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Cana pr�pria � fator de competitividade

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PATRYCIA MONTEIRO Com a extinção do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), em 1990, uma mudança gradual foi se impondo nos canaviais nordestinos. Antes, 70% da cana-de-açúcar produzida na região era cultivada pelos produtores independentes, responsáveis pelo fornecimento da matéria-prima necessária para produção de açúcar e álcool das usinas e destilarias. Apenas 30% da cana disponível era produzida pela próprias usinas em suas plantações. No cenário atual, as proporções se inverteram. Em Alagoas, até a safra passada, 30% da cana colhida pertencia ao conjunto formado por cinco mil produtores independentes, enquanto 70% da produção era oriunda das 28 usinas do Estado. Sem a presença do órgão regulador, desde então as agroindústrias partiram em busca da competitividade, na qual a regularidade no abastecimento da matéria-prima se tornou um imperativo para manter a capacidade produtiva industrial. Segundo a Organização dos Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana), em São Paulo (maior produtor do País), dos 207 milhões de toneladas de cana-de-açúcar colhidas, 25,85% são de fornecedores. No Paraná (segundo no ranking dos produtores), com 30 milhões de toneladas de cana, a presença dos produtores independentes de matéria-prima é ainda menor - cerca de 12% - de acordo com a consultoria Datagro. No Nordeste, embora Alagoas tenha um volume de produção maior do que o de Pernambuco, lá no Estado vizinho a participação deles é maior, de 40%. Mas, afinal, do ponto de vista empresarial, é melhor ter mais cana-de-açúcar própria ou manter uma proporção maior da matéria-prima dos fornecedores? Segundo Marcelo Toledo, diretor agrícola da Usina Capricho ? que das 586 mil toneladas de cana-de-açúcar esmagada nesta safra, 257 mil eram próprias e 329 mil era de fornecedores ? privilegiar a matéria-prima dos independentes tem seu lado positivo. ?Utilizamos mais cana de fornecedores do que produzimos por uma questão social mesmo. É uma postura empresarial antiga que vem dos tempos dos meus avós. Acreditamos que com este modelo estamos promovendo uma certa distribuição de renda na região?, afirma Toledo. Por outro lado, o diretor da Usina Capricho destaca algumas dificuldades. ?Entretanto, observamos uma descapitalização do segmento dos produtores nos últimos anos. Alguns estão deixando a produção de cana e talvez tenhamos que rever essa estratégia daqui para frente, fazendo aquisições de terra para aumentar nossa produção interna?, diz. Outra dificuldade encontrada pela Usina Capricho, segundo Marcelo Toledo, está na regularidade do abastecimento. ?Normalmente, começamos e terminamos a safra com a cana própria, quando o ideal seria ter um abastecimento mais constante por parte dos fornecedores ? que às vezes preferem, dependendo da época da safra, deixar a cana no canavial, para aumentar a concentração de ATR?, conta, mencionando o índice que mede o teor de açúcar da cana e que define seu preço de mercado. Na opinião do empresário José Carlos Maranhão, da Usina Santo Antônio ? onde do 1,5 milhão de tonelada moída, 1,1 milhão é própria e só 383 mil são de fornecedores ? embora não tenha havido uma política deliberada de substituição de uma produção pela outra, a tendência de crescimento da produção própria foi natural. ?Os custos de produção ficaram muito altos. Os grandes conseguem absorver esses custos por causa do ganho em escala. Por isso podem investir em tecnologia, irrigação, novas variedades de cana, mas normalmente os pequenos têm muita dificuldade em investir?, explica. ?Dessa forma, alguns foram abandonando a atividade?. Neste sentido, Maranhão destaca que o arrendamento de terras vem crescendo no Estado. ?No caso, o proprietário da terra assina um contrato com a usina para que ela desenvolva o cultivo da cana na sua terra, enquanto o proprietário ganha um percentual pela produção, que varia entre 7% e 10%?. Mas, segundo José Carlos Maranhão, sempre haverá espaço para absorção da cana dos fornecedores. Afinal, para os empresários da agroindústria não é interessante manter suas unidades industriais ociosas, sobretudo enquanto as demandas por açúcar e álcool nos mercados interno e externo estiverem aquecidas. *** Consecana está em xeque Embora a convivência entre os empresários da agroindústria canavieira e seus produtores seja simbiótica, eles têm uma divergência essencial: o preço de comercialização da cana-de-açúcar. Não só em Alagoas, como no Nordeste e no Centro-Sul, fornecedores questionam atualmente o método de pagamento da cana: o Consecana. O Consecana foi elaborado por técnicos da Organização dos Plantadores de Cana da Região Centro-Sul (Orplana) e sugerido aos membros da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica). O método busca contabilizar o rendimento industrial da tonelada da cana, considerando seus custos de produção, determinando uma parcela do faturamento total destinado ao pagamento do fornecedor. Para tanto, o Consecana, quantifica o açúcar total recuperável (ATR) na cana e o preço de faturamento por kg de ATR, aplicando, a seguir, o fator de participação do fornecedor, do que resulta o preço bruto por tonelada de cana. A metodologia do cálculo foi estabelecida para chegar a valores mais justos tanto para os fornecedores como para os industriais. Entretanto, de um tempo para cá, os fornecedores querem rever a metodologia. No Centro-Sul as conversas estão avançadas, mas no Nor-deste ainda não ouve uma negociação. ?Vamos fazer um convênio com a Secretaria da Agricultura do Estado e a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), para calcular nossos atuais custos de produção?, diz Edgar Antunes da Associação dos Plantadores de Cana de Alagoas (Asplana). Com base nos cálculos, ele pretende estabelecer negociação com empresários e também pleitear a retomada do envio dos recursos da equalização, suspenso há três anos pelo governo federal. ?Estamos descapitalizados. Não temos margens financeiras para fazer investimentos. Por isso muitos têm deixado o cultivo de cana?, afirma. De acordo com Antunes, há 5 mil fornecedores de cana em Alagoas dos quais, 75% deles produzem até mil toneladas anuais, o que garante um rendimento de R$ 33 mil por safra. Ao contrário do que se observa em São Paulo, o maior produtor de cana do País, os plantadores alagoanos não apresentam muita diversificação de produtos, como cachaça, mel e rapadura, por exemplo. Poucos têm acesso a sistemas de irrigação e outros equipamentos de cultivo. Segundo Edgar Antunes, os pequenos produtores recebem assistência técnica dos profissionais que fazem parte da Asplana e o acesso às variedade genéticas de cana mais resistentes só se dá também por meio da associação. Pindorama Um modelo atípico no cenário formado por fornecedores e industriais pode ser encontrado na Cooperativa Pindorama, situada no município de Coruripe. Lá, dos 643 mil toneladas de cana moídas nesta safra, 621 mil eram dos acionistas da usina e destilaria da cooperativa formada por 1.660 associados. ?No Estado, os pequenos sofreram um achatamento financeiro forte. No nosso caso não. Pois aqui fechamos a cadeia produtiva e somos todos donos da matéria-prima e da unidade industrial. No final, dividimos os lucros e todos saem ganhando?, diz Klécio José dos Santos, diretor-presidente da Pindorama. Quanto às 22 mil toneladas que configuram no boletim do Sindaçúcar como cana própria, Santos explica que são canas que estão sob a razão social da cooperativa. ?Aqui promovemos uma distribuição de renda e creio que somos exemplo para o País, tendo em vista que a concentração de renda é o maior problema nacional?, diz. (PM)

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