Economia
Nordeste, pobre, financia economia do Brasil rico
EDIVALDO JUNIOR Da Bahia ao Maranhão são nove estados, quase 1,2 mil municípios e cerca de 48 milhões de habitantes, espalhados por uma área de 1.561.177,8 km². Em números, esse é o perfil básico do país chamado Nordeste. A região ocupa 18,3% do território brasileiro e tem 28% da população. Mas suas riquezas representam somente 13% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Comparar, em indicadores sociais e econômicos o Brasil Nordeste com o Brasil Sudeste ? o pedaço rico de nosso País chega a ser covardia. Juntos, os quatro estados daquela região (Rio, São Paulo, Minas e Espírito Santo) tem 43% da população e respondem por 59% do PIB. Enquanto no Nordeste cada 1% da população responde por 0,46% das riquezas do País, no Sudeste, cada 1% gera 1,37% do PIB. Ou seja, no Brasil Rico, a geração de riquezas é quase três vezes maior do que no Nordeste pobre. Nas demais regiões do País, esse correlação é menor do que o Sudeste, mas bem superior ao Nordeste: o Sul tem 16% do PIB e 15% da população; o Centro-Oeste tem 7% do PIB e 7% da População e o Norte tem 5% do PIB e 7% das riquezas. Esses são números oficiais, atuais e cruéis, revelados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que retratam as diferenças regionais. Sim, o Nordeste é mais pobre do que o Centro-Sul. E como se não bastasse ser pobre, é discriminado e explorado econômica e socialmente pelo Brasil rico. Na semana passada, uma nota publicada na revista Veja revelou a gravidade do problema. O governador de Sergipe, João Alves Filho, divulgou estudo mostrando que na correlação econômica com o Brasil rico, o Nordeste perde todos os anos algo em torno de R$ 3 bilhões. Na prática, isso pode mudar a imagem de que o Nordeste exporta apenas mão-de-obra barata e desqualificada para Rio e São Paulo. Os ?paraíbas?, ?baianos?, ?cabeças chatas? e, claro, os ?alagoanos?, mandam cada vez mais, ano após ano, capital para financiar as fábricas de geladeiras, automóveis, TVs, bicicletas, etc. Ainda assim o Nordeste tem a imagem, no Centro Sul, de que é um consumidor voraz e ineficaz das verbas federais. Esse é outro mito que está sendo desfeito por economistas, políticos e estudiosos do Nordeste. Na década de 40, o então governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, bateu boca com o presidente Dutra sobre o repasse de verbas federais para seu Estado. E mostrou, numa tréplica, com base em números do Ministério da Fazenda, que seu Estado tinha contribuído ? em valores e moeda da época ? com 1,5 milhão em impostos federais e recebido de volta apenas 388 mil. A lógica não mudou. No início dos anos 90, o Nordeste recebia cerca de 15% dos repasses federais. No começo do novo milênio, esses números caíram quase pela metade. Esses foram apenas um dos exemplos levantados ontem, durante reunião do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGA) pelo empresário Luiz Carlos Maranhão, para mostrar que o Nordeste ? diferentemente do que pregam muitos ? é competitivo e sua gente, trabalhadora e eficiente. Clima é o principal entrave para tornar o Nordeste mais competitivo, diz empresário ?É preciso que todos os nordestinos tenham coragem de amar e orgulho de declarar seu amor pelo Nordeste. Não somos incompetentes. Produzimos, em condições desfavoráveis se comparados com o Centro-Sul. E ainda assim, ajudamos a financiar, até hoje, a industrialização do Sudeste?. O desabafo do empresário e estudioso do Nordeste, Luiz Carlos Maranhão, diretor das Usinas Santo Antônio e Camaragibe, foi feito, ontem, em tom de desafio. ?É preciso pensar o Nordeste. E mais do que isso: devemos dizer a todos que somos competitivos e competentes?, afirmou, ontem à tarde, durante reunião do IHGA, quando fez uma conferência sobre a agroindústria da cana-de-açúcar. Citando estudo de um cientista canadense, Maranhão lembrou a tese de que todas as regiões até 1,5 mil km acima ou abaixo da linha do equador vivem em situação de atraso econômico. ?De toda essa faixa, na circunferência da terra, o Nordeste é a mais desenvolvida?, destacou. Usando o exemplo da agroindústria canavieira, o empresário lembrou que o Nordeste é competitivo com qualquer país do mundo. ?Perdemos apenas para São Paulo. E sabe por quê? Lá eles têm uma condição climática muito mais favorável que a nossa. Quem lida com a agricultura sabe que é mais fácil e barato produzir no Centro-Sul?, afirmou. Mesmo com dificuldades climáticas (seca e chuvas irregulares), o Nordeste dá exemplos de crescimento na agricultura. ?Aqui em Alagoas produzimos hoje, em 400 mil hectares, cerca de 23 milhões de toneladas de cana. Há dez anos, a produção era de 18 milhões de toneladas numa área de 600 mil hectares. Aumentamos a produtividade principalmente com investimentos em irrigação. No Sudeste, eles praticamente não precisam irrigar. Ou seja, conseguem índices melhores, com custo menor. É preciso que essas diferenças sejam conhecidas para que não pensem que somos atrasados?, disse o empresário.