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Para al�m dos Arranjos Produtivos Locais

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PATRYCIA MONTEIRO Editora de Economia Vinícius Nobre Lages é um agrônomo alagoano inquieto que ampliou seus conhecimentos para temas que ultrapassam as especificidades técnicas agrícolas. Para ele, a questão social da terra se tornou alvo de investigação maior do que os manejos e cultivos em si. Daí para acalentar interesse pelos temas desenvolvimentistas foi um pulo. Hoje, com alguns livros publicados como o Além da Conquista da Terra ? sobre reforma agrária em Alagoas ? Lages encerrou a organização de mais um, recentemente lançado no mercado editorial pela pela Editora Relume Dumará e Sebrae. Nele, os vários autores tratam do novo conceito de território produtivo que amplia a discussão e as estratégias que visam o crescimento das empresa e supera a idéia de Arranjo Produtivo Local (APL). Na entrevista que segue, Lages explica essa nova proposta. Gazeta - O que significa hoje a questão territorial para as políticas do Sebrae? Vinícius Nobre Lages Um país continental como o Brasil teve sempre ao longo de sua história preocupações com a chamada questão territorial, por razões estratégicas, geopolíticas, infra-estruturais. Para o Sebrae, o tema apresenta pelo menos quatro dimensões importantes: ordenamento do uso do solo e do uso dos recursos naturais, as potencialidades dos ativos tangíveis e intangíveis existentes nesses territórios, as externalidades positivas que favorecem a competitividade dos pequenos negócios ali implantados e os atores públicos e privados e instituições que interferem nos processos de coordenação política e de governança do processo produtivo. Esse esforço de integração territorial no Brasil é questão recorrente quer por razões políticas, econômicas, ambientais ou sociais. Custa caro e dá muito trabalho fazer essa integração. Os vazios infra-estruturais são enormes que terminam impactando na competitividade de nossa economia. Nossos trens de carga têm velocidade média de menos da metade da maioria dos países industrializados, colapsando o processo de logística de transportes intermodal. Mais de 70% de nossas rodovias estão em condições precárias de tráfego. O território não é mero substrato físico para a produção de bens e serviços, ele é o invólucro onde múltiplas dimensões do desenvolvimento se concentram e convergem: cultura, natureza, instituições, política, negócios, história, etc. Nos territórios passamos a reconhecer essas distintas dinâmicas e vendo como elas impactam ou influenciam os pequenos negócios. Mas, como tirar proveito das potencialidades territoriais na prática? No território se constrói, os fatores de competitividade que podem ser acessados coletivamente ou de forma compartilhada pelas micro e pequenas empresas, transformando-os em quase ?território-empresa? como definem os franceses. Territórios-empresa acabam transformando em reputação tudo o que nele é produzido, suas relações com o mercado, assim como se dá com os calçados de Nova Serrana ou de Franca, os móveis de Ubá ou de Paragominas e os jeans confeccionados em Toritama. O Sebrae também incorporou em suas estratégias de apoio aos pequenos negócios, o atendimento coletivo, com associações, cooperativas, arranjos produtivos locais, redes de empresas, entre outros. Esses agrupamentos geralmente estão localizados num dado território, como os exemplos já citados. Esse território onde estão se desenvolvendo esses negócios passa a ser importante para a construção de estratégias competitivas uma vez que se pode agregar valor ao que ali é produzido quer pelas especificidades do solo, clima, mas também pelo modo de fazer específico daquele lugar. Quanto mais um território acumula essa reputação de qualidade, quanto mais acumula saberes voltados a aprimorar essa qualidade, quanto mais isso entra na cultura fabril de sua população, mais esse território passa a agregar esse valor intangível aos bens se serviços ali produzidos. É por isso que cada vez mais estamos considerando o entorno onde se dá a produção de bens e serviços pelas micro e pequenas empresas, indo além do nível intra firmas, para podermos captar toda a potencialidade do desenvolvimento local e territorial, trazendo-a para as dinâmicas competitivas que apoiamos. Isso pode vir a ser certificado, virar uma marca ou mesmo uma estratégia de marketing. Na visão do sr., dentro da experiência dos Arranjos Produtivos Locais (APLs), o que pode ser mantido ou descartado a partir da questão dos territórios? Em recente livro que coordenei e publicamos pela Editora Relume Dumará e Sebrae, com colegas do próprio Sebrae, e participação de diversos autores, intitulado Territórios em Movimento: cultura e identidade como estratégia de inserção competitiva, tratamos da questão do desenvolvimento territorial e da dimensão cultural do desenvolvimento. A produção de bens e serviços vem se apropriando de ativos intangíveis do universo da cultura e criando estratégias de agregação de valor que criam mercados importantes. Cada vez mais a competitividade de qualquer negócio passa pela agregação de funcionalidades, de serviços. E serviços são possibilidades de encantamento dos clientes com qualidade, que passa também por uma dimensão intangível, simbólica, onde a cultura, a sociedade do entretenimento pode se inspirar nessas bases dos bens culturais de um território. Um arranjo produtivo local se define através de processos de produção de bens e serviços, de concentrações de negócios que têm vinculação com um dado território chegando mesmo a criar reputação fabril, como mencionamos. É evidente que a abordagem dos arranjos produtivos locais não dá conta da complexidade que é tratar do desenvolvimento territorial, que pressupõe tratar da totalidade dos atores, dos ativos culturais, naturais, das institucionalidades, da história, dos ?causos?, enfim, de um universo bem mais amplo que um projeto de desenvolvimento de um APL. O APL tem recorte mais definido em termos de público-alvo, de beneficiários, de ações, de resultados esperados, portanto, trata-se de uma problemática de menor dimensão do que a do desenvolvimento territorial, que pressupõe, como afirmei, tratar da totalidade, ainda que o sentido de território pressuponha subjetividades que nem sempre estão compartilhadas num projeto de desenvolvimento. É importante destacar, no entanto, que cada vez mais a abordagem de desenvolvimento dos APL passa a considerar dimensões como a cultura, o meio ambiente, aproximando-se, portanto de uma abordagem de desenvolvimento territorial. Em seu livro Além da Conquista da Terra, publicado pela Edufal, o sr. faz uma avaliação do processo de reforma agrária em Alagoas. Qual sua opinião sobre os assentamentos rurais de hoje no Estado? Quando retornei a Alagoas após o doutoramento, me engajei numa pesquisa com apoio Universidade Federal de Alagoas (Ufal), para avaliar o processo de reforma agrária e a implantação do assentamentos rurais no Estado. Passamos um ano percorrendo acampamentos, conversando com os trabalhadores sem-terra e nos assentamentos observando a experiência de implantação das famílias nos lotes. Tratava-se, na sua maioria de áreas marginais, já castigadas por décadas de cultivo da cana. Eram fazendas que haviam sido ocupadas principalmente pelo MST, e outros movimentos sociais no campo, e desapropriadas pelo Incra. Apesar da esperança de avanços no tratamento da questão agrária, empurrada para debaixo do tapete desde a década de 60, não era um quadro animador por diversas razões. Primeiro pela própria condição do homem ou das famílias ali instaladas. Tratava-se de pessoas maltratadas pelas relações de trabalho nos canaviais, com baixa escolaridade, saúde precária, despreparo para os desafios de uma agricultura mais tecnificada. Tinha a ilusão de que o acesso a terra poderia lhes resgatar dignidade, melhorar sua condição de vida, auferir renda, e até prosperar. Mas vimos que o ativo terra não significava mais muita coisa se não fosse acompanhado de conhecimento, de planos de negócio, de relações estruturadas com o mercado, face às novas dinâmicas do agronegócio no país. Além da terra, era preciso educação, recuperação da saúde, da condição de cidadania, para aí poderem ser reinseridos social e economicamente. Não sei quais os avanços do processo hoje em Alagoas. Nas diversas vezes que voltei à Alagoas e conversei com colegas ligados ao tema ouvi depoimentos desoladores, ainda que aqui e ali algumas famílias terminem se estabelecendo, adquirindo lotes dos vizinhos, expandindo sua produção e melhorando de vida. No fundo o processo ainda depende de apoio das políticas públicas integradas para se sustentar. Apesar do compromisso com a questão agrária, os avanços esperados no Governo Lula ainda não aconteceram na forma e na escala desejada, uma vez que a opção de qualificação da reforma agrária como antítese da ação do governo anterior de privilegiar o número de famílias assentadas ficou encurralada na política de contenção de investimentos públicos, limitando as intenções do Ministério de Desenvolvimento Agrário. Nesse sentido, considerando também a dinâmica social, política e econômica em Alagoas, é difícil acreditar que temos um processo exemplar de reforma agrária em curso. ### QUEM É Nome: Vinícius Nobre Lages Cargo: Gerente da Unidade de Desenvolvimento Setorial do Sebrae Nacional Formação: Agrônomo pela Ufal e Doutor em Sócioeconomia do Desenvolvimento pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais-EHESS, Paris, França

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