Economia
Agroind�stria canavieira vive fase de euforia
PATRYCIA MONTEIRO Nunca foi tão bom ser empresário do setor sucroalcooleiro no Brasil. E, embora os líderes da agroindústria canavieira primem pela discrição e projeções contidas, pode-se dizer que a safra 2004/2005 instaura um momento de euforia para o segmento. De um lado, os preços do álcool dispararam no mercado de commodities puxados pelas altas cotações do barril de petróleo nas bolsas internacionais. No mercado interno, a demanda por álcool é crescente graças à comercialização dos veículos bicombustíveis ? movidos tanto a álcool quanto a gasolina ? que já representam 33% das vendas dos carros zero quilômetro do país. Resultado: o preço atual do litro de combustível está em R$ 0,97, enquanto que em novembro de 2003 estava em R$ 0,54 ? ou seja, em pouco mais de um ano houve um aumento de 55% do produto. O açúcar, por sua vez, também está vivendo seus dias de glória. A Índia ? um dos grandes concorrentes brasileiros na exportação do produto ? saiu de cena porque sua produção foi prejudicada pela estiagem prolongada. Sustentado pela perspectiva de déficit mundial, e pelo maior volume de álcool negociado no mercado externo, o preço médio do açúcar também deu um salto nos últimos doze meses. De US$ 8,73, em outubro de 2003, a saca de 50kg subiu para US$ 12,91 no mercado internacional. ?Em 2005, o setor sucroalcooleiro alagoano vai entrar no oitavo ano seguido de recordes de produção e receita, esmagando, até março, 28 milhões de toneladas de cana para produzir 2,5 milhões de toneladas de açúcar e 700 milhões de litros de álcool, marcando assim um período muito mais favorável para a agroindústria que os anos do Pro-álcool?, diz o economista Cícero Péricles de Carvalho, professor da Universidade Federal de Alagoas. De acordo com ele, os investimentos feitos pelos empresários da agroindústria nos anos 90, na modernização das fábricas, já começam a dar retorno. ?O setor está vivendo uma combinação feliz de preços remunerados no mercado nacional e mundial, com demandas internas e externas aquecidas, além da regularidade nas chuvas. Esse conjunto de variáveis deverá permitir, este ano, um faturamento de R$ 2 bilhões?, prevê. O Brasil deverá produzir 28 milhões de toneladas de açúcar e exportar 18 milhões delas. As projeções para o ano que vem são de aumento tanto da safra do Sudeste ? que deverá chegar a 330 milhões de toneladas de cana ? quanto do Nordeste ? que fechará com mais 65 milhões. Mas, segundo o economista, essa produção maior não vai trazer uma desvalorização de preços do álcool e do açúcar daqui pra frente. ?Como há um déficit mundial de abastecimento, os exportadores ainda assim terão uma boa margem, na medida em que as projeções para os preços de 2005/2006 estão elevadas. De fato, de acordo com informações recolhidas no site da Bolsa de Mercadorias e Futuros, que negocia, antecipadamente, os contratos de compra e venda para a produção dessas commodities, o preço da saca de 50kg de açúcar está em US$ 9,60, em fevereiro; US$ 9,75, em abril; e 9,28, em julho de 2005. O álcool, por sua vez, está sendo comercializado a R$ 900 o metro cúbico, no mês de janeiro, e a R$ 933, em março. ?O cenário é tão positivo que há um equilíbrio muito forte na paridade de preços entre os mercados interno e externo, com uma tendência de vantagem para as vendas internas. Os preços do açúcar no mercado interno, medidos pelo valor da saca de 50 quilos, estão até remunerando mais que as exportações?, frisa Cícero Péricles. Os bons preços dos principais derivados de cana-de-açúcar estão estabelecendo até uma certa concorrência entre o açúcar e o álcool, até então nunca vista. Este ano, o preço do petróleo esteve sob influência de vários aspectos que puseram em dúvida o abastecimento mundial do combustível fóssil e, sobretudo, das reservas americanas. A produção nas refinarias do Golfo do México permanece abaixo do normal, desde a interrupção das atividades por causa do furacão Ivan, em setembro. Isso sem mencionar o pedido de concordata da Yukos, principal petrolífera da Rússia, e o recente anúncio da redução de 1 milhão de barris na produção excedente dos países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Em resumo, uma sucessão de fatos pressionou o preço do barril do petróleo nas bolsas internacionais, elevando também o preço do álcool. Com isso, em outubro, o preço do combustível derivado da cana ultrapassou o do açúcar, que tradicionalmente sempre foi o de maior remuneração para a agroindústria canavieira. ?Entretanto, os bons preços do álcool no mercado interno ajudam a manter os preços do açúcar no país?, explica o professor. Isso ocorre porque quase todas as unidades industriais do setor são ao mesmo tempo usina e destilaria. Assim, sempre que a demanda se inclina para uma das commodities, os empresários da agroindústria redirecionam a produção. ?Mais capitalizados, os produtores estão aumentando a produção de álcool nesta safra, eliminando, dessa forma, uma possível pressão sobre o preço do açúcar?, diz Cícero Péricles. Ainda tem mais três meses de safra, mas quem apostar no crescimento da produção do álcool vai ganhar. Empresários apostam em um crescimento de pelo menos 20%. Nas próximas páginas, o leitor ficará sabendo de outras novidades e tendências.