter a postura de cautela, esperando a definição da equipe do Ministério da Fazenda e da linha a ser adotada por Mantega. O mercado vai acompanhar o passo a passo do ministro, atento ao seu perfil de atuação. A saída do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já foi descartada, mas a cautela continua, diz Guazil. O próximo teste será a primeira reunião do Conselho Monetário (Copom) com Mantega à frente do Ministério da Fazenda, na quinta-feira. O encontro definirá a próxima TJLP. A expectativa do mercado é de taxa a 8,25% -enquanto Mantega, até então, defendia a casa dos 7%. A definição da TJLP vai dizer se o discurso de Mantega sobre cortes mais bruscos na taxa de juros conflitará com o BC, diz Sandra Utsumi. Fica a expectativa dos analistas sobre se o discurso de Mantega, de manter a política econômica em vigor, funcionará na prática. As taxas dos contratos de DI futuro encerraram sem tendência definida na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) ontem. O contrato de juros de maior liquidez, com vencimento em janeiro de 2008, registrou taxa de 14,96% -0,04 ponto percentual acima do fechamento de segunda. ### Oscilação inicial é própria do mercado PAtrícia Zimmermann Ana Paula Ribeiro Folhapress Brasília - A tensão inicial do mercado financeiro deverá se acomodar rapidamente, segundo avaliação do presidente da Bovespa, Raymundo Magliano Filho. A oscilação inicial é muito própria do mercado, disse Magliano ao comentar o nervosismo do mercado na manhã de ontem diante da troca de comando no Ministério da Fazenda. Apesar de acreditar na manutenção da política econômica atual, o presidente da Bovespa espera que o novo ministro, Guido Mantega, dê um tom um pouco diferente na condução da economia. Talvez uma evolução mais rápida na [redução da] taxa de juros, avaliou. Questionado se a substituição na Fazenda não representaria um risco para a economia, ele respondeu que não há motivo para qualquer modificação estrutural e que as instituições brasileiras são fortes. Já o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Marcio Cypriano, afirmou que o novo ministro não assusta em hipótese alguma. Segundo ele, Mantega tem condições de conduzir a economia com responsabilidade e que foi definido de que não haverá mudanças na política econômica. O vice-presidente da GM, José Carlos Pinheiros Neto, considerou fundamental uma redução maior na taxa de juros, hoje em 16,5% ao ano. Para ele, o perfil mais desenvolvimentista do novo ministro é o que faltava à economia brasileira após o processo de estabilização. Ele avaliou que não há risco de uma fuga de investimentos estrangeiros do País. Para o investidor estrangeiro o que interessa é a estabilidade continuada. É isso que estamos atingindo. Não tenho dúvidas que os investimentos permanecerão, disse Pinheiro Neto. Meirelles fica O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), negou que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deixará o cargo depois da demissão do ministro Antonio Palocci. Com a indicação de Guido Mantega para a Fazenda, o secretário-executivo, Murilo Portugal, e o secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, anunciaram que vão sair do governo. Havia especulações de que as mudanças chegariam ao Banco Central. O senador governista -que era cotado para assumir a Fazenda- disse ter conversado ontem com o secretário do Tesouro. Joaquim Levy confirmou sua demissão e disse que assumirá a vaga do Brasil no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). ### Mudanças incomodam Wall Street | Helena Celestino Agência O Globo Wall Street acordou. Incomodou-se com as notícias sobre o Brasil. Não recebeu bem as primeiras declarações do novo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e ficou desconfiado com as sucessivas saídas dos técnicos do Ministério, considerados pessoas-chaves no comando da economia. O dólar e o risco Brasil subiram e as ações dos bancos brasileiros em Wall Street caíram - o papel do Bradesco perdeu 2,20% e o Itaú, 1,40% . Num sinal de intranquilidade, a agência de risco Fitch distribui uma nota pedindo a manutenção do superávit fiscal e o compromisso com austeridade fiscal, um mantra da equipe de Palocci que alegrava Wall Street. Os juros de longo prazo aumentaram 3 pontos, indicando que esperam uma deterioração do panorama fiscal. Mantega é fraco, não é uma figura de expressão dentro do debate da política macro-econômica, diz o professor da Columbia University, Paulo Vieira da Cunha.