Economia
Bons tempos para produtores chegam ao fim
A era de crescimento quase ininterrupto e de lucros expressivos dos produtores de soja do Brasil está se aproximando do fim, em função da queda dos preços internacionais e dos altos custos de produção, dizem analistas. Os produtores brasileiros de soja vêm tendo um rendimento consistente nos últimos seis anos, e desfrutaram de duas décadas de expansão, com margens de lucro alcançando mais de 70%. Mas os produtores já estão relembrando com nostalgia o mês de março de 2004, quando os preços futuros da soja atingiram a máxima de 15 anos e meio na bolsa de Chicago e os do farelo subiram ao patamar mais alto em 30 anos e meio. Naquela época, os produtores estavam abrindo novas áreas de cultivo tão rapidamente que o Brasil poderia ultrapassar os EUA, maior produtor de soja do mundo, em um ou dois anos. Porém, caso as atuais condições do mercado persistam, consolidação ou até mesmo redução nas áreas de soja poderão ser observadas. ?As margens de lucro dos produtores em muitos locais, como no norte do Mato Grosso, já estão negativas?, disse o analista de grãos da Agroconsult, André Pessoa. ?Poderemos ver o aumento dos calotes nos empréstimos em 2005, caso os preços não melhorem?. Mais de 50% da indústria de processamento de soja no Brasil, incluindo os grandes players como a Cargill e a Bunge, fecharam suas portas antes do tempo normal para a manutenção anual em função das margens de esmagamento ruins ou até mesmo negativas. Blairo Maggi ? conhecido como o maior produtor de soja do mundo e atual governador do Mato Grosso ? disse, há algumas semanas, que a expansão das terras controladas pelo Grupo André Maggi acabou. O grupo vai manejar não mais que os atuais 200 mil hectares de área agricultável na próxima safra, a maioria cultivada com soja. Aumento dos custos A consultoria FNP estimou que os custos operacionais para os produtores de soja cresceram de 25 a 30% em relação ao mesmo período do ano passado. O principal motivo para isso é o aumento dos preços dos fertilizantes, fungicidas e combustível. O preço do nitrogênio, principal fertilizante para os produtores, está ligado aos preços mundiais do petróleo, que aumentaram gradualmente em 2004 e agora estão acima dos 50 dólares o barril. ?O petróleo é apenas uma das razões do aumento dos custos operacionais?, apontou o especialista em grãos da FNP, Daniel Dias. ?Tem havido uma expansão muito grande no plantio brasileiro, que pressiona a oferta de fertilizantes.? A área de soja do Brasil cresceu 15% na safra passada, mas deve crescer mais modestamente na temporada atual. A área de soja do Brasil não diminui em mais de 20 anos, mas isso pode mudar. ?Os produtores ainda não compreenderam tudo o que está acontecendo?, disse Pessoa. ?Eles estão bem capitalizados pelos lucros passados, mas eventualmente o dinheiro pode acabar, e poderemos ver uma futura contração da área, caso as condições atuais continuem?. Analistas disseram que produtores brasileiros estão mais vulneráveis aos aumentos nos custos com fertilizantes porque eles estão mais dependentes das importações do que os produtores dos Estados Unidos e da Argentina, por exemplo. Espera-se que o ano de 2005 tenha recordes de preços das matérias-primas. Além disso, os produtores ainda tiveram que enfrentar os problemas com a ferrugem asiática nas últimas três safras, o que elevou os custos com a produção. O Brasil perdeu 4,7 milhões de toneladas de soja em função da ferrugem asiática na safra passada. Para controlar o fungo, que pode destruir até 80% da safra caso não seja combatido, os produtores estão pulverizando as lavouras com defensivos de duas a três vezes na safra. Os preços futuros da soja caíram expressivamente na bolsa de Chicago (CBOT) desde abril. No dia 13 de outubro o Departamento Agrícola dos Estados Unidos (USDA) previu a safra de soja do país no recorde de 3,1 bilhões de bushels este ano (84 milhões de toneladas). Além disso, o USDA apontou também que os estoques finais estão bem acima da média das estimativas dos analistas. A consultoria Céleres disse que os produtores brasileiros venderam apenas 9 por cento da nova safra que será colhida a partir de fevereiro, comparados aos 41% vendidos neste mesmo período do ano passado. ?Com os preços nos níveis que estão, e com custos tão altos, não há estímulo para vendas?, disse a especialista em soja Odinea Santos, da Safras e Mercado. Os embarques de soja correspondem a cerca de 10% da receita do país com exportação. Analistas dizem que os rendimentos podem cair no ano que vem, mas as pesadas exportações de açúcar, álcool, café, suco de laranja e carnes compensarão as perdas e devem manter o equilíbrio na balança comercial. Os preços devem continuar depreciados nos próximos meses, conforme acreditam analistas, já que mais de 40% da safra norte-americana ainda deverá ser colhida. ?Caso os produtores (brasileiros) não comecem a vender, e não parece que isso ocorrerá tão logo, poderemos ter uma crise no começo da colheita em fevereiro?, disse um trader de uma grande multinacional com atuação no Brasil.