Economia
Seca e pre�o baixo amea�am safra 2005
AGÊNCIA GLOBO Menina dos olhos da economia brasileira nos últimos anos, a agricultura se prepara para enfrentar, em 2005, um cenário bem mais adverso. A estiagem que castiga o Sul do País, aliada à queda nos preços internacionais dos principais grãos produzidos pelo Brasil, deve derrubar a receita do setor. Especialistas projetam uma redução de 14% a 17% nos ganhos do campo. Só a soja, carro-chefe da agricultura brasileira, deve obter uma receita 21% menor do que no ano passado, segundo projeções da MSConsult. A queda nos ganhos veio acompanhada de um forte aumento nos custos. O preço do frete deve ficar 7% maior este ano, na estimativa da MB Associados. Adubos e fertilizantes ? que são derivados do petróleo, em alta no mercado internacional ? subiram entre 20% e 25% no atacado em 2004, segundo a Fundação Getúlio Vargas. O aperto no bolso dos produtores agrícolas já começa a ter reflexo na indústria. A venda de tratores e colheitadeiras encolheu 28,5% nos dois primeiros meses do ano, pelas estatísticas da Anfavea, a associação de fabricantes de veículos. ?O setor agrícola vive de ciclos e viemos de um período de bonança. Nesta safra, pela primeira vez em três anos, a área plantada não foi ampliada?, explica Gervásio Castro de Rezende, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Ele acrescenta que o momento atual é crítico: março e abril são os meses de plantio nos Estados Unidos, principal referência para as cotações internacionais. ?Os preços estão muito baixos. O agricultor tem que esperar, não pode vender agora de jeito nenhum. O jeito é torcer por um milagre, que seria uma queda de safra nos EUA. Se não, a renda agrícola vai lá embaixo e o plantio para a próxima safra, dessa vez, vai encolher?, disse. Em 2005, mesmo com a área plantada mantida em relação a 2004 e com a seca na Região Sul, a produção agrícola deve crescer. A MS Consult estima uma safra de grãos de 124,6 milhões de toneladas, contra 120 milhões no ano passado. O problema maior está no preço. A safra recorde de 2003 (124,1 milhões de toneladas) foi seguida pela disparada nas cotações em 2004. Este ano, o quadro é bem diferente: ?Cenário favorável como o de 2004 não volta nem tão cedo. Os produtores vão ter que se acostumar com preços menores e buscar uma produtividade maior?, afirma Fábio Silveira, da MSConsult. Nas culturas permanentes ? café e cana-de-açúcar, por exemplo ? os preços estão em alta. Mas não serão suficientes para compensar a redução na receita dos grãos, diz Silveira. ### Vendas de máquinas agrícolas devem cair O economista Glauco Carvalho, da MB Associados, acrescenta que nas últimas semanas houve uma ligeira melhora nos preços da soja. A cotação do grão subiu 18% em março, frente a fevereiro. Mas o preço médio ? US$ 6,37 por bushel ? ainda está longe do pico de US$ 9,89 de abril do ano passado. A recente recuperação dos preços, ironicamente, foi reflexo da frustração da safra brasileira, com a seca no Sul. ?A melhora nas cotações será um alívio para aqueles que não foram afetados pela estiagem?, diz Carvalho. Mas, nas regiões castigadas pela seca, os produtores não têm outra saída a não ser cortar investimentos. Roberto Haas, presidente da Cooperativa Tritícola Santo Ângelo, no noroeste gaúcho, a 443 quilômetros de Porto Alegre, optou pela cautela tão logo percebeu a queda nos preços internacionais, no fim do ano passado. Haas pretendia comprar no início deste ano uma nova colheitadeira, de cerca de R$ 400 mil, e um trator, com preços acima de R$ 100 mil. Acabou desistindo da colheitadeira. ?Agora quem vai vender bem será o comércio de reposição, porque os produtores vão fazer mais manutenções e reformas do que aquisição de máquinas. Os preços de fato caíram e, além disso, ainda houve a seca, que reduziu a produção de soja em cerca de 80% aqui na região. Se tivéssemos nos endividado, a situação seria ainda pior, porque não temos produção para pagar?, acrescentou Haas. Com 490 hectares na Granja Dois Pinheiros, no município de Catuípe, próximo a Santo Ângelo, onde planta principalmente soja (300 hectares), milho e, no inverno, trigo, Haas também planejava comprar em janeiro 37,5 toneladas de adubo para plantar 150 hectares de trigo a partir de abril, num investimento de R$ 27 mil. Mas suspendeu os planos, preocupado com a estiagem. O Rio Grande do Sul foi o único estado do país a registrar queda na produção industrial em janeiro, de 1,1%, provocada, segundo o IBGE, pela retração nos setores de adubos e fertilizantes e de tratores e colheitadeiras. Glauco Carvalho, da MB Associados, lembra que além das margens apertadas, a venda de máquinas agrícolas deve cair 10,5% este ano porque a agricultura vem de um período de fortes investimentos, nos quais a frota foi renovada. Só o Moderfrota, programa do BNDES específico para máquinas agrícolas, injetou R$ 9,7 bilhões em financiamentos entre 2000 e 2004.