Economia
Cerveja chega aos 150 anos liderando prefer�ncia nacional
A cerveja está completando 150 anos de Brasil. O País consome, hoje, 8,5 bilhões de litros por ano de cerveja, o quarto maior volume do mundo, perdendo apenas para Estados Unidos (23,6 bilhões de litros/ano), China (18 bilhões de litros/ano) e Alemanha (11,7 bilhões de litros/ano). Em consumo per capita, no entanto, o Brasil figura na nona posição mundial, com uma média de 48 litros/ano por habitante, abaixo dos 50 litros/ano do México, dos 97 litros/ano do Reino Unido, e muito abaixo dos 123 litros/ano da Alemanha. Em valores, a cerveja gira por ano R$ 8 bilhões, que estimulam a disputa entre as marcas e garantem o emprego de 150 mil pessoas. Segundo dados do Instituto Nielsen, a Skol tem uma fatia de 33,7% do mercado, Brahma com 21,5% e a Antarctica com 13,7%, todas marcas da Ambev. Com relação a dados regionais, a Brahma e a Antarctica afirmam que não possuem informações de quantos litros de cerveja são distribuídos em Alagoas. Pioneira Há 150 anos, no final de 1853, era engarrafada no Brasil a primeira cerveja para consumo comercial do País, a Bohemia. Tudo começou numa pequena fábrica na região serrana de Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro, erguida pelo imigrante alemão Henrique Kremer. No início, a sua produção mensal de 6 mil garrafas era distribuída em charretes e carrinhos de mão. Entre os primeiros consumidores da Bohemia, que seguia a fórmula alemã e era mais amarga do que o sabor que ganhou com o passar dos anos, estava Dom Pedro II. O imperador brasileiro passava as temporadas de verão no hoje Museu Imperial de Petrópolis e, reza a lenda, não dispensava a cerveja de Kremer. Feita com água cristalina de montanha, do riacho que descia da serra e corria às margens da antiga fábrica, na entrada de Petrópolis, a Bohemia incorporou à marca a tese de que boa cerveja é resultado de água cristalina. A Bohemia resistiu ao tempo. Comemora 150 anos em cartaz, mas sua produção deixou de ser artesanal. Em 1960, a Bohemia foi adquirida pela Companhia Antarctica, que há três anos selou sua fusão com a Brahma, dando origem à Ambev, empresa que registrou receita líquida de R$ 5,5 bilhões em cerveja no ano passado, respondendo por uma produção de 5,8 bilhões de litros do produto. A Ambev é, hoje, a quinta maior cervejaria do mundo e a marca Bohemia tem uma fatia de 2% do mercado nacional. A Bohemia será a ponta de lança de campanha que a agência de publicidade DM9DDB está finalizando para a Ambev e que começa a ser veiculada no mês que vem, em comemoração aos 150 anos de cerveja no Brasil. A campanha ainda não entra nas novas regras do Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar), que restringe a publicidade de bebidas e que passa a valer a partir do próximo ano. Com a ação publicitária batizada de Festeja, a Ambev pretende promover o consumo de cerveja em 250 mil bares espalhados pelo País. Na campanha, que terá veiculação em emissoras de televisão, jornais, revistas e rádios, um garçom chamado Juvenal dá uma série de motivos que, na verdade, é uma espécie de convocação para as pessoas irem festejar nos bares da cidade o sesquicentenário da bebida mais presente na vida do brasileiro. O gerente de Trade Martketing da Ambev, Marcelo Costa, garante que a cervejaria tem muito o que comemorar nesta data, além do fato de ter a Bohemia na carteira: ?A Malzebier foi a primeira cerveja preta do mercado brasileiro, a Skol a primeira cerveja em lata do País e a Brahma, fundada em 1888 e a Antarctica em 1889, são hoje as duas marcas mais populares de cerveja. Linhas que se completam com o chope, que o brasileiro não dispensa no verão e na orla das praias?. É uma tradição de inovações, reforça Costa, que merece a comemoração. Mas a Ambev, líder do mercado, não estará sozinha nestes festejos. A concorrente Schincariol, que rebatizou o produto lançado há 14 anos para Nova Schin, numa ação de marketing, que foi desenhada pela agência de publicidade Lew Lara, e hoje está em poder da Fischer América, promete participar da festa, com inovações e aumento da produção. Com um