Economia
Pequeno produtor tenta obter cr�dito
Maikel Marques Repórter Sucursal Arapiraca - O fantasma das dívidas rurais não inferniza apenas os produtores do Sertão, região castigada pelos efeitos da seca. Milhares de pequenos produtores de Arapiraca correm o risco de não conseguir financiamento para o plantio de lavouras de subsistência porque o município é o campeão alagoano de inadimplência. Dos 1 milhão e 800 mil reais emprestados nas últimas duas safras pelo Banco do Brasil (BB), 800 mil reais não retornaram aos cofres da agência. ?A inadimplência é recorde e gira em torno dos 44% em Arapiraca?, explica o gerente do BB na cidade, Wandyck de Matos Alexandrino. Os números vieram à tona na última sexta-feira, em reunião articulada pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arapiraca e pela Associação dos Agricultores da Região Fumageira (Agrifuma). O objetivo é conhecido: discutir e cobrar dos bancos oficiais urgência na liberação de recursos do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) para conseqüente investimento em lavouras de subsistência. Sem pendências Os bancos do Brasil e Nordeste já sinalizaram com a liberação dos recursos, mas suas respectivas gerências advertem: só há dinheiro para quem não tem pendência com a instituição. Dados do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arapiraca indicam que pelo menos 6 mil pequenos produtores dependem do financiamento para plantar, por exemplo, mandioca ou fumo a partir do próximo mês. Desse total, mais de 4 mil estão endividados e com a corda no pescoço. Restam 2 mil pequenos produtores em condição de contrair empréstimo bancário para investir no plantio. ?Infelizmente, milhares não terão direito ao financiamento?, explica o sindicalista e vereador João dos Santos. Mais de três mil pequenos produtores de Arapiraca compareceram ao encontro para discutir o assunto com a Secretaria Municipal de Agricultura e com a gerência local dos bancos oficiais. Do gerente do BB, ouviram a explicação segundo a qual o ?grande empecilho? para liberação de vultosas somas em Arapiraca é justamente o alto índice de inadimplência. ?Arapiraca tem o maior índice de inadimplência de Alagoas. Isso faz com que o Governo decida enviar os recursos para as regiões onde o índice de inadimplência é baixo?, justificou. Campeã ou não de inadimplência, a agência do BB confirmou a liberação de recursos para financiamento agrícola dos pequenos produtores que estiverem adimplentes. Na tentativa de facilitar a liberação do dinheiro, os agentes de crédito discutem o assunto com presidentes de comunidades rurais. Outra inovação será a liberação do recurso para o agricultor que honrou seu financiamento, mas poderia não receber porque avalizou a dívida de quem está inadimplente. ### Plantio de fumo no Agreste contará com recursos do BB Sucursal Arapiraca - A gerência do Banco do Brasil (BB) em Arapiraca confirmou a decisão da instituição de liberar recursos para o plantio de fumo na região Agreste, o que não acontecia há mais de uma década. A decisão beneficia pequenos produtores dos municípios de Arapiraca, Craíbas, Lagoa da Canoa, Girau do Ponciano, Taquarana, Feira Grande, Coité do Nóia, Igaci, São Sebastião e Limoeiro de Anadia. O presidente da Associação dos Agricultores da Região Fumageira (Agrifuma), Francisco de Souza Irmão, explicou à Gazeta que os recursos do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf-C) vão beneficiar produtores com área de plantio de no máximo dois hectares. O valor máximo do empréstimo sem juros será de R$ 3 mil. Haverá um ano de carência e rebate (desconto) de R$ 200 para quem honrar o débito em dia. ?Quem financiar R$ 3 mil, pagará um ano depois R$ 2.800?, explica Francisco de Souza. Quem tiver capacidade de pegar emprestado mais de R$ 3 mil, fica submetido à política de juros oficiais, que gira entre 3% e 6%. Nesse caso, não haverá desconto no ato do pagamento. Condição Para a diretoria da Agrifuma, pelo menos 2 mil pequenos produtores têm condições de contrair o financiamento. Francisco de Souza considera esse número o ideal para evitar uma supersafra do produto, o que comprometeria o preço final. ?As indústrias da cidade têm capacidade de manter preço mínimo de R$ 6 para o que for produzido em no máximo 6 mil hectares. Aí, o produtor garantiria preço mínimo de R$ 6 na venda do produto?, alerta o sindicalista. A liberação do financiamento pode gerar 15 mil empregos diretos no Agreste. Outro incentivo à produção é a perspectiva de encerramentos dos estoques de fumo em Arapiraca. ?Seis milhões de quilos estão armazenados, mas serão consumidos até o final do ano?, diz Francisco de Souza. Apelo ao ministro O presidente da Associação dos Produtores do Semi-Árido (Apressa), Maxwell Faustino, e o vice-presidente da entidade, o ex-prefeito de Santana Marcos Davi, reuniram-se em Brasília com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Eles cobraram do governo federal tratamento diferenciado para com os produtores endividados e cujos imóveis rurais estão penhorados e prestes a ser leiloados como forma de garantia dos financiamentos contraídos nos bancos oficiais. O encontro aconteceu no último dia 13, durante café da manhã com representantes da bancada nordestina. Na ocasião, Maxwell Faustino e Marcos Davi expuseram ao ministro a situação dos produtores do semi-árido alagoano. ?A exemplo do que acontece nos demais estados do Nordeste, mostramos que nos últimos 15 anos, enfrentamos sete anos de seca. Não tivemos produção. Ou seja: a renda caiu de forma drástica e ficamos sem quaisquer condições de honrar nossos compromissos nos bancos oficiais?, explicou Faustino. Os representantes do semi-árido alagoano também defenderam a imediata interrupção do processo de execução de dívidas e de leilões de fazendas no Sertão de Alagoas. Eles cobraram apoio político do ministro no sentido de garantir a aprovação de Projeto de Lei nº 4514. O texto do documento prevê a renegociação de dívidas entre 35 mil e 200 mil com juros que variam de 3% a 5% ao ano. ?O semi-árido nordestino é a única região do mundo que não tem tratamento diferenciado no oferecimento de crédito para a agricultura?, explica o ex-prefeito de Santana do Ipanema, Marcos Davi. Reforço Os representantes do semi-árido retornam ao Distrito Federal no próximo dia 27. Vão ao café da manhã com a bancada nordestina para reforçar o pedido de apoio. Desta vez, querem apoio dos integrantes da bancada nordestina na Câmara Federal. ?Que nos ajudem e compareçam ao encontro. Precisamos de apoio para garantir a sobrevivência dos produtores alagoanos?, apela o presidente da Associação dos Produtores do Semi-Árido, Maxwell Faustino. (MM)