Economia
As novas estrelas da exporta��o brasileira
O setor agrícola brasileiro deve bater novo recorde este ano. A cifra pretendida é US$ 39 bilhões, e deve ser facilmente atingida, pois de janeiro a setembro o Brasil já exportou US$ 29,8 bilhões, correspondente a 42,5% do total das vendas externas brasileiras no período. O saldo comercial deve ficar em US$ 33 bilhões. Neste clima de prosperidade, o que chama a atenção são produtos que começam a despontar na pauta brasileira. Na maioria deles, o Brasil não tinha qualquer tradição de exportador. Nesta lista estão milho, trigo, algodão, leite, mel, flores e plantas, maçãs, amendoim em grão, queijos e manteigas. O mel natural é um caso curioso. Em 2001, o país exportou US$ 2,8 milhões. Só este ano até setembro, esse valor já subiu para US$ 35,5 milhões. O motivo? A China, que era grande exportadora deste produto, teve problemas sanitários em 2002 e, com isso, Japão e Estados Unidos restringiram suas compras do mel chinês. Com isso, abriu-se uma grande janela de oportunidade, que o Brasil soube aproveitar. No caso do milho e do trigo, o aumento de exportações foi resultado do crescimento das safras. A safra de milho cresceu de 42 milhões de toneladas em 2002/2003 para 47 milhões de toneladas este ano. O volume exportado, portanto, passou de 2,4 milhões de toneladas no ano passado para 4,6 milhões em 2004. A receita, por sua vez, subiu 121%, para US$ 558 milhões. O resultado das exportações agrícolas nos nove primeiros meses do ano ? US$ 29,8 bilhões em receita ? representa um crescimento de 33,5% em relação ao mesmo período do ano passado. O superávit ficou em US$ 26 bilhões, um resultado 39% maior que o obtido em 2003. Essa melhora se deve, em parte, pela recuperação de preços no mercado externo e pelo crescimento do volume embarcado. Os melhores desempenhos foram registrados pelos setores de cereais, farinhas e preparações (168,9%) ? setor onde entram os bons desempenhos de milho e trigo; carnes (59,6%), madeira (52,3%) e açúcar e álcool (40,2%). As exportações de soja, por sua vez, cresceram 38,3%. A União Européia absorveu 34,7% das exportações totais, contra 20,6% da Ásia e 15,5% dos países do Nafta. O Mercosul ficou com apenas 2,7%. O crescimento das exportações do setor de agronegócio nos últimos anos mostra o gigantismo deste mercado. Em 1993, a s e x p o r t a ç õ e s atingiam apenas US$ 1 5 b i l h õ e s , com superávit de US$ 11 bilhões. Em dez anos, esses valores duplicaram, e continuam crescendo. O PIB do setor deve atingir US$ 180 bilhões em 2004 ? é responsável por R$ 1 a cada R$ 3 gerados no País - e registrou uma taxa de crescimento de 4,67% ao ano entre 1998 e 2003. A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) prevê que o Brasil será o maior produtor mundial de alimentos na próxima década. O Brasil pode crescer mais do que isto? ?Tem plena capacidade de aumentar sua produção, mas depende do aumento de demanda no resto do mundo?, avalia Pedro de Camargo Neto, ex-secretário de política agrícola do Ministério da Agricultura na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira. ?O Brasil não tem limitação espacial, tudo ainda é possível fazer nesta terra. Mas outros fatores serão importantes para determinar o aumento da demanda por produtos agrícolas brasileiros no exterior, tais como crescimento econômico, o fim da concorrência desleal e subsídios ilegais, alteração de hábitos alimentares, enriquecimento de populações e fim de barreiras tarifárias?, diz ele. Além disso, diz Camargo Neto, o Brasil tem diversos desafios internos para manter o seu ritmo de crescimento. Um deles é a infra-estrutura, com a melhoria e expansão de estradas e portos. Há ainda a questão da armazenagem e o controle sanitário. ?São questões cruciais, as que podem ser resolvidas mais facilmente do que as questões comerciais?, acrescenta. O avanço mais difícil, segundo Camargo Neto, está no fim das barreiras tarifárias e na redução de subsídios. As negociações em bloco, acordos bilaterais, discussão no conjunto do comércio mundial, tudo isso aos poucos pode resolver estas pendências. O diretor executivo da consultoria Ícone, André Nassar, afirma que parte da renda gerada pela agricultura é perdida por causa dos problemas com a infra-estrutura do país. Os preços dos principais produtos brasileiros ? soja, café, açúcar, carne, cacau - são afetados diretamente pelos custos internos.