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“Lula faz bonito para o FMI e deixa Pa�s em crise”

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EDIVALDO JUNIOR Baiano, mineiro, carioca, nordestino, brasileiro. Em junho ou julho de 1954 o líder estudantil comunista Sebastião Nery aterrissou pela primeira vez em solo alagoano. Sua missão: mobilizar estudantes para o congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Seu anfitrião: o lendário comunista alagoano Jayme Miranda, morto anos depois pela ditadura militar. ?O aeroporto era um paiol. Na mesa do bar tinha uns oito ou dez homens tomando cerveja. Todos armados?, lembra Nery. ?Disse para o Jayme: caímos numa arapuca. Pensava que era a polícia. Ele me tranqüilizou: ?se preocupe não. É tudo boa gente. São pistoleiros??. Hoje, em mais um retorno a Alagoas, o cenário é outro. ?O aeroporto é bonito, moderno. Alagoas cresceu e evoluiu?, atesta o jornalista Sebastião Nery. A coluna que leva seu nome, todos os dias ganha as páginas de 22 jornais, de norte a sul, de leste a oeste do Brasil. Um dos mais importantes, pelo retorno, é a GAZETA DE ALAGOAS. ?Tenho um grande retorno de Alagoas. Recebo muitos e-mails, telefonemas e cartas. Isso mostra o quanto a GAZETA é absoluta no Estado?. Com 16 livros publicados e mais um no prelo (Histórias de Viagens ? 50 países em 50 anos), no batente do jornalismo desde 2 de fevereiro de 1952, quando começou a trabalhar, aos 18 anos, no ?O Diário?, em Minas Gerais, Sebastião Nery foi seminarista, estudou Filosofia e Direito. Nas suas veias corre a política brasileira. Conhece o Congresso Nacional dos tempos em que o Rio era a capital do País. Lembra de Tancredo Neves do ?tempo em que ele tinha cabelos?. Conviveu com Juscelino Kubitschek no governo de Minas Gerais. E a profissão se misturou com a militância. Em 1954 Nery se elegeu vereador em Belo Horizonte, em 1962 ganhou uma vaga para a Assembléia Legislativa da Bahia e em 1982 foi eleito deputado federal no Rio de Janeiro. Nesse meio tempo foi cassado e preso pela ditadura militar, viveu na Europa, voltou para o Brasil, regressou para a Europa, no governo Collor, como adido cultural e continua fazendo até hoje um jornalismo que tem a cara de quem conhece profundamente o Brasil e sua política. Nos últimos 50 anos Sebastião Nery foi, mais do que testemunha, um participante de todos os acontecimentos importantes da política brasileira. Deixou Brasília e vive no Rio, olho na TV, ouvido no telefone e dedo no computador. Não perde um fato importante. Almoça com ministros (?fora de Brasília eles conversam melhor?, revela), janta com senadores, troca confidências com governadores e conhece, um a um, o ?peso? e a ?importância? de todos os caciques da política e da economia nacional. O jornalista que conhece a fundo o passado e o presente do Brasil aposta suas fichas num país melhor, cada vez mais. ?É como Alagoas. Hoje é melhor do que antes. O Brasil vai continuar seguindo em frente, mesmo com maus governos. Quando olho o passado vejo que o País é melhor hoje e será amanhã. O Brasil é sempre melhor no dia seguinte. É só não atrapalhar?, aponta. Quando fala do Brasil a sensação que ele passa é de um apaixonado convicto, porém crítico e sensato. Conhecimento, paixão, senso crítico. Tudo junto e misturado a um português fluente, enfático e objetivo. É receita ideal para atrair brasileiros que gostam de falar e de ouvir sobre o Brasil. Ontem à tarde, no hall do Hotel Ponta Verde, quando dava entrevista para a GAZETA DE ALAGOAS, algumas pessoas pararam para ouvir o jornalista enquanto ele definia o País de hoje. ?O Brasil é uma família em crise. Quem gasta mais da metade do seu orçamento para pagar dívidas vai viver mal, enfrentar problemas. O Lula está pagando este ano R$ 225 bilhões de juros da dívida externa e da dívida interna para um orçamento de R$ 430 bilhões. Faz bonito para os banqueiros e para o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas deixa o País sem investimentos. Por isso é que o risco-Brasil, a balança comercial e o superávit fiscal vão bem e o povo vai mal?, resume. Sobre o ministro da Fazenda Antônio Palocci ? o ministro ?deslumbrado? e ?provinciano? que ?vive de dia em português e dorme em inglês?- Sebastião Neyr resume o pensamento numa frase: ?Faz tudo que a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e que o FMI mandam?. E é sintético com a economia do Brasil. ?Perdemos 2003 (numa referência ao crescimento zero do PIB). Tenho medo de perder 2004?. Pergunto sobre o otimismo do Lula para o próximo ano. E Nery, biblioteca ambulante, retruca: ?Leia os jornais da posse. O Palocci prometia crescimento de 3% este ano. Lula também. Agora falam em 4% para 2004. Torço por isso, mas temo pelo desempenho do governo?. Um dos maiores desastres do governo petista, avalia o jornalista, é a execução orçamentária. ?O governo paga R$ 150 bilhões de dívida interna mais R$ 75 bilhões de dívida externa e não deixa quase nada para investimentos. Tira o dinheiro do fome zero da Educação. Mas não pode. Então tira da saúde. Também não pode. Então tira da segurança, do turismo, do esporte. Esse ano a cultura perdeu 80% do seu orçamento?, afirma. ?A política do Palocci é roubar esmola de cegos?. E o Lula ? o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ? faz o governo do discurso. ?Ele fala mal dos bancos. E enquanto a economia cresce zero, o lucro dos banqueiros aumenta 46%. Como é que pode? Se o Lula continuar assim, sem investir, com juros altos, vai ficar só passeando e não vai governar?, avalia um Nery ainda esperançoso quanto ao futuro do PT no governo. ?Restam três anos. Pode ser que Lula deixe de ficar tão deslumbrado com o poder e comece a governar?, completa. O governo Lula, acredita Nery, está apostando na filosofia do publicitário Duda Mendonça. ?Duda convenceu Lula de que governar é enganar. É dizer que tudo vai bem. Mas isso é uma armadilha. Vai chegar uma hora em que o povo e até mesmo a grande imprensa brasileira, cada vez mais míope, vão começar a enxergar. Isso é uma armadilha. O Lula tem que parar com o oba-oba e começar a governar?.

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