Economia
BNDES defende juro baixo e d�lar alto
| JANAÍNA LAGE Folha Online A segunda rodada de discussões de economistas no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a criação de uma agenda positiva de desenvolvimento chegou ao consenso que para atingir o crescimento sustentável o país precisa de uma taxa de juros mais baixa para que o câmbio pare de cair. A principal discussão do encontro girou em torno da proposta de déficit nominal zero apresentada pelo deputado Delfim Netto (PP-SP). As principais preocupações dos economistas foram a ampliação do nível de investimento e o temor de que a proposta resulte em maior economia do governo nos gastos com infra-estrutura. O encontro reuniu o presidente do BNDES, Guido Mantega, diretores do banco, além dos economistas Yoshiaki Nakano (FGV), Júlio Gomes de Almeida (Unicamp), Antonio Lacerda (PUC), Gilberto Tadeu Lima (USP), José Graziano (assessor da presidência) e Antonio Silveira (Planejamento). O banco pretende realizar novas rodadas de discussões e encaminhar uma proposta à equipe econômica. Mantega enfatizou que tem tido contato com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. ### Exportações dependem de investimentos públicos Segundo o presidente do BNDES, o Brasil possui hoje condições excepcionais para o crescimento sustentável, com o avanço das reformas e o aprimoramento do marco institucional brasileiro, mas ainda é necessário criar as condições para que o País atinja um patamar de crescimento de 5% a 6% ao ano. Apesar do consenso sobre os efeitos da política monetária, há divergências sobre a forma de se chegar ao crescimento sustentado. Mantega afirmou ser favorável ao déficit nominal zero, desde que ela não afete o nível de investimento público em infra-estrutura. ?Concordo com a idéia de que devemos tentar fazer um ajuste fiscal mais forte, com redução dos gastos de custeio, sem prejudicar o investimento?, disse. INFRA-ESTRUTURA Mantega destacou que sem investimentos públicos, estradas, ferrovias e portos, o País não conseguirá elevar o desempenho do comércio exterior nem garantir um crescimento superior a 3,5% ao ano. O BNDES destacou que não pretende tecer críticas à política econômica, mas entre um e outro discurso, a contestação se tornou evidente. Antônio Barros de Castro, diretor do BNDES, chegou a classificar a política econômica como ?punitiva?. ?A política macroeconômica foi bem mais punitiva do que se esperava. A partir desse endurecimento tivemos um clima deteriorado?, afirmou em alusão à menor expectativa de crescimento para este ano. Ele afirmou também que o País só consolidará o crescimento se aumentar a taxa de investimento e denominou o crescimento esperado para este ano, de 3,5%, como ?medíocre?. ?Não existe nada mais heterodoxo no mundo do que a taxa de juros no Brasil?, afirmou o economista Yoshiaki Nakano. Segundo o Nakano, o Brasil substituiu o consenso sobre a necessidade de crescimento na faixa de 7%, que perdurou durante quatro décadas, pela visão de que o mais importante é o foco na inflação, o que resultou num crescimento pouco superior a 2% nos últimos 20 anos. Ele criticou também a valorização do câmbio, que ?pune quem produz aqui e premia quem produz no exterior? O Brasil, lidera o ranking mundial de juros altos. Além disso, o País tem se distanciando a cada mês do segundo lugar, que em junho passou a ser ocupado pela Hungria, com juro real de 5,1% ao ano. A Turquia caiu para a 3ª colocação com taxa de 4,7%. |JL ### Taxa Selic deve cair em setembro Embora os dados macroeconômicos já ofereçam condições para o Banco Central (BC) iniciar o afrouxamento monetário, a maior parte do mercado continua apostando que o início da queda da Selic, atualmente em 19,75% ao ano, só começa em setembro. Esta semana foi divulgado o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho. O índice apontou alta de 0,25%, ante deflação de 0,02% em junho. O indicador levou alguns profissionais a apostarem em redução da taxa básica no encontro deste mês. Os especialistas do ABN Amro Asset Management, no entanto, não concordam. Em relatório, os profissionais destacam que mesmo diante da crise política os bons fundamentos da economia estão sendo preservados, principalmente em razão da manutenção do crescimento global, que tem impulsionado as exportações e a produção, com reflexos positivos sobre o emprego. Os profissionais avaliam que a atual política monetária tem sido bem sucedida em desacelerar moderadamente a atividade econômica para minimizar o risco de inflação futura. Outro ponto destacado é a retomada do investimento produtivo, que deve aumentar a capacidade de produção e possibilitar a redução da taxa de juro para os menores patamares da história. Por isso, o ABN Amro estima que queda começa a partir do mês que vem. Há pouco, Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) informou que a Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da primeira quadrissemana de agosto apontou inflação de 0,19%, abaixo da expectativa do mercado, de alta de 0,31%. Juros bancários Na contramão da Selic, as taxas de juros cobradas pelos bancos apresentaram a primeira queda deste ano em junho, mesmo com a manutenção da taxa básica em 19,75% ao ano. O juro médio caiu de 49,4% para 49%. A taxa média cobrada da pessoa física recuou de 65,7% ao ano para 64,7% ao ano e para as empresas, passou de 33,7% para 33,4% ao ano. Os dados foram divulgados hoje pelo Banco Central. No caso das pessoas físicas, o destaque ficou por conta do custo do crédito para a aquisição de bens, que recuou 3,7 pontos percentuais, para 54,1% ao ano em junho ? a menor da série, iniciada em 2000. Esse recuo, segundo o BC, ocorreu devido aos acordos feitos entre as redes de varejos e instituições financeiras. No entanto, segundo Altamir Lopes, chefe do Departamento Econômico do BC, ainda é cedo para saber se a queda das taxas de juros é uma tendência.