Economia
�gua engarrafada conquista prefer�ncia popular
FÁBIA ASSUMPÇÃO Com um depósito de bebidas instalado há mais de 11 anos no Benedito Bentes, o comerciante Ismair Pereira dos Santos jamais pensou que algum dia iria lucrar com a venda de água mineral. Abastecidos há quase 20 anos por água de poços, os moradores do bairro estavam acostumados a ter água mineral direto nas torneiras. Por isso, o Benedito Bentes passava longe da rota das distribuidoras de água mineral. Com a entrada em operação da primeira etapa do Sistema Pratagy, no início do ano, a situação mudou. Apesar de ser potável, de boa qualidade como atestada por exames feitos pela Companhia de Abastecimento D?Água e Saneamento de Alagoas (Casal), como toda a água superficial, a do Pratagy recebe tratamento químico, o que lhe dá um gosto e odor desagradável, que não existe na mineral. Com isso, a região passou a representar um novo filão para as distribuidoras de água mineral. Hoje, em Alagoas existem sete empresas envasadoras de água mineral em operação, sendo quatro delas em Maceió. Elas envasam por mês 600 mil garrafões de 20 litros, ou 1,2 milhão litros de água, de acordo com números do setor. O gerente de uma das empresas de água mineral instaladas em Maceió, Alexandre Moraes, afirma que só com o funcionamento da primeira etapa do Pratagy, houve um crescimento de 5% no consumo de água mineral na região do Tabuleiro. ?Quando o Pratagy estiver em operação, esse incremento pode chegar a 15%?, estima. No Benedito Bentes, por exemplo, todos os mercadinhos, padarias e até farmácias, passaram a vender água mineral. O produto se tornou uma prioridade, mesmo para quem não tem condições financeiras para bancar isso. O comerciante Ismair chega a vender 150 garrafões de água mineral por semana. Mesmo assim, não se sente feliz com isso, pois como morador diz que ainda não se acostumou com a água recebida do Pratagy. ?O gosto é ruim e, no início, deu diarréia em um monte de gente, além de coceira na pele?, relata. Ismair diz que muitos moradores sequer têm dinheiro para comprar o suporte para a água, tirando-a direto dos garrafões para encher garrafas e panelas. A necessidade comprar água mineral onera o orçamento de grande parte da população, a maioria de baixa renda. O motorista Wipson Dias de Melo diz que tem que se contentar com água da Casal e comprar água mineral é uma raridade, tal o aperto no orçamento doméstico. O garrafão com a água custa em média R$ 9,00. E já com o garrafão, para comprar outro cheio é preciso desembolsar no mínimo R$ 2,00 a cada compra. Em média, cada família consome dois garrafões por semana. Poços O secretário-executivo de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Anivaldo Miranda, afirma que é uma tendência que a população dos bairros abastecidos por poços artesianos passe a ser atendida pela rede de abastecimento de água tratada da Casal, sob pena de haver um comprometimento total dos lençóis subterrâneos. Devido ao excessivo número de poços perfurados, muitos apresentam problemas de salinização. ?No Benedito Bentes, por exemplo, o problema é que a população estava acostumada a usar água mineral para tomar banho e até lavar carros?. Um levantamento preliminar feito pela secretaria mostra que hoje existem mais de 500 poços artesianos em Maceió, de acordo com o geólogo Wilton Rocha. E um grande número já começa a apresentar problemas de salinidade, principalmente na área da orla marítima de Maceió. A secretaria está em fase de conclusão de estudos de potabilidade, vulnerabilidade das águas subterrâneas. Anivaldo explica que pela Lei Nacional de Recursos Hídricos (9.433/97) todas as águas passaram a ser de domínio público. E no caso da águas subterrâneas, elas passam a ser tuteladas pelo Estado, o que exige outorga de direito de uso para sua exploração, como é o caso das águas minerais potáveis de mesa ou destinadas a fins balneários. A outorga dos direitos de uso de recursos hídricos é o instrumento pelo qual o poder público autoriza o usuário a utilizar as águas de seu domínio, por tempo determinado, e em condições preestabelecidas. ?Hoje, não se paga nada para ser abastecido por água de poço, o que acaba gerando essa exploração desordenada?, observa Anivaldo.