Economia
Clientes de microcr�dito: 92% s�o informais
FÁTIMA ALMEIDA De acordo com levantamento feito pelo Banco Cidadão, as mulheres são maioria entre os clientes do microcrédito, dominando 58% do mercado, contra 42% da clientela masculina. 61% dessas pessoas não têm acesso a crédito na rede bancária comercial, 92% atuam no mercado informal e apenas 8% são microempresários formalizados. Outros dados importantes reforçam o papel do microcrédito no processo de inclusão social de uma camada da população, até então, excluída de todos os benefícios sociais. A pesquisa mostra, por exemplo, que 59% da clientela do Banco Cidadão é analfabeta ou tem apenas o Ensino Fundamental. 10% não completou o Ensino Médio e 27% têm o Ensino Médio completo. 2% iniciou o ensino superior e apenas 2% têm o 3º grau completo. Ainda de acordo com a pesquisa, 67% das pessoas que recorrem ao microcrédito têm mais de 30 anos de idade, faixa em que se iniciam as dificuldades de conseguir emprego. A maior demanda, segundo Pedro Verdino, vem da periferia, principalmente de bairros do Tabuleiro, como o Benedito Bentes. A maior procura é para atividades comerciais (84%), seguida de serviços (cabeleireira, manicure e até o taxista que precisa comprar peças), e outras modalidades. A pesquisa mostra ainda, que a maioria desses empreendedores (35%) produz em atividades domiciliares; 21% são caracterizadas como ?sacoleiras?, 13% são permissionários de espaço público e os demais se distribuem entre pessoas com ponto fixo alugado ou cedido, ambulantes, camelôs e outros. Desenvolvimento O economista Cícero Péricles diz que o microcrédito, assim, como as linhas especiais de crédito popular, também em moda nos últimos meses, têm uma importante função na economia regional, sobretudo, num Estado como Alagoas, que, na sua avaliação, se ressente da falta de um mercado interno e de uma economia popular articulada que justifiquem a criação ou atração de empreendimentos produtivos; que abram as portas e ofereçam um campo mais fértil para o desenvolvimento, inclusive de novas empresas e novas indústrias. ?Nossa renda per capita é a terceira menor do Nordeste. Ainda, assim, é muito concentrada: três quartos da população economicamente ativa recebe menos de dois salários mínimos. É essa pobreza que explica que Alagoas tenha ficado em penúltimo lugar no Nordeste no último censo do IBGE de micro e pequenas empresas comerciais?, observa ele. Péricles destaca que a ampliação desse frágil mercado interno é uma construção necessária, mas demorada, que pode ser agilizada pelo poder público quando atua em linhas diferentes, por meio de políticas sociais públicas, programas de estruturação da economia popular, como o microcrédito, e políticas de crescimento. Por outro lado, as linhas de crédito popular, com taxas de juros de 2%, praticadas pela Caixa e pelo Banco do Brasil, segundo ele, são uma oportunidade excepcional para que tanto os consumidores, grande parte deles endividados, como os pequenos produtores, na sua maioria na economia informal, tenham acesso a um dinheiro barato e possam realizar compras ou pequenos investimentos. Base para crescer O economista observa que o mercado alagoano vive, hoje, um momento de expansão, pela presença redistributiva das políticas públicas federais. ?A Previdência Social paga benefícios a mais de 300 mil famílias no Estado, sendo que metade delas está no interior. Essa transferência de renda é muito benéfica para mais de um milhão de alagoanos. Os programas de educação e saúde são responsáveis por outra parte dessa transferência. Mais de um milhão de crianças e jovens estudam graças às verbas federais e 75% da população está coberta por programas do Sistema Único de Saúde?. Ele destaca ainda, os programas de renda mínima, o Fome Zero, a distribuição de cestas básicas ou o seguro-desemprego como políticas públicas sociais com um forte papel redistributivo, que ajuda a sobrevivência de milhares de famílias alagoanas, ?mas são insuficientes para alavancar a economia, na medida em que não conseguem reproduzir riquezas?. Na sua avaliação, a segunda linha de atuação pública passa, necessariamente, pelos programas de estruturação da economia popular, como o microcrédito, as cooperativas de construção de habitação popular e o crédito agrícola, que são atividades fortemente geradoras de emprego e renda. Neste aspecto, segundo Cícero Péricles, Alagoas precisa fazer um esforço para captar mais recursos. ?Os exemplos são muitos. No acesso ao Pronaf, Alagoas recebe menos até que o Piauí e Sergipe e o resultado é uma grande ausência de crédito para a agricultura familiar. No acesso ao microcrédito, via um banco estatal como BNB, que tem o programa Crediamigo, Alagoas é o último colocado em operações e clientes. E até mesmo na Sudene, onde tivemos três superintendentes, Alagoas ficou em penúltimo lugar na apresentação de projetos e em verbas liberadas pelo Finor?. Na sua opinião, as políticas de crescimento dependem desses dois fatores anteriores ? mercado interno e economia popular articulada ? para poder realizar fortes investimentos em infra-estrutura, benefícios e contrapartidas necessárias na criação ou atração de empreendimentos produtivos. ?Esse novo ambiente permitirá a ampliação massiva do empreendedorismo e os arranjos produtivos locais passarão a ter sentido. Sem cumprir essas pré-condições ficaremos presos aos ´´factóides´´, esses anúncios de investimentos fabulosos que nunca se realizam, como o Pescabrás e o OndaAzul e os projetos fora de nossa realidade, como a Refinaria de petróleo?, conclui o economista.