faturamento de R$ 1,1 bilhão e investimento em marketing este ano de R$ 130 milhões, a Schincariol tem fábricas em Itu (SP), Alagoinhas (BA), Macau (RJ), Caxias (MA) e acaba de inaugurar, este ano, fábricas em Alexânia (GO) e Recife (PE). Já a Kaiser, que a canadense Molson comprou dos engarrafadores da Coca-Cola, tem uma fatia de 10,9% do mercado nacional, somada a 2,7% de Bavaria, tem crescido ancorada em campanhas criadas pela Bates. Como o Brasil é prioridade para a canadense Molson, a briga deverá ser boa no verão, quando as novas linhas de comunicação, com restrição, entram em cartaz. Limitações Fabricantes de cerveja estão sob ameaça de um duro golpe. Está em fase final de negociações uma minuta de projeto sobre bebidas alcoólicas, cujo objetivo é reduzir o acesso de populações de risco e limitar a propaganda, a exemplo do que já ocorre com o cigarro. Nessa semana, detalhes conclusivos da proposta serão acertados. A idéia do governo é que o tema seja levado ao Congresso para discussão, na forma de projeto de lei. Um dos pontos mais polêmicos do trabalho propõe que a propaganda de bebidas com graduação alcoólica acima de 0,5 graus Gay Lussac seja permitida em um horário restrito: entre 22 e 7 horas. Essa graduação alcoólica faz com que cervejas e coolers passem a sofrer limitações equivalentes à de outras bebidas. Hoje, comerciais de destilados já são veiculados em horário restrito. Para o diretor de criação da Chama Publicidade, Hermann Fernandes, essa decisão do Conar prejudicará bastante as grandes agências de propaganda, principalmente as que concentram suas contas publicitárias nesses fabricantes de cervejas. Segundo ele, ?nenhuma agência alagoana atende a esse tipo de propaganda de bebidas alcoólicas?. Para Herman Fernandes, as novas regras do Conar já tornarão a publicidade de bebidas, inclusive cervejas, muito próxima daquelas veiculadas em outros países. Ou seja, o principal diferencial da propaganda brasileira, que é o bom humor e a sensualidade, agora será parte das campanhas de forma moderada. Segundo Fernandes, ?o Conar foi criado justamente para evitar qualquer tipo de censura às manifestações da indústria e do comércio, respeitando-se o direito do consumidor e as restrições à propaganda de diversos produtos, como aqueles de uso ético?. A iniciativa do Conar, no entanto, não convenceu o grupo interministerial. ?A limitação da propaganda é o ponto chave do trabalho, mas há outras propostas também importantes que irão ajudar a combater problemas provocados pelo álcool?, afirma o diretor do Programa de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Pedro Gabriel Delgado. Pontos de venda ?As medidas são boas, mas não resolvem o problema?, avalia Delgado. Além da propaganda, o grupo interministerial deve incluir no projeto a proibição de venda de bebidas em postos de gasolina e restaurantes em locais próximos de rodovias. Em alguns estados, já há essa determinação, mas o grupo quer uniformizar as regras para todo o País. Delgado lidera a comissão interministerial criada em maio, para definir as ações de governo sobre o tema. No Congresso, a restrição à propaganda é considerada assunto delicado. Segundo o vice-líder do governo no Senado, Hélio Costa (PMDB-MG), não há consenso no Legislativo sobre a criação de novas regras para o anúncio de bebidas. Costa é partidário da tese de que o governo e o Congresso deveriam deixar nas mãos do Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) a responsabilidade pela instituição de restrições à publicidade do produto. Um esboço do projeto foi debatido em audiência pública, há cerca de um mês. A idéia da restrição de propaganda foi criticada tanto por representantes de cervejas quanto pelo Conar e pela Associação Brasileira de Rádio e Televisão. Todos defenderam a idéia de que os problemas podem ser resolvidos pela auto-regulamentação. Antecipando-se à proposta do Executivo, o Conar determinou, há poucos dias, regras mais duras para a propaganda de bebidas. Entre elas, a proibição de associação de bebidas a sucesso sexual e o uso de ícones com grande apelo entre o público infantil, como animações.