Economia
Trabalhadores decidem sobre a Agrisa
| PATRYCIA MONTEIRO Editora de Economia O destino da usina e destilaria Agrisa, situada no município de Joaquim Gomes, foi discutido ontem por representantes dos movimentos sociais, políticos, acadêmicos e técnicos em Maceió. O debate foi organizado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em um seminário no qual se analisou a viabilidade econômica da permanência do parque industrial que faz parte dos ativos do grupo do empresário Nivaldo Jatobá nas terras que vêm sendo desapropriadas pela instituição. Cerca de 5 mil hectares de terras, repletos de canaviais, já foram desapropriados. Mas, segundo o Incra, até o final do ano outros 15 mil hectares serão desapropriados e distribuídos para cerca de 2,5 mil famílias nos municípios de Flexeiras, Joaquim Gomes e São Luiz do Quitunde. No total, o Incra vai pagar cerca de R$ 60 milhões em Títulos da Dívida Agrária (TDA) pela área adquirida. ?O processo de desapropriação é uma realidade e não tem mais volta?, afirma Gino César Meneses Paiva, superintendente do Incra em Alagoas. ?Daqui para frente, precisamos definir o que fazer com a usina Agrisa para que todo o processo de aquisição seja concluído até o final do ano?. Mas, a compra do parque industrial está longe de ser um consenso entre os movimentos sociais. Dois dos quatro grupos envolvidos na questão da reforma agrária em Alagoas se posicionam contra a aquisição da Agrisa por parte do Incra: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Por outro lado, no coro dos que são a favor estão o Movimento Terra Trabalho e Liberdade (MTL) e o Movimento da Libertação dos Sem Terra (MLST) que, juntos, representam 70% dos trabalhadores rurais acampados na região. Além de ser maioria, o grupo tem a seu favor o apoio de políticos e fornecedores de cana-de-açúcar do município de Joaquim Gomes e adjacências que vêem na aquisição da Agrisa e na sua transformação em cooperativa, a oportunidade de criação de um pólo agroindustrial. polêmica ?Nossa principal preocupação é com a terra. A usina é problema do Incra?, diz José Roberto da Silva, coordenador Nacional do MST em Alagoas. ?A Agrisa está na UTI, é uma massa falida que não deu resultados financeiros para o seu dono ? imagine como não ficaria nas mãos dos trabalhadores que não dominam a realidade do mundo empresarial?, dispara. O representante do MST defende que nas terras desapropriadas sejam desenvolvidas novas atividades como fruticultura e horticultura. ?Acreditamos que os trabalhadores devem desenvolver culturas de feijão, milho e batata, por exemplo, para abastecer o mercado interno que atualmente exporta produtos de estados como Pernambuco, Sergipe e Alagoas?, diz. Já o coordenador nacional do MTL em Alagoas, Valdemir Agostinho diz que o seu grupo está aberto para a proposta de permanência do parque industrial da Agrisa, com alguns condicionantes. ?Se a usina for adquirida e nela for adotado um modelo de gestão de cooperativa que permita a participação ampla dos trabalhadores na gestão, achamos que pode ser uma alternativa interessante?, afirma. O representante do MTL diz que o seu grupo considera a cana-de-açúcar um produto como outro qualquer e compatível com outros cultivos. ?Queremos deixar de lado questões ideológicas e nos deter nas propostas que sejam positivas para os trabalhadores a curto, médio e longo prazo?. Na sua visão, as propostas discutidas que são mais compatíveis com a expectativa de seu grupo são aquelas que apontam para o fim da monocultura da cana e que permitam o cultivo diversificado de produtos agrícolas. ?Estamos atentos ao exemplo da Cooperativa Pindorama e queremos o que há de mais positivo nessa experiência para a Agrisa?, diz. ?Mas acreditamos que para o projeto ser bem-sucedido é necessário que haja um investimento em infra-estrutura na região e na capacitação dos trabalhadores?. Para o vereador Jalbas Fragoso, vereador de Joaquim Gomes e fornecedor de cana-de-açúcar da região, a aquisição da Agrisa seria a ?redenção? do município. ?Se for criada uma cooperativa agroindustrial haveria uma maior distribuição de renda na região?. Segundo ele, o empresário Nivaldo Jatobá tem disposição para vender a Agrisa e aguarda apenas a definição do Incra e diz que a usina está longe de ser uma massa falida. ?Ao contrário, houve um investimento em modernização antes de serem interrompidas as atividades?, conta. ?Desde que a usina foi desativada cerca de três mil famílias ficaram sem fonte de renda, já que o fechamento da empresa trouxe desemprego e desaquecimento econômico na região. Mas, se a usina fosse reativada e administrada por uma cooperativa até a relação entre os fornecedores de cana e os empresários da agroindústria canavieira local ficaria melhor. Afinal, a Agrisa seria o termômetro da negociação de cana na região?, afirma. ?Se a usina não for adquirida, o Incra é o responsável pelo custeio do desmonte e do transporte da usina. Para isso terá de desembolsar cerca de R$ 25 milhões. Sendo assim, não é melhor investir estes recursos na aquisição??, questiona. Bem, a palavra final agora é dos trabalhadores.