Economia
Lucro recorde de bancos causa desconforto na base governista
A safra de divulgação de lucros recordes dos bancos em 2004 tem causado desconforto na base do governo. ?Tenho um sentimento crítico e inconformado quanto ao lucro dos bancos?, afirmou o senador petista Tião Viana (AC), novo vice-presidente do Senado. Para o parlamentar, os bancos funcionam como grandes ?agiotas? no País ao se beneficiarem das altas taxas de juros cobradas nos empréstimos à sociedade, especialmente à classe média, e sem compromissos claros com ações políticas ou sociais de desenvolvimento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, no passado, que em seu governo a era dos lucros extraordinários dos bancos iria acabar. O senador aproveitou para bater no tema da autonomia ao Banco Central. O projeto tem sido defendido nos bastidores pela equipe do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, como uma forma de aumentar a confiança de investidores no País, mas ainda é um assunto bastante controverso dentro do próprio PT. ?Esses lucros são mais um argumento contrário à autonomia do BC?, disse o senador do Acre. Os bons resultados dos maiores bancos do País também deram munição contra a política de juros altos praticada pelo BC desde o segundo semestre do ano passado. ?Não tenho nada contra o lucro dos bancos, tenho contra o desequilíbrio que isso causa à economia?, afirmou o senador Tasso Jereissatti (PSDB-CE), eleito ontem presidente da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado. Para o senador tucano, as elevadas cifras das instituições financeiras indicam que o BC pode estar perdendo o momento de ajustar as taxas de juros que, na visão do parlamentar, estão sobrecarregando os agentes produtivos do País e expandindo os resultados positivos dos bancos. O senador José Agripino (PFL-RN) definiu os ganhos bancários como um efeito ?bumerangue?, resultado de uma ?excessiva? emissão de títulos públicos pelo governo no mercado financeiro para se financiar e que são adquiridos pelos bancos. Como os juros são altos e o risco dos papéis baixo, as instituições ganhariam muito com essa rentabilidade. No ano passado, no entanto, segundo estudos de especialistas, a ampliação do crédito foi o principal motivo de aumento dos ganhos bancários, seguido da prestação de serviços - pelos quais são cobradas tarifas - e só em terceiro viria a aplicação em títulos públicos. O Banco do Brasil, por exemplo, divulgou um lucro de R$ 3 bilhões em 2004. Por ser o principal acionista do banco, com cerca de 72% das ações, o governo federal recebeu a maior parte dos dividendos distribuídos entre os acionistas. ?É de interesse do acionista majoritário que o banco continue dando lucros?, afirmou o presidente da instituição, Rossano Maranhão, no dia da divulgação do resultado. O Banco Central não quis comentar nem os resultados positivos das instituições e nem as críticas feitas pelos senadores. Itaú O grupo Itaú registrou lucro líquido de R$ 3,776 bilhões em 2004, o maior resultado da história dos bancos de capital aberto do sistema bancário brasileiro, segundo dados da consultoria Economática. De acordo com a Economática, até então, o maior resultado era do Banespa, registrado em 1997, de R$ 3,407 bilhões, segundo dados ajustados pela IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), do IBGE, até 31 de dezembro de 2004. Entre os grandes bancos brasileiros, também já divulgaram balanços referentes a 2004 o Bradesco (R$ 3,060 bilhões), o Banco do Brasil (R$ 3,024 bilhões) e o Unibanco (R$ 1,283 bilhão).