Economia
Ex-funcion�rios de bingo na rua da amargura
FERNANDA MEDEIROS ?E agora, como vou sustentar a minha família? Não sei como vou me virar?. O lamento é do ex-funcionário do Bingo Ponta Verde, José Calado Luz Neto, 50, casado, pai de cinco filhos. Ele afirma que depois do fechamento dos bingos, por determinação da Medida Provisória nº 168, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na véspera do sábado de carnaval, proibindo o funcionamento de bingos e casas de apostas em todo o Brasil, ficou ?na rua da amargura?, sem renda para manter a família. ?Três de meus filhos moram no Rio de Janeiro, mas tenho outros dois para sustentar. Com o dinheiro que recebia, pagava a escola deles, o aluguel da minha casa e as despesas em geral. Agora, estou de mãos abanando?, reclama. José Calado era funcionário do bingo há sete anos, trabalhava com toda a parte elétrica e hidráulica. Era chefe de manutenção. Atualmente só prestava serviços para aquele estabelecimento, assim como para o Bingo Central, localizado próximo à estação ferroviária, no centro de Maceió, pois havia pedido demissão. ?Pedi demissão, mas ganhava meu dinheiro prestando serviços para os dois locais. Recebi todos os meus direitos e gostava muito do local. Éramos como uma família?, recorda. Ele explica que perdeu as duas únicas fontes de renda que possuía. ?Não só eu, mas todos os 70 funcionários do local?, observa. José Calado revela que, com os dois serviços, conseguia faturar, mensalmente, cerca de R$ 800. ?Era um bom dinheiro. Infelizmente o presidente Lula tirou o nosso ganha-pão. Agora está difícil conseguir outro emprego. Já tenho 50 anos e fica quase impossível. Esse Lula tá maluco!?, dispara e acrescenta: ?Se ele fechou os bingos e tirou o nosso emprego, deveria arranjar outra fonte de renda para nós?. Em Maceió, mais de 300 funcionários de casas de bingos e da loteria de prognósticos Alagoas dá Sorte participaram de uma manifestação pelas ruas da cidade, no dia 2 deste mês, protestando pelo fechamento e proibição dos bingos. Com apitos e faixas, eles saíram da Praça Centenário em direção ao Palácio do Governo, na Praça dos Martírios, e à Assembléia Legislativa. ?Eu não participei da manifestação porque estava fazendo um serviço extra, afinal tenho que me virar. Mas se estivesse livre, teria participado. Teria dado o maior apoio aos companheiros que, hoje, estão passando o mesmo que eu?, disse. O ex-funcionário da casa de apostas lembra como era bem freqüentado o local. ?Todos os dias eram as mesmas pessoas que apostavam. Ganhavam, perdiam, mas ninguém reclamava. Fazia parte do jogo. Todos eram simpáticos e gostavam de jogar. Tinha uma turma de aposentados que estava lá apostando quase todos os dias. Hoje, quando encontro com essas pessoas, elas me perguntam quando vai abrir, dizem que estão sentindo falta?, lamenta. Viúva do Bingo Maria Helena Soares do Nascimento, 27, também pode ser considerada outra ?viúva? dos bingos. Desde que a MP do governo federal foi assinada e, conseqüentemente, os bingos fecharam as portas, assim como o Alagoas dá Sorte, ela reclama. ?Eu vendia o Alagoas dá Sorte há um ano e meio. Agora que acabou vou ficar sem trabalho. Estou de mãos atadas, esperando que volte a funcionar. Se demorar, terei que ir em busca de outro emprego. Sei que não será fácil, principalmente por causa da minha idade, mas vou ter que me virar. Não posso ficar parada?, disse. Em Alagoas, de acordo com o coronel Ronaldo dos Santos, presidente da Loteal, órgão permissionário do Alagoas dá Sorte, a previsão é de que cerca de 12 mil pessoas fiquem desempregadas. Dona Maria Helena é solteira, mas ajudava nas despesas da casa dos pais. ?Pagava aluguel do imóvel, fazia a feira, comia, me vestia. Já tinha meus clientes certos e chegava a faturar de R$ 60 a R$ 70 por semana. Muitas vezes no fim do mês chegava a faturar um salário mínimo. Agora estou sem nada. Deus permita que o presidente Lula volte atrás na decisão que tomou. Ele não disse, durante a campanha eleitoral, que iria implantar programas de emprego no País? Como é que agora está deixando centenas de pessoas desempregadas??, finaliza.