Economia
Expans�o depende de estabilidade da economia da regi�o
José Meirelles Passos O Globo Washington - A menos que os índices de crescimento econômico dos últimos dois anos sejam mantidos, a maioria dos países da América Latina enfrentará, em breve, crescentes tensões sociais e políticas. ?Além disso, sem que haja uma substancial reforma política e institucional, a atual expansão econômica poderá ter vida curta. O futuro da região depende, em grande parte, de que os governos tomem medidas para que a economia e a sociedade de seus países sejam mais fortes, mais resistentes e mais justas?. Essa é a conclusão de um informe especial produzido pelo Inter-American Dialogue (IAD), centro de estudos latino-americanos baseado em Washington, e divulgado na última quinta-feira, em tom de alerta. Dados comparativos com países de outras regiões reforçaram o recado: ?Dez anos atrás, a economia da China era igual à do Brasil. Hoje a chinesa é trinta vezes maior que a brasileira?, afirmou o presidente do IAD, Peter Hakim, ao distribuir cópias do estudo intitulado ?Uma brecha nas nuvens?. De acordo com ele, à medida em que o tempo passa a América Latina continua ficando para trás em relação à outras regiões. ?Há 50 anos a sua renda per capita era maior do que a da Espanha e de Portugual, e a da maioria dos países do Leste da Europa e do Leste Asiático. Hoje é menor. A economia da China, que em 1994 equivalia à apenas um terço da latino-americana, hoje é do mesmo tamanho?. Segundo o presidente do IAD, Peter Hakim, ?não é que as coisas estejam piorando tanto na América Latina: a questão é que elas não estão melhorando com a rapidez e amplitude que deveriam?. O trabalho do IAD registrou, como outros anteriores de fontes diversas, que a distância entre ricos e pobres na América Latina continua sendo a maior em todo o mundo. E a consequência mais devastadora disso, segundo o estudo, é que essa enorme diferença obriga a América Latina a crescer duas vezes mais rapidamente do que a Ásia, para conseguir uma redução da pobreza semelhante à que aquela região vem obtendo. ?Os índices de pobreza na América Latina são o dobro dos existentes no Oriente Médio, ainda que essas duas regiões tenham níveis semelhantes de renda per capita. O pior é que há evidência de sobra mostrando que o crescimento econômico em si mesmo é frustrado pelos altos níveis de desiguldade. Isso deixa a América Latina num circulo vicioso?, diz outro trecho da avaliação produzida por vários especialistas, sob a coordenação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de Peter D. Bell, presidente da Care USA, agência humanitária internacional que combate a pobreza. ?Esse informe foi escrito com preocupação e, ao mesmo tempo, com afeição. Afinal as taxas de poupança são espantosas, a infraestrutura é sofrível, e a educação não melhora o suficiente na região. Não basta sonhar com o progresso: é preciso fazer algo para obtê-lo?, disse Carla Hills, que também participou da elaboração do estudo. ### Crescer para diminuir a pobreza O ex-vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina, David de Ferranti, que também participou da elaboração do informe, disse que embora o atual crescimento econômico da região tenha um bom nível é preciso ampliá-lo - para uma média de pelo menos 6% anuais - para que haja uma rápida redução da pobreza. ?O risco é todo mundo ficar achando que os índices de crescimento de 2004 e 2005 são ideais. Eles são bons mas é preciso melhorá-los. E agora é o momento certo para tomar providências. Quando bate o sol é que se deve arrumar o telhado: é preciso fazer isso antes que venha a chuva?, disse ele. Educação O estudo dá grande ênfase na necessidade de se aprimorar a educação na América Latina. A vantagem da China na competição no mercado mundial, segundo os seus autores, não está - como se imagina - na sua mão-de-obra barata e, sim, no rápido avanço tecnológico dos chineses. ?O número de matrículas em escolas da América Latina se expandiu enormemente. Mas a qualidade da educação permanece medíocre. Nos testes internacionais os estudantes latino-americanos obtém as notas mais baixas?, diz um trecho do informe sobre a região. Ressaltando que ?em vez de promover a mobilidade social e uma maior igualdade, a educação em grande parte da região reforça e mantém as desigualdades nacionais?, que seria, de acordo com o estudo, ?um reflexo das enormes diferenças entre a qualidade das escolas públicas e privadas, e da pequena fração de estudantes que freqüentam as universidades?.