Economia
Consumo popular incrementa feiras
Fátima Almeida Repórter Frutas, legumes, ervas, cereais, e até uma temperada pimenta de cheiro. Tudo a alguns passos de casa; às vezes até sem precisar de transporte. Cada vez mais as feiras livres vão surgindo nos bairros de Maceió. Oferecendo comodidade para alguns e incomodando outros, elas vão se estabelecendo, gerando ocupação e renda, e se transformando em tendência. Com uma oferta variada de produtos, elas vão conquistando o gosto do consumidor e a simpatia dos gestores públicos. Esta semana, o secretário municipal de Indústria, Comércio e Agricultura, Rafael Tenório, em meio à polêmica gerada pelo funcionamento da primeira feira itinerante do conjunto Joaquim Leão e seus efeitos no trânsito e na vida do bairro, confirmou o que já tinha anunciado: a idéia da Prefeitura de Maceió é instituir feiras livres nos bairros mais populosos e de comunidades mais pobres. A estratégia, segundo Tenório, visa gerar ocupação para as famílias nos bairros, e ao mesmo tempo facilitar a vida das pessoas de baixa renda, evitando gastos com locomoção para quem mal tem o dinheiro de comprar mantimentos. ?Muita gente sai de Fernão Velho, Rio Novo e outros bairros distantes para fazer feira no Mercado da Produção. Seria bem melhor se pudessem fazer isso perto de casa?, defende ele. O projeto começou pela parte baixa de Maceió, abrangendo os bairros do Vergel, Trapiche e Prado. A primeira foi a do Joaquim Gomes e a proposta é de que a feira seja itinerante (a banca é armada pela manhã e desarmada no fim do dia), ficando um dia em cada localidade. No calendário inicial, programado pela Secretaria Municipal de Indústria, Comércio e Agricultura (Semica), a feira começaria na quarta-feira, na comunidade de São Sebastião (Ouricuri); na quinta-feira passaria para a Coréia (Trapiche); na sexta-feira seria a vez da Praça Moleque Namorador; o sábado seria o dia do conjunto Joaquim Leão (que acabou conquistando também o domingo); e o domingo ficaria para a Praça Pingo d?Água. Se der certo, o projeto vai se estender para outras áreas, duas na parte alta, e mais uma na parte baixa, na região do Poço e Jatiúca, onde já existe uma feira livre permanente. No tabuleiro, segundo o secretário, a tarefa seria organizar a feira já existente, mas a Semica tem planos, a curto prazo, também, para a região de Fernão Velho, atendendo às comunidades de Goiabeiras, ABC e Rio Novo. A idéia é começar já no dia 15. ?É um projeto piloto, que precisa da colaboração dos feirantes. Porque se não der certo, se começar a tumultuar, vamos parar!?, avisa o secretário. ### Organização é o maior desafio do poder público O risco iminente de tumulto e de loteamento comercial de espaços nas feiras livres é a principal preocupação do secretário Rafael Tenório. Bastou começar, a feira do Joaquim Leão já deu sinais do que pode acontecer, se não houver fiscalização eficiente e constante do poder público. ?Já tinha gente loteando áreas para vender, e pessoas vindo até do Tabuleiro, querendo montar banca. Não é esse o nosso objetivo. Temos que contemplar as pessoas do bairro, dentro de um limite e de critérios de organização, senão vira uma favela, e se isso acontecer, o projeto perde a razão de continuar?, disse ele. Segundo o secretário, a feira do Joaquim Leão, instalada no canteiro central da Avenida Silvestre Péricles, começou no dia 27 de agosto, com 175 cadastrados, mas na segunda-feira já tinha mais de 400 pessoas, com os mais variados produtos, desde frutas, legumes, cereais até roupas e artesanato. Os feirantes queriam mais espaço e todos os dias da semana. Conseguiram dois dias: o sábado, das 6 às 18 horas, e o domingo, até às 14 horas, depois terão que recolher todo o material, até o sábado seguinte. ?Não dá para ser a semana toda. Isso exige infra-estrutura, limpeza e organização, com banheiros químicos, contêineres, fiscalização permanente para não virar bagunça, e mexe com o trânsito e com a vida das pessoas. Além do mais, o bairro não comporta uma feira de domingo a domingo?, diz ele. Além dos novos espaços, a secretaria quer organizar as feiras já existentes, das mais antigas, como as do Tabuleiro, Jacintinho e Jatiúca, às mais recentes, como as do Graciano Ramos, Benedito Bentes II, Eustáquio Gomes e Novo Mundo. É o que desejam os consumidores, vizinhos das feiras livres e os próprios feirantes. Mas estes nem sempre estão prontos a colaborar, principalmente quando a organização implica em mudança de lugar ou de padrão. |FA ### Informalidade impulsiona crescimento Proximidade, variedade e preço competitivo são os principais atrativos das feiras livres dos bairros. Esse crescimento deste comércio tipicamente popular é decorrente de dois fenômenos: o crescimento do mercado informal, mas também da ampliação do consumo das classes D e E. A informalidade é gerada pela pouca oferta de trabalho com carteira assinada. Segundo economistas, sem encontrar espaço no mercado formal, a mão-de-obra pouco qualificada busca no comércio informal um meio de vida. Já o crescimento do consumo popular, no Estado, é decorrente da distribuição de renda sem produção dos programas sociais do governo federal, que não há em vista novos investimentos do setor produtivo que justifiquem um aquecimento econômico significativo. A grande desvantagem desse tipo de expansão do varejo é que ele surge de forma desordenada: uma banca de macaxeira aqui, uma barraca de frutas ali, um carrinho de verduras mais adiante, e pronto, começam a aparecer vendedores de todos os lados, ocupando as vias públicas, inviabilizando o trânsito e causando transtorno graças à falta de planejamento urbano e comercial. E por mais que se esforcem os feirantes e órgãos municipais, é inevitável aquela sujeira de final de feira. Na história da feirinha do Tabuleiro, por exemplo, está escrito o capítulo final de um dos restaurantes mais tradicionais de Maceió: Onde Canta o Sabiá. O proprietário perdeu uma verdadeira batalha contra os feirantes, que ocuparam o acesso, tomaram a porta de entrada e inviabilizaram a chegada dos clientes. Ele ainda tentou a alternativa de abrir novo acesso pelos fundos, mas a dificuldade de chegar, a proliferação de barracas e a sujeira do ambiente acabaram neutralizando o charme do lugar que, aos poucos, perdeu a clientela e fechou as portas há cerca de cinco anos. Ruas intransitáveis A feira do Tabuleiro é permanente, mas ganha movimento maior a partir da quinta-feira. Antes, os sábados e domingos eram livres, mas agora, nesses dias, o trânsito fica inviável. Os moradores reclamam e os próprios feirantes reconhecem: nesses dias é impossível passar ou encostar o carro em qualquer ponto da Avenida Maceió, o que acaba prejudicando, também, os feirantes que ficam no mercado público. As tentativas do poder público municipal em organizar o espaço sempre foram suplantadas pelo inesgotável crescimento da feira e pela resistência dos feirantes, que se recusam a sair da via pública e ir para uma área fechada. O espaço foi preparado pela prefeitura, em área calçada, cercada, com banheiros, mas falta o convencimento dos comerciantes de que será melhor para todos. ?Eles acham que vão ficar imprensados, que vão perder a freguesia e que o espaço será diminuído?, diz a presidente da associação dos feirantes do Tabuleiro, Raidionê Gonçalves dos Santos. A própria Raidionê se diz prejudicada, desde que sua banca de cereais foi para dentro do mercado público. ?As bancas, do lado de fora, não deixam espaço para o estacionamento de carros. Por isso, muita gente não entra?, diz. A situação melhorou depois da determinação de que todo cerealista só pode vender seu produto dentro do mercado público do bairro. Raidionê defende que a melhor maneira de organização, sem prejudicar os feirantes, é separar por setores. ?Eles poderiam levar para o galpão os vendedores de calçados e confecções. Se todos fossem para lá, as pessoas teriam que ir comprar. O que não dá é levar uns e deixar outros, porque aí, quem fica do lado de fora leva vantagem?, reflete ela. Foi assim que a prefeitura conseguiu organizar, por exemplo, os comerciantes da Feira do Jaraguá, hoje agrupados no mercado público do bairro. Aluga-se Outro problema na expansão das feiras livres é a comercialização de espaço. Segundo a presidente da associação da Feirinha do Tabuleiro, tem gente com até 12 bancas que já deixou de ser feirante para viver do aluguel desses espaços. ?Isso deveria ser proibido, com uma fiscalização mais forte?, sugere Raidionê. Na feira do Jacintinho, uma das maiores de Maceió, esse problema é menor. O bairro cresceu ao redor do comércio varejista que começou na porta das casas e tomou calçadas e vias públicas, inclusive na Rua Coronel Paranhos, o principal corredor de transportes do bairro. Os problemas no trânsito nos horários de pico são inevitáveis, mas os moradores do bairro parecem não se importar. Quem tem um ponto, não vende nem aluga, monta seu próprio negócio. ?Se abrir a boca, vende na hora. Tem muita gente procurando?, diz Cícero Romualdo dos Santos. Ele era feirante há mais de 30 anos, com um ponto comercial na porta de casa. Em decorrência de uma dificuldade vivida teve que vender o imóvel e não conseguiu outro ponto na área mais movimentada, deixando de ser comerciante. Hoje, a feira virou a própria identidade do bairro, e com uma peculiaridade: o Jacintinho se expandiu como área comercial, sem deixar de ser residencial. Em praticamente todos os prédios mora uma família que mantém algum tipo de negócio. ?Esse comércio é bom porque muitas pessoas que viviam sem emprego vão arrumando um lugarzinho para vender alguma coisa?, diz o comerciante José Santana. ?Ninguém precisa sair daqui para comprar em lugar nenhum. De tudo é possível encontrar na feira do Jacintinho?, diz Francisca Mariano, que trabalha com a família, vendendo confecções na porta de casa. A organização desses espaços, segundo o secretário da Indústria, Comércio e Agricultura, Rafael Tenório, é um dos grandes desafios da sua pasta. ?É uma maneira de gerar ocupação e renda, sem problemas de deslocamento. As pessoas trabalham nos próprios bairros em que vivem?, diz. FA ### Ponto comercial é instável para feirantes A exemplo da congênere mais famosa, a legendária Feira de Caruaru, cantada por Luiz Gonzaga em versos do poeta Onildo Almeida, também nas feiras dos bairro de Maceió, ?de tudo tem pra vender?. Vassoura de palha, xerém de milho, colher de pau, cenoura, pimenta de cheiro, banana, passarinho, mel de abelha integram o enorme leque de variedades que atrai clientes fiéis como o aposentado Enoque Bezerra. Desde que passou a residir no bairro, há mais de 13 anos, virou freqüentador assíduo da feirinha da Jatiúca. Conhece todos os feirantes e é conhecido por eles. Cumprimenta, conversa, pechincha, e encontra tudo o que quer. ?Acho melhor do que ir ao supermercado?, confessa ele. Mas nem todo vizinho vê com bons olhos as barracas que se estendem por todo o quarteirão, cercando um terreno onde funcionava, até pouco tempo, uma fábrica de temperos. ?Eles nem vendiam para a gente?, diz a feirante Neide Ferreira. Mas mesmo assim eles lamentam o fechamento do empreendimento. Agora, o prédio está à venda, e os feirantes temem a pressão de quem vai chegar, para que deixem o local. ?Os fiscais já avisaram que a gente fosse se preparando para sair daqui?, diz o comerciante José Geraldo da Silva. Da última vez que ganharam vizinhos novos (o Residencial Matheus Cândido), os feirantes quase eram expulsos da área. José Geraldo, que trabalhava na feira desde o começo, há cerca de 28 anos, perdeu o ponto, com outros dez colegas. Agora ele chega com a mercadoria no carro, encosta na calçada e no final do dia vai embora. A feira livre da Jatiúca é uma das mais organizadas de Maceió, mas não deixa de causar prejuízos ao trânsito. O ideal, na opinião do líder dos feirantes do local, Jailton dos Santos Teixeira, seria construir um mercado público na área e organizar todos os feirantes que já trabalham no local. |FA