Economia
Servi�os empregam mais nordestinos
AGÊNCIA O GLOBO Rio de Janeiro Para matar a saudade de sua terra natal, o paraibano José Marinho Cabral, de 39 anos, incorporou à rotina um hábito inusitado: ele acompanha todos os embarques de passageiros dos ônibus que saem da Rocinha, pelo menos uma vez por mês, com destino à Paraíba. É como se a cada partida ele estivesse retornando com aquelas pessoas, vivendo suas histórias de reencontros. Os ônibus seguem e ele sempre volta para casa. O que prende o nostálgico José ao Rio é o mesmo que move outros nordestinos para a cidade: trabalho. No Rio desde 1986, ele tem dupla jornada. À noite, é vigia de um prédio em Copacabana; de dia, três vezes por semana, toma conta do sobrinho Rafael, de 3 anos, para que a irmã Rosineide possa trabalhar como diarista. ?Não tenho do que reclamar. O Rio me deu o que tenho. Não bebo, não fumo e não faço farra. Tenho que juntar dinheiro?, diz ele. Setores Como José, pelo menos um em cada três nordestinos que migraram para o estado entre 1995 e 2000 trabalha no setor de serviços (31,1%). Segundo o IBGE, são principalmente domésticas, diaristas, faxineiros, balconistas, garçons, porteiros, vigias, cozinheiras e babás. A produção de bens e serviços industriais, que inclui a construção civil, abriga outros 11,6%. Juntos, os dois setores respondem por quase metade (43%) das ocupações dos migrantes nordestinos no Rio. Ainda de acordo com o IBGE, 24% ganham de um a dois salários-mínimos. Investimento José está na Rocinha há sete anos. Em 2004, ele vendeu a casa na favela depois que a mulher, Maria da Conceição Martins, com medo da violência, decidiu retornar à Paraíba com o filho do casal. ?Com o dinheiro, comprei dois imóveis: uma casa na área urbana de Queimadas e um sítio no interior do município, para onde planejo voltar até o fim do semestre?, disse. Hoje ele passa os dias entre as casas de Rosineide e de Roberta, sua outra irmã, ambas na Cachopa, na Rocinha, com vista para as paredes de moradias vizinhas. Casas que ele trata como barracos, embora sejam de alvenaria: ?Casa é no Nordeste. Aqui é tudo barraco. A gente não vive, se esconde?, afirma. ### Sonho de melhorar de vida no Sudeste É do constante vaivém entre o Nordeste e o Rio que o cearense Valdir Ramos Matias, de 39 anos, tira o sustento da família. Valdir, que partiu de Varjota (CE) há seis anos, vende passagens de ônibus. Ele montou agências de turismo (a VRM Turismo, iniciais de seu nome) em Rio das Pedras, onde mora, e na Rocinha. ?Abro a loja cedo, às 7h, e só fecho às 22h. Assim, os interessados em viajar podem me procurar antes ou depois do trabalho?, conta Valdir, que mora com a mulher, Alda, e a filha Gabriela, de 12 anos, numa casa alugada em Rio das Pedras e procura imóvel para comprar na favela. Canteiro de obras Uma visita ao canteiro de obras onde está sendo erguida a Vila Pan-americana, na Barra, mostra que a construção civil emprega muitos nordestinos. Como os irmãos Manuel, de 27 anos, Osvaldo, de 28, e Antonio Alves de Sousa, de 29, que trabalham como carpinteiros, fazendo fôrmas para o concreto. Eles deixaram Crateús (CE) para morar na Favela Gardênia Azul, em Jacarepaguá. ?Nosso pai é paralítico, não pode trabalhar, então nós temos que ajudá-lo?, diz Osvaldo. No mesmo canteiro de obras, João Paulo da Silva Moura, de 22 anos, trabalha como servente. Ele chegou de Fagundes (PB) há dois meses e está morando com o pai, também operário, em Gardênia Azul. Diferentemente de muitos de seus pares, ele concluiu o ensino médio e estava fazendo estágio como professor numa escola da Paraíba. ?As pessoas dizem que o estudo lá da Paraíba não tem valor aqui no Rio?, diz ele. Foi também em busca de trabalho que José Severino Soares deixou Olinda (PE), em 1973, rumo ao eldorado do Sudeste. Depois de passar por São Paulo, migrou para o Rio em 1975. E diz que não se arrepende. Aos 53 anos, é um dos 62 nordestinos que trabalham na Sociedade Hípica Brasileira, onde é conhecido como Curió. Tratador de cavalos, improvisa como repentista nas horas vagas. ?Aqui tem muito nordestino porque, para cuidar de um cavalo, fazer uma cama de serragem, não precisa ter um grau de leitura elevado?, diz ele. Os restaurantes são outros pontos de concentração de nordestinos. No Sushi Leblon, eles representam 80% dos cerca de 50 empregados. O mais antigo, com 12 anos de casa, é o manobrista paraibano Severino Maurício de Alexandria, de 60 anos, que mora há 40 anos no Rio.