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Vendas do com�rcio crescem 18,25%

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PATRYCIA MONTEIRO Editora de Economia Desde março do ano passado, o comércio alagoano vem registrando meses de sucessivos incrementos nas vendas. Considerando que o varejo nacional tem se mantido aquecido ao longo de 20 meses, poderia-se imaginar que a série de altas no Estado apenas acompanha a tendência observada no País. Mas esta seria apenas uma conclusão precipitada. Conforme aponta a Pesquisa Mensal do Comércio realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há dezesseis meses as vendas do varejo de Alagoas têm crescido sempre acima das médias nacionais. Além disso, no mês de julho (último pesquisado), as vendas do comércio brasileiro começam a apresentar sinais de desaceleração enquanto as de Alagoas continuam de vento em popa. Só para se ter uma idéia, no Brasil as três variações recentes de crescimento levantadas pelo IBGE nos meses de maio, junho e julho foram de 2,67%, 5,32% e 4,50%, respectivamente. Vale ressaltar que a base de comparação é a do mesmo período de 2004 ? ano extremamente positivo para o setor. No ano, o País já acumula incremento de 4,62% nas vendas. Em 12 meses, a variação é de 6,34%. Alagoas, por sua vez, está bem à frente dos percentuais nacionais. Em maio, o Estado registrou 12,94% de alta nas vendas. Em junho, a média foi de 17,43% e em julho de 18,25%. Se o Estado vivesse um período de euforia econômica esse fenômeno de consumo seria facilmente explicado. Entretanto, nos últimos anos não se observou a chegada de novos investimentos por parte da iniciativa privada no Estado. Além do mais, não houve uma oferta adicional de empregos no mercado formal de trabalho alagoano. Ao contrário, o mercado local continua mantendo suas características cíclicas de absorção de mão-de-obra. Nos meses de agosto a novembro se concentram a fase de contratações, em função da retomada da safra de cana-de-açúcar e da alta temporada turística. Por outro lado, as demissões começam em dezembro de cada ano e se prolongam até abril. Este ano, não foi diferente. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego, até julho deste ano cerca de 35,9 mil profissionais foram admitidos pelo mercado formal de trabalho, enquanto aproximadamente 66,7 mil foram demitidos. Assim, existe um saldo negativo de 30 mil trabalhadores sem emprego em Alagoas. Cenário regional Mas, então como explicar esse fenômeno de consumo verificado no Estado? A primeira pista pode ser encontrada na comparação das variações de crescimento do comércio observadas nos estados nordestinos. Segundo a pesquisa do IBGE, as maiores altas nas vendas são observadas no nordeste e norte do País ? conhecidamente as regiões de economias mais pobres. Em contraste, é no Sul e no Sudeste ? regiões mais desenvolvidas economicamente ? onde se observa as menores médias de crescimento. Prova disso, é que no último levantamento do IBGE, divulgado esta semana, os dois estados que registraram as maiores variações nas vendas do varejo foram o Tocantins (36,45%) e a Paraíba (32,52%). Em São Paulo a alta foi de 2,64% e no Rio de Janeiro, de 5,17%. No Sul houve até queda nas vendas: o Paraná com -0,48% e o Rio Grande do Sul, com -2,92%. No Nordeste, apenas a Bahia não apresentou desempenho tão expressivo quanto os outros estados conterrâneos, registrando modestos 7,89% de incremento nas vendas. Depois da Paraíba, os campeões de consumo no mês de julho da região foram Sergipe (22,71%), Rio Grande do Norte (21,10%), Piauí (20,33%) e Maranhão (18,71%). O Ceará teve alta de 15,57% e Pernambuco de 12,93%. Então podemos concluir que nas regiões onde há mais desenvolvimento econômico as vendas continuam aquecidas, mas nem tanto. Nas regiões menos desenvolvidas, as médias são maiores. Para explicar as razões que levam os mercados varejistas a reagirem de forma diferente, a Gazeta consultou três economistas. Nas próximas páginas o leitor vai compreender melhor qual é o milagre econômico do comércio de Alagoas. ### No Brasil, fator crédito dá sinais de esgotamento Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a receita de crescimento do varejo, que tem apresentado incremeto nas vendas há 20 meses, está baseada no controle da inflação, na expansão do crédito ao consumidor e na queda do dólar. Contudo, o instituto observa sinais de esgotamento deste modelo crescimento. Segundo o IBGE, a comercialização de móveis e eletrodomésticos, por exemplo, caíram 1,88% em julho. Vale ressaltar que o segmento vinha liderando o crescimento das vendas graças à expansão do crédito. Segundo Reinaldo Pereira, economista do IBGE, o resultado pode estar indicando esgotamento do crédito. ?Entretanto, é necessário observar uma série mais longa para verificar a confirmação deste comportamento?, afirma. Outra atividade que vinha registrando boa performance nas vendas foi o segmento dos hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo que tiveram queda de 0,80% em relação a junho. O desempenho destes segmentos do comércio depende mais do fator renda do que de crédito. A queda, de acordo com o IBGE, pode ser explicada pelos efeitos do aumento do salário mínimo, que tiveram impacto maior no mês de junho. Os combustíveis e lubrificantes também tiveram resultados 4,74% menores em relação a junho. Para o instituto, essa redução se deve ao aumento recente de preços que causam uma retração por parte do consumidor. A expectativa para os próximos meses é de manutenção das taxas positivas em razão do início do ciclo de queda dos juros, com o corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros definido ontem pelo Banco Central. Entre os aspectos negativos, o instituto menciona a queda da produção industrial em julho e a deteriorização do quadro de crise política. PM ### Economistas divergem sobre fenômeno As altas médias de crescimento do consumo no Estado estão longe de trazer consenso entre economistas alagoanos. Na opinião deles, muitos são os fatores econômicos que têm contribuído para o bom desempenho nas vendas do comércio, entre eles, o aumento da renda no País, a expansão do crédito, as ofertas, promoções e crediário oferecidos pelos comerciantes e a distribuição de renda sem produção feita pelos programas sociais do governo federal. Para a economista Luciana Caetano, sem aumento de produção que justifique aumento de renda, o principal catalisador do desempenho do varejo de Alagoas tem sido o acesso ao crédito. ?Empréstimos como o consignado, com desconto em folha, antecipam a renda e trazem um certo aquecimento que se traduz em consumo?, afirma. Segundo Luciana, o baixo poder aquisitivo da população do Estado ? cerca de 70% dos alagoanos ganham até 1 salário mínimo, segundo o IBGE ? faz com que exista uma certa demanda reprimida por itens semi-duráveis como roupas, calçados e também por bens duráveis, como eletrodomésticos, por exemplo. A seu ver, ainda é cedo para dizer se o incremento nas vendas do varejo é sustentável ou apenas uma ?bolha de crescimento?. ?Tudo vai depender de qual tipo de crédito que está tendo maior impacto positivo sobre a boa fase vivida pelo comércio alagoano. Se for o crédito consignado, em breve haverá sinais de esgotamento de recursos para o consumo. Mas as altas nas vendas forem fruto de um aumento de renda gerado pelo crédito produtivo, ofertado pelos bancos oficiais às atividades como agricultura familiar, é possível que esse crescimento seja mais duradouro a médio prazo?, reflete. O economista Cícero Péricles de Carvalho, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), por sua vez, acredita que o crédito consignado contribui para obter as sucessivas altas registradas, mas não é o motivo central. ?A sustentação desse tipo de empréstimo se dá, basicamente, entre os funcionários públicos e segurados da Previdência, na medida que é pequeno o número de empresas privadas que têm contratos com bancos?, afirma. O economista lembra que boa parte do dinheiro do consignado vai para o pagamento de dívidas antigas com juros maiores como financeiras, agiotas e cartão de crédito. ?Só em segundo plano é que estes recursos são direcionados para gastos emergenciais e, por último, é que entra no consumo de itens básicos?. De fato, segundo pesquisa recente encomendada pela Associação Brasileira dos Bancos (ABBC) ao Ibope, cerca de 60% dos pensionistas e aposentados do INSS que tomaram empréstimo pelo crédito consignado utilizaram o montante financeiro captado para pagar dívidas. ?A razão deste crescimento vertiginoso do comércio de Alagoas está nos programas complementares de renda que o governo federal vem desenvolvendo. Nestes dois anos, por exemplo, o programa Bolsa-Família duplicou o número de famílias beneficiadas, colocando R$ 200 milhões, por ano, nas casas de 230 mil famílias pobres. Os 320 mil segurados do INSS estão recebendo, por mês, 120 milhões de reais, o que resulta numa renda anual de R$1,5 bilhão?, exemplifica Carvalho. Segundo ele, em outras economias mais fortes, como a de São Paulo, estes recursos não têm o mesmo impacto que o verificado em economias mais frágeis como as de Alagoas. A seu ver, o crescimento nas vendas do comércio é sustentável à medida que novas injeções de recursos estão previstas com a ampliação destes programas sociais ? o Bolsa-Família terá 100 mil novos beneficiados ? e novo aumento no salário mínimo está previsto ano que vem. Para ele, a tendência é que haja uma expansão nos segmentos de consumo popular, já que essa renda sem produção é capilarizada, vai a todos os bairros e municípios remotos, e segue diretamente para as compras no mercadinho, feira livre, no comércio de bairro e no pequeno varejo, dinamizando todo o setor comercial dirigido para os segmentos C, D e E. ?Outro fato importante é que essa transferência massiva de renda está criando um amplo mercado consumidor que, por sua vez, está puxando o crescimento das indústrias voltadas para o atendimento das demandas populares, seja no vestuário, alimentos, móveis, produtos de higiene e limpeza?, analisa. PM ### Setores de vestuário, móveis e óticas lideram altas em AL Para o economista Sílvio Costa, coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), as contínuas altas nas vendas do comércio no Estado se deve a um conjunto de fatores. ?O primeiro deles diz respeito ao aumento de renda verificado em várias categorias profissionais. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), as negociações salariais do primeiro semestre foram as melhores já conseguidas neste período do ano desde 1996?, aponta. De fato, em 83,6% dos acordos fechados de janeiro a junho deste ano, houve reajuste salarial igual ou acima da inflação ? em igual período do ano passado, 75,7% das negociações tiveram o mesmo desempenho, diz o Dieese. Para o economista, o aumento do salário mínimo também surtiu impacto positivo no aquecimento das vendas no Estado. ?Sabemos que em alguns municípios alagoanos os recursos do INSS são maiores do que os recursos das próprias prefeituras e até do Fundo de Participação dos Municípios?, reflete. ?Mas também não podemos deixar de considerar o esforço realizado pelo segmento varejista que tem organizado campanhas promocionais, facilitando o parcelamento das compras entre outros esforços de vendas?, afirma. Segmentos Na pesquisa mensal realizada pelo Instituto de Estudos e Pesquisas da CDL sobre o desempenho do comércio de Maceió, houve um incremento nas vendas do varejo de 17,03% da capital. O levantamento é semelhante ao do IBGE. As maiores altas apontadas pelo levantamento foram dos segmentos de vestuário (115,41%), móveis e decoração (103,35%), óticas (80,4%), materiais de construção (67,98%) e calçados (59,21%). Os supermercados obtiveram incremento de 22,12%. Como se vê, o consumo de Alagoas vem apresentando resultados atípicos e na contramão do que é verificado no cenário nacional. Pois, enquanto alguns desses setores recuaram no País, aqui continuam com as vendas bem aquecidas. |PM

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