Economia
Infra-estrutura � o gargalo do turismo local
PATRYCIA MONTEIRO Mesmo com um litoral dos mais bonitos, Maceió não configura na lista das dez cidades brasileiras mais visitadas pelos estrangeiros. De acordo com o Estudo da Demanda Turística Internacional de 2003 da Embratur, a capital alagoana está lá na 18a posição em um ranking formado por 82 cidades. No topo está o Rio de Janeiro, com 36,90% de participação no mercado brasileiro, seguido por São Paulo, com 18,53%, Salvador (15,76%), Fortaleza (8,46%) e Recife (7,51%). Considerando o potencial turístico de Alagoas, Maceió poderia ter um desempenho de atratividade maior. Então, por que tem apenas 1,87% de participação no mercado nacional? Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, Márcio Coelho, uma das grandes deficiências turísticas do Estado está na infra-estrutura. ?Falta a Maceió alguns equipamentos básicos que promoveriam um incremento nos negócios turísticos. Ainda não inauguramos o aeroporto internacional, o centro de convenções ainda está sem recursos suficientes para ser concluído e precisamos fazer investimentos urgentes no saneamento da capital, para redirecionar as línguas negras que ainda escoam para as praias da capital?, diz Márcio Coelho mencionando os escoamentos de esgoto que despejam resíduos no mar de Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca e Cruz das Almas. Outro aspecto importante, segundo Coelho, é que o Estado precisa de um plano de ética e ocupação turística para definir as características dos futuros projetos dos roteiros de Alagoas. ?No litoral norte do Estado, por exemplo, é preciso ficar estabelecido o que se pode ou não fazer em termos de construção, para evitar que sejam mantidos os diferenciais turísticos da região?, afirma. Na opinião de Márcio Coelho, que também é presidente do Maceió Convention Bureau, e dono do Hotel Ritz Lagoa da Anta, o Estado deve apostar suas fichas na preservação ambiental. ?Rio de Janeiro e Salvador ? que são roteiros turísticos mais consolidados ? investiram na balneabilidade de suas praias urbanas. A Bahia investiu pesado na recuperação da Baía de Todos os Santos, e o Rio está direcionando recursos para a Baía da Guanabara. Entretanto, esses estados nunca deixaram de receber turistas internacionais porque têm outros atrativos turísticos culturais que Maceió não tem?, explica. Para Márcio Coelho, um bom exemplo nordestino que deveria ser seguido por Alagoas é o Rio Grande do Norte. Lá, 64 novos empreendimentos turísticos hoteleiros estão em andamento. ?Aqui, conta-se nos dedos: há o Onda Azul, que não sai do papel; um hotel quatro estrelas que está sendo construído pelo empresário Carlos Gatto (atual secretário de Turismo de Maceió), e um empreendimento de um empresário alagoano que vai ser erguido em Ipioca?, enumera. ?A diferença entre Alagoas e o Rio Grande do Norte, para atrair novos investimentos, está na política de incentivos fiscais oferecida aos setor turístico, que não existe em Alagoas?, diz. Segundo Coelho, embora a taxa de ocupação hoteleira alagoana tenha crescido em 2004, em relação a 2003 ? subiu de 48% para 62% - ainda não é fator decisivo para atrair novos investidores para o Estado. Afinal, Recife, apesar dos ataques de tubarões registrados no litoral, conseguiu obter uma média de 80% de ocupação no ano passado. ?Os empresários locais não possuem reservas técnicas para fazer novos investimentos. O que nós precisamos é ter segurança sobre os planos que o governo estadual reserva para Alagoas. Sem isso, o que sobressai é um cenário de incertezas, que torna qualquer investimento uma aventura?, afirma, citando que ele, Carlos Gatto e Mauro Vasconcelos, proprietário do hotel Ponta Verde, já fizeram aquisição de terrenos para construir novas unidades hoteleiras. ?Eu mesmo pretendo construir um resort no litoral norte, mas só inicio as obras quando o plano de ética e ocupação for aprovado na Assembléia dos deputados, para evitar que a construção de uma estrada na beira-mar arruine os meus investimentos?, diz. ### Recursos iniciais vieram para a prefeitura Na primeira fase do Prodetur, Alagoas obteve US$ 27,8 milhões em recursos junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), repassados pelo Banco do Nordeste, de modo indireto. Naquela ocasião, o Estado não tinha condições de endividamento porque estava com o nome no Cadin ? um cadastro informativo dos créditos não quitados de órgãos e entidades federais do Ministério da Fazenda. Parceria Com a mesma lógica aplicada ao cidadão comum, o banco não podia emprestar dinheiro ao Estado para que ele o direcionasse aos projetos de cunho turístico porque imaginava que, com o montante de débitos e poucos recursos disponíveis, Alagoas não tinha condições de efetuar o pagamento do financiamento solicitado. Então, graças a uma parceria com a Prefeitura de Maceió ? que tomou empréstimo no lugar do Estado ? foi possível receber os recursos, que foram aplicados na revitalização de Jaraguá, no desenvolvimento institucional da Companhia de Beneficiamento de Lixo (Cobel), Secretaria do Meio Ambiente (Semma), Companhia Municipal de Urbanização (Comurb) e Empresa de Turismo de Maceió (Emturma), restauração do prédio do Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Misa) e do prédio da Associação Comercial. Esse conjunto de investimentos requisitou um montante financeiro de US$ 22,4 milhões. O Estado de Alagoas captou US$ 5,4 milhões que foram direcionados à construção do centro de convenções e a obras de saneamento básico do município de Maragogi. (PM) ### Governo garante recursos Para a segunda fase do Prodetur, o governo do Estado apresentou projetos que requisitam US$ 9 milhões. Boa parte do empréstimo seria investido na conclusão das obras do centro de convenções e do saneamento de Maragogi. No total, o BID tem disponível US$ 240 milhões para emprestar aos nove estados nordestinos. A contrapartida dos governos tem de ser de pelo menos US$ 160 milhões, segundo o Banco do Nordeste. Rio Grande do Norte já tomou a dianteira e assinou contrato de empréstimo no valor de US$ 21,3 milhões. A Bahia assinou contrato de US$ 10 milhões, porém mais US$ 14 milhões estão previstos. No primeiro Prodetur, US$ 397,5 milhões foram desembolsados pelo programa para a região nordestina, dos quais Bahia (US$ 140 milhões) e Ceará (US$ 88,5 milhões) foram os que mais captaram recursos. Não há bairrismo por parte do Banco do Nordeste no critério de liberação de dinheiro. ?Os critérios são técnicos. Os projetos são avaliados e a capacidade de endividamento dos estados solicitantes também pesa?, informa o superintendente de Projetos Especiais do BNB, Stélio Gama Lyra. ?Os projetos apresentados por Alagoas precisam de alguns ajustes técnicos para receber o aval de empréstimo. Mas, o verdadeiro entrave está na Secretaria do Tesouro Nacional, que não deu o sinal verde. Eles estão avaliando as finanças do Estado?, afirma Lyra. De acordo com o coordenador do Prodetur em Alagoas, José Lima, os recursos estão certos. ?A Secretaria do Tesouro Nacional apenas exigiu, da Secretaria da Fazenda do Estado, esclarecimento sobre a negociação das letras do tesouro com o Paraná. Mas, o secretário Eduardo Henrique Araújo está resolvendo a questão?, afirma. Tomara que Lima tenha razão, afinal disso depende uma série de obras vitais ao turismo alagoano. Contudo, se o secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, se mantiver firme, o governo deve pensar em outras fontes financeiras. (PM)