Economia
Pesca predat�ria empurra crust�ceo para a extin��o
MÁRIO LIMA Editor de Cidades Pontal do Peba - O avanço da pesca predatória na costa alagoana - e nordestina - e o baixo volume de água lançado na foz do Rio São Francisco são responsáveis pela inclusão do camarão espigão na ?lista vermelha? das espécies da fauna brasileira ameaçadas de extinção, apontada por um fórum nacional de cientistas e biólogos, divulgada anualmente pela Fundação Biodiversitas e o Ibama. O camarão espigão responde por 75% de toda captura na região nordestina e é o mais comercializado, tanto in natura como defumado. ?Panos quentes? Porém o Instituto Brasileiro de Recursos Naturais e Renováveis, segundo denúncias da comunidade científica, está colocando ?panos quentes? sobre a indicação do espigão na lista, o que poderia acabar em um cenário de paralisação de toda produção de sua pesca. ?Quando o camarão ia ser incluído na lista vermelha, o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente, para ajustar a situação, criaram uma nova categoria de espécie de camarão sobreexplorada, acima do sustentável, sob pressão da frota pesqueira?, afirma a bióloga Mônica Dorigo, professora e coordenadora do LabMar, o Laboratório Marinho da Universidade Federal de Alagoas. A frota pesqueira são os 1.600 barcos motorizados, a maioria formada por camaroneiros em atividade nos estados do Nordeste, que retiram de 8 a 15 mil toneladas de camarão por ano, de acordo com números de 2005, do Centro de Pesquisas e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral do Nordeste (Cepene), do Ibama, com sede em Recife. Sem colapso O engenheiro de pesca e analista ambiental do Ibama em Alagoas, José Paulino de Morais, rebate a informação de que o camarão espigão esteja na ?lista vermelha?. ?Não temos nenhum indicativo de que a espécie esteja em colapso. O Ibama faz o controle da frota, das licenças e ainda gerencia os períodