Economia
Sem chuva, sem safra, a fome amea�a o Sert�o
EDIVALDO JUNIOR Vidas secas, sem esperança. Barrigas que choram pela semente que não germinou. É a fome, premeditada, que volta ao sertão. Sem chuva, sem safra, mais de 50 mil famílias de pequenos agricultores da região do semi-árido de Alagoas não foram ouvidos, este ano, por São Pedro. Esperam agora que seus lamentos cheguem aos ouvidos dos homens, cá na terra, que têm o poder de amenizar a miséria com cesta básicas, carros pipas e os nada emergentes programas emergenciais. Quem viu o tanto de água que caiu dos céus em Maceió nas últimas semanas, não faz nem idéia de como essa chuva fez falta ao trabalhador rural sertanejo. O agricultor que rasgou o chão árido do sertão, no cabo da enxada, para plantar milho e feijão , esperou, em vão, o inverno. Passou abril, maio e junho. E a chuva que caiu só fez transformar sonhos de fartura em pesadelo de fome. A sementes germinaram, mas não vingaram. Sem umidade, as plantas morreram antes da brota do primeiro grão. E assim, no sertão das Alagoas, a cantiga do grilo se repete. ?Entra ano, sai ano e nada vem?. As perdas, segundo levantamentos iniciais da própria Secretaria Executiva de Agricultura (Seagri) chegam a 100% nas lavouras tradicionais de milho e feijão. Os números reais dessa tragédia social e econômica serão conhecidos nos próximos dias. Mas, desde já, o mapa da ?seca verde? está traçado. ?De Olho D?Água das Flores para cima está tudo perdido. A exceção é de um ou outro município que tem micro clima diferenciado?, resume o subsecretário de Agricultura, Ricardo Ramalho, após receber, nessa sexta-feira um diagnóstico dos técnicos do órgão que atuam na região do semi-árido. Este ano, a Seagri distribuiu 540 toneladas de sementes. Mais de dois terços foram destinados aos agricultores sertanejos. Esperava-se uma grande safra, que não virá. ?Existem algumas exceções. É o caso de quem plantou sorgo para silagem. Como essa planta é mais resistente à seca que o milho, ainda acreditamos numa boa safra. Mas, o resto está perdido?, aponta Ramalho. ?Quem plantou, perdeu tudo. Quem não plantou, não planta mais?. O desabafo é do diretor de política agrícola da Fetag/AL (Federação dos Trabalhadores na Agricultura em Alagoas), Genivaldo Oliveira. Ele volta este final de semana ao sertão para fazer uma radiografia da seca. Vai usar os dados para cobrar do governo de Alagoas uma política emergencial. ?Perdemos o seguro safra, que beneficiaria 49 mil famílias do semi-árido com R$ 475,00 cada uma. Seria um bom dinheiro, que não virá por acomodação do próprio governo e principalmente das prefeituras?, denuncia. Para atravessar mais um ano sem colheita, o sertanejo vai precisar de ajuda. Do contrário, a fome aperta e os trabalhadores rurais não terão outra alternativa senão invadir as cidades em busca de comida. Com esse alerta, a Fetag espera evitar o agravamento do drama vivido agricultor da região do seim-árido. ?Vamos pedir que o governador coordene uma aço emergencial para socorrer o sertanejo. Ninguém segura o pessoal se a barriga ficar vazia. É melhor prevenir do que remediar?, aconselha Genivaldo. Burocracia O próprio governo estadual confirma. Das 49 mil ?vagas? do seguro safra para Alagoas, apenas 207 foram ?reservadas?. O programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário prevê o seguro, hoje de R$ 475, para famílias de pequenos agricultores. Sua execução depende de adesão do Estado ? que foi feita em Alagoas pela Seagri ? e dos municípios. Mas apenas uma cidade, Piranhas, foi ágil o suficiente para aderir ao programa antes do encerramento do prazo.. Na prática, os agricultores do Estado vão receber no máximo R$ 98.325,00 de seguro safra, quando poderiam receber até R$ 23.275.000,00. Ou seja, os trabalhadores rurais estão perdendo mais de R$ 23 milhões. Embora reconheça que faltou empenho de algumas prefeituras, o subsecretário Ricardo Ramalho aponta a burocracia ?de Brasília? como principal responsável pela perda dos recursos. ?Eles pensam que no Nordeste chove ao mesmo tempo em todos os Estados. Por isso, o prazo de adesão ao programa terminou em 30 de abril, que estamos apenas nos preparando para o plantio?, Reclama Ricardo Ramalho. ?Eles precisam saber que aqui (em Alagoas) a chuva cai de dois a três meses depois da Paraíba e do Rio Grande do Norte. O próprio ministro Miguel Rosseto, que esteve aqui na semana passada reconheceu o erro e prometeu corrigi-lo no próximo ano?. Ameaça Se persistir, a seca vai agravar também a situação dos pecuaristas ? especialmente os produtores de leite ? do sertão. A Federação da Agricultura e Pecuária de Alagoas (FAEAL), também tem um diagnóstico preocupante sobre o quadro na região. ?Os produtores do sertão já estão enfrentando dificuldades. Esse ano não foi possível produzir silagem para alimentar o rebanho durante o verão. E se continuar sem chover nos próximos dias, o quadro se agrava, pois pode até faltar água para os animais durante a estiagem?, alerta o presidente da FAEAL, Álvaro Almeida.