Economia
Empresas mant�m investimentos
| Janaína Lage Folhapress Rio de Janeiro - A crise política e os juros altos não afetaram a disposição do empresariado de fazer investimentos produtivos, como construir novas fábricas ou comprar máquinas e equipamentos, revela a Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação de julho da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Das 679 empresas entrevistadas nos anos de 2004 e 2005, 59,6% pretendem investir neste ano um montante superior ao do ano passado. O total programado de investimentos é de R$ 46 bilhões, 18,2% a mais, em termos reais, do que no ano passado. Segundo o coordenador da pesquisa, Aloisio Campelo, a avaliação dos empresários é a de que a crise do ?mensalão? e a política monetária restritiva constituem momento pontual na história do País. ?A visão do empresário é de que este momento é passageiro?. Outro indicativo da disposição do empresariado é a relação investimentos/vendas. Em 2005, os investimentos projetados pelas empresas chegam a 11,1% das vendas, segundo a FGV, o maior percentual da década. Em 2004, a proporção havia sido de 10%. A pesquisa não avalia, no entanto, a qualidade do investimento. Estudo recente do BNDES mostrou que o empresariado está disposto a investir em máquinas e equipamentos, mas ainda se mostra cauteloso em relação à construção de novas plantas. O único setor que mostra desânimo nos investimentos é o de material de construção. De 58 empresas consultadas, 51,7% disseram que planejam investir mais. Os investimentos projetados, porém, são 16,2% inferiores aos de 2004. ?É preciso um nível de renda maior para aquecer o mercado imobiliário?, afirma Campelo. O setor de bens intermediários (insumos industriais) é o mais otimista. ### Dívida pública vai a 51,3% do PIB Juros altos e inflação baixa. A combinação desses dois fatores tem sido responsável por uma piora de um dos principais indicadores fiscais do País: a relação entre a dívida do setor público e o PIB (Produto Interno Bruto). No mês passado, a dívida líquida do governo federal, somada à de Estados, municípios e estatais, somava R$ 971,751 bilhões, valor equivalente a 51,3% do PIB. Em junho, essa relação estava em 51,0%, e, em maio, em 50,6%. Essa escalada reflete, especialmente, o impacto negativo que a queda da inflação tem sobre o indicador. Isso porque, para calcular essas estatísticas, o Banco Central corrige o valor do PIB, mensalmente, pelo IGP-DI. O problema é que o IGP-DI tem apresentado variações negativas desde maio. Só entre junho e julho, essa deflação teve um impacto de R$ 5 bilhões no PIB estimado pelo BC - com um PIB menor, a dívida pública, proporcionalmente, fica um pouco maior. queda da inflação A queda da inflação registrada nas últimas semanas no Brasil reflete, em parte, as sucessivas elevações dos juros desde o final do ano passado. A taxa Selic, que em setembro de 2004 estava em 16% ao ano, está hoje em 19,75%. O BC diz que o aperto tem por objetivo conter a alta dos preços, mas a medida acaba afetando também a dívida. Segundo o BC, 52,9% da dívida pública é corrigida pela Selic, taxa que corrige a maior parte dos títulos públicos em circulação no País - boa parte desses papéis está nas mãos de bancos e fundos de investimento. Assim, quando os juros sobem, o endividamento tende a aumentar. Para o economista Francisco Lopreato, da Unicamp, o caminho para uma situação fiscal mais equilibrada passa por uma análise sobre o rumo da política de juros conduzida pelo Banco Central. ?O governo se diz preocupado com a idéia de sustentabilidade da dívida, mas diante de uma política monetária extremamente rígida fica difícil encontrar uma saída?, diz. novos empréstimos Entre janeiro e julho, o setor público gastou R$ 92,264 bilhões com encargos financeiros, 27,8% mais que em igual período de 2004. Como o governo não tem dinheiro para honrar toda essa carga de juros, a saída acaba sendo tomar novos empréstimo, aumentando ainda mais sua dívida. Também entre janeiro e julho, o superávit primário do setor público ficou em R$ 68,745 bilhões. O superávit acumulado até agora representa 6,27% do PIB. O objetivo do governo é fazer com que o resultado deste ano alcance R$ 83,850 bilhões - 4,25% do PIB. Segundo o chefe-adjunto do Departamento Econômico do BC, Luiz Malan, a relação entre dívida e PIB deve voltar a subir neste mês. A expectativa é que a proporção chegue a 51,5%, nível em que deve permanecer até o final do ano, nas contas do BC. Para o economista Manuel Enriquez Garcia, professor da USP, o tamanho da dívida brasileira em si não chega a ser preocupante. ?Está dentro da média internacional?, afirma. A diferença, diz Garcia, é que, enquanto alguns países conseguem prazo de 20 ou 30 anos para pagar suas dívidas, o endividamento do setor público brasileiro tem prazo médio variando de dois a três anos. ### Apesar de crise, Bolsa lidera ganhos Apesar do forte sobe-e-desce do mercado acionário nas últimas semanas, a Bolsa de Valores de São Paulo conseguiu se destacar como o investimento mais rentável do mês até a última semana. É claro que os ganhos com um fundo de ações variam de acordo com os papéis que formam sua carteira - pois sempre há umas em alta e outras em baixa em determinado período. Mas uma carteira igual ao Ibovespa (índice que reúne as 55 ações de maior liquidez do mercado) acumula valorização de 4,04% em agosto. O CDI (referência para fundos DI e de renda fixa) tem alta média de 1,40% no mês, a poupança, de 0,85%, e o dólar, de 0,97%. No acumulado do ano, a Bovespa ainda está em dívida com os investidores e tem alta modesta de 3,43%. A ação ON da TIM Participações foi o destaque da semana e subiu 11,25%. Logo atrás ficou o papel PN da Acesita, com alta de 9,10%. Foram 40 as valorizações entre as ações do Ibovespa na semana. Em um dia fraco de notícias com relação aos supostos esquemas de corrupção no governo federal, a Bovespa recuou 1,12% no pregão da última sexta-feira, o que engoliu parte dos ganhos mensais. medo do fim de semana Como tem sido nas sextas-feiras, o mercado operou temeroso de que novos ingredientes surjam no fim de semana para aumentar as turbulências políticas. O dólar subiu 0,21% (para R$ 2,403), e o risco-país fechou a 416 pontos, alta de 0,48%. O fato de o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal, ter negado veementemente que tenha sido sondado para eventualmente substituir o ministro Antonio Palocci Filho ajudou a reduzir um pouco do estresse do investidor no encerramento dos negócios. No pior momento do dia, o dólar subiu 1,42%, e a Bolsa caiu quase 1,50%. O cenário externo não ajudou muito o mercado na última sexta-feira. Declarações de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (banco central americano), de que a ?liquidez abundante pode desaparecer rapidamente? não agradaram. A Bolsa eletrônica Nasdaq caiu 0,64%. Em Nova York, o Dow Jones, perdeu 0,51%. No pregão da BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros), as projeções para os juros subiram um pouco, mas nada que mudasse a expectativa crescente no mercado de que a taxa básica do Brasil será reduzida no próximo mês de setembro.