Descaso
GOVERNO RENAN FILHO ABANDONA MAIS DE MIL AGRICULTORES FAMILIARES
Técnicos não podem se deslocar até áreas rurais porque carros operacionais estão sucateados
Mais de mil produtores da agricultura familiar foram abandonados pela política agrícola do governo Renan Filho (MDB). Eles não recebem sementes, assistência técnica, nem visitas dos agrônomos e veterinários da Secretaria da Agricultura (Seagri) e do Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas (Emater).
A crise começa na Seagri. Nos últimos cinco anos, cinco pessoas ocuparam a pasta que hoje funciona como cabide para “ajeitar” indicados de partidos políticos da base de apoio. As delegacias dos órgãos viraram depósito de carros quebrados. Até os deputados governistas cobram responsabilidade para com o homem do campo. O secretário interino da Agricultura, Sílvio Bulhões, tenta amenizar e promete que ano que vem haverá sementes e assistência técnica para o homem campo.
A maioria dos ex-secretários de Agricultura foi retirada do cargo de forma deselegante: por telefone, avisado por amigos ou informados pela imprensa. Todos enfrentaram falta de recursos e de apoio político do executivo estadual. Não tiveram recursos para nada.
Pior para a agricultura familiar. Em diversos pontos do estado os agricultores reclamaram de abandono. No Sertão, as condições climáticas foram mais uma vez atípica: choveu em 40 municípios. Porém, a quantidade foi pequena, mas com regularidade. Se os pequenos produtores fossem assistidos, neste momento estariam colhendo feijão, milho, batata, macaxeira e outras culturas tradicionais. Agora, não dá mais para plantar. A terra secou e a temperatura está muito alta. Começou novo período de estiagem prolongada, avisou o agricultor José Ramalho Dantas, de Santana do Ipanema.
No campo da assistência, os técnicos da Emater não conseguiram trabalhar no apoio aos pequenos produtores porque enfrentam, até hoje, sérias dificuldades para se deslocar. O clima nos assentamentos e sítios é de indignação. As famílias dizem que foram esquecidas no campo e só são lembradas pelas ações emergenciais das Comissões Municipais de Defesa Civil ou nos períodos eleitorais, quando os políticos aparecem com promessas de investimento na agricultura familiar em troca de votos.
A maioria dos carros de transporte dos técnicos da Secretaria da Agricultura e da Emater está parada nos pátios dos órgãos, precisa de consertos, manutenção, combustível, pneus novos e revisões. Como não se movem há mais de um ano, estão enferrujando e com pneus vazios.
Os técnicos que precisam se deslocar para as pequenas propriedades rurais utilizam carros particulares ou das prefeituras. A situação é pior no sertão e agreste, pequenos produtores e criadores imploram sementes e assistência técnica.
A situação, na verdade, não é nova. Os ex-secretários como o pecuarista Álvaro Vasconcelos, o pesquisador Antônio Dias Santiago e o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT) tiveram dificuldades para executar política de desenvolvimento da Agricultura, Pesca, Aquicultura e Pecuária, revelaram servidores da pasta.
Ronaldo Lessa, o último a deixa a pasta, quando foi empossado contou com pompas em solenidade concorrida no Palácio do governo. Ficou menos de seis meses no cargo e não conseguiu sequer nomear assessores. Não pode fazer nada pelos pequenos produtores rurais, como pretendia. Ao perceber que sofria uma discreta campanha de enfraquecimento político e de “fritura” eleitoral, o então secretário pediu exoneração e hoje é um dos cotados para disputar a prefeitura de Maceió no grupo adversário do governador Renan Filho (MDB). Em seu lugar ficou o secretário interino Sílvio Bulhões de Azevedo. Como o governo não tem política definida para o setor da agricultura, o secretário também enfrenta dificuldades semelhantes dos antecessores.
A pasta da Agricultura tem sido utilizada para acomodações políticas de partidos aliados do governo. Por isso ninguém sabe, dentro do próprio governo, quanto tempo Sílvio Bulhões permanecerá na interinidade ou se será efetivado na pasta. Alguns parlamentares do sertão estão de olho na pasta.
O secretário Sílvio Bulhões recebeu como herança da pasta, criadores e agricultores irritados com a situação de desprezo do governo com o setor. Até os médios e grades produtores reclamam. Os políticos também. No Sertão, o deputado Inácio de Loiola (PDT), “não choveu muito. Mas, a chuva foi em quantidade suficiente para resultado favorável. Quem plantou, conseguiu colher. A partir agora não dá mais para plantar, começa a seca”, disse.