Economia
Gargalos amea�am maiores avan�os
SABRINA VALLE Rio - Brasil deixou de ganhar US$1 bilhão de janeiro a agosto apenas com as restrições de infra-estrutura do Porto de Paranaguá, segundo cálculo da Federação da Agricultura do Paraná (Faep). O porto movimenta hoje cerca de 28 milhões de toneladas anuais, o dobro de dez anos atrás. Em março, época de escoamento da safra de soja, formaram-se filas gigantescas: 55 navios parados e 100 quilômetros de engarrafamento de caminhões à espera do descarregamento. O preço do frete, hoje em R$ 890, chegou a R$ 1.485 na época. A taxa que os navios pagam por cada dia de espera pulou para US$ 50 mil e houve embarcação que ficou um mês parada. Tamanho embaraço logístico impactou as cotações da soja em todo o país, que registraram queda de cerca de 15%, já que o porto é referência na formação de preço. A experiência de Paranaguá dá a dimensão do problema: com o sistema portuário limitado, rodovias e ferrovias em mau estado e poucas alternativas de transporte, o crescimento das vendas externas, estimado em 30% apenas para 2004, pode engasgar nos gargalos da infra-estrutura do país. As exportações cresceram 52% desde 1999 e aumentaram a demanda por estrutura logística. O problema ficou alarmante e nunca a palavra gargalo foi tão exaustivamente repetida. Dados preliminares de uma pesquisa sobre logística e comércio exterior que a Coppead/UFRJ está produzindo mostram que os problemas de infra-estrutura são apontados como os mais graves por 48 das cem das principais empresas exportadoras do país. O item fica à frente das dificuldades de se vender no exterior (21%), das barreiras à entrada em outros países (18%) e das limitações da capacidade de produção 13%), ressalta a pesquisadora Maria ernanda Hijjar. Dessas empresas, 94% dizem que a infra-estrutura atende precariamente ou simplesmente não atende às suas necessidades, 64% afirmam que os entraves na área se mantiveram ou cresceram nos últimos cinco anos e 65% são pessimistas, acreditando que a situação tende a se manter a mesma ou piorar. A Confederação Nacional dos Transportes (CNT) divulgou recentemente estudo sobre as rodovias do país no qual constata que há 231 pontos críticos nos 78 mil quilômetros de estradas do país. Desses, 7 mil quilômetros de vias estão totalmente destruídos e 35 mil quilômetros foram classificados como deficientes ou ruins. O governo, na opinião de empresários, tem dado sinais positivos, designou a desobstrução dos gargalos como uma de suas maiores prioridades e montou um grupo interministerial para discutir o problema e arranjar soluções o mais rápido possível. A cada semana, há anúncios de destinação de verbas na área. A última veio do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Ele disse ter conseguido do governo a promessa de que seu orçamento saltará dos R$ 2,3 bilhões deste ano para R$ 6 bilhões em 2005, sendo R$ 2,5 bilhões destinados exclusivamente a um pacote de recuperação de estradas e portos, com prioridade para as vias de escoamento de produtos para exportação. Também estão em andamento os processos de abertura de licitação para áreas ociosas dos portos do país e estudos de viabilidade para a construção de rodovias, entre outras medidas. No entanto, as entidades envolvidas têm pressa e, aflitas enquanto aguardam o desenrolar dos projetos, cobram ainda mais ação. - O governo tem dado sinais positivos, mas já está na hora de tomar as decisões - reivindica o presidente da Associação Brasileira de Terminais Portuários, Wilem Manteli, representante de terminais públicos e privados responsáveis por mais de 85% de todas as cargas movimentadas no país. O presidente da CNT, Clésio Andrade, diz que as perspectivas para o setor estão melhores, mas reclama que os recursos anunciados estão aquém das necessidades. Já a Federação da Agricultura do Paraná, que reúne sindicatos e produtores rurais do estado, reclama da administração do Porto de Paranaguá (nas mãos de Eduardo Requião, irmão do governador Roberto Requião, PMDB) e diz temer que desastre se repita no escoamento a próxima safra, em março.