Economia
Caranguejo guaiamum � importado da Bahia
FÁBIA ASSUMÇÃO Algumas espécies de caranguejos praticamente não existem mais em Alagoas. O guaiamum, um dos tipos de caranguejos mais típicos da culinária alagoana, é um deles. As ilhas do povoado de Massagueira já foram um berçário natural dessa espécie. Mas, hoje, praticamente todo os bares do povoado só tem guaiamum da Bahia. A estimativa é que por mês sejam trazidos da Bahia cerca de 20 mil unidades de guaiamum. A proprietária de um dos bares de Massagueira, Rosiane Passos, diz que se não fosse o guaiamum da Bahia, o prato já teria sido retirado do cardápio do bar. ?O guaiamum que chega daqui é muito pouco e muito pequeno?, comenta. Ao mês, ela compra cerca de 300 a 400 unidades de guaiamum. Um guaiamum pequeno é vendido, em média, por R$ 1,20; o médio R$ 1,70 e o grande R$ 2,50. Em alguns restaurantes chiques de Maceió, a unidade chega a ser vendida por R$ 15,00. Na Bahia, o controle de saída dos caranguejos é rigoroso. ?Os fiscais do Ibama olham toda a carga dos caminhões para verificar se não há fêmeas e animais com menos de 12 centímetros de bitola?, comenta Rosiane. Para ela, se houvesse esse controle em Alagoas, o guaiamum não teria desaparecido. Segundo Rosiane, o custo é alto para manter a venda do caranguejo. Geralmente, há uma perda de 30% deles na viagem de mais de 2.500 quilômetro de Maceió até Porto Seguro, na Bahia, um dos principais produtores de guaiamum. Em média, os caranguejos levam 15 dias para a engorda. O trato deles exige a troca da água do criatório duas vezes por dia. ?O caranguejo urina dentro da água e por isso é preciso sempre estar trocando?. A alimentação é feita à base de cuscuz, com azeite de dendê e arroz cozido. O processo de favelização em torno das lagoas é um dos motivos atribuídos por alguns donos de bares para o desaparecimento do caranguejo guaiamum. O comerciante Hamilton Gouveia explica que a maioria das pessoas que mora nessas favelas é de outras regiões do Estado, como o semi-árido. Para garantir o sustento, elas praticam a pesca predatória com o uso de redinhas e não deixam escapar sequer as fêmeas. Ao contrário do uçá, que se reproduz nos manguezais, o guaiamum é mais encontrado em áreas de areias e coqueirais, próximas das lagoas. Preservar os manguezais também é de fundamental importância para a preservação do uçá. Sobrevivência Mas, sobreviver da venda de caranguejo não é tão fácil como parece. José Maciel da Silva, que desde os 13 anos vive da venda de caranguejo, chega a ficar até 12 horas dentro do mangue. Natural de Atalaia, ele vive na favela à beira da rodovia que dá acesso ao polo cloroquímico. É nos manguezais próximos de onde mora que ele se embrenha para garantir o sustento da família. Nas mãos, carrega apenas uma espécie de foice ? para cavar o buraco nos caranguejos. Porém, é com as próprias mãos que ele pega o ?bicho?. Para localizar o caranguejo, ele precisa enfiar todo o braço dentro do buraco. E por isso, é inevitável não se sujar de lama. Caminhar por entre o mangue também é difícil e é preciso fazer alguns malabarismos para se desviar dos galhos das árvores de pouca altura. As constantes fiscalizações feitas por técnicos da área ambiental fizeram Maciel tomar consciência de que não se deve pegar as fêmeas e deixar de lado os crustáceos muito pequenos. Um dos alvos da fiscalização ambiental tem sido a venda das patas dos caranguejos. Antes de vender os caranguejos, eles são cevados em pneus de caminhões. A alimentação básica deles são as próprias folhas das árvores dos manguezais e pedaços de frutas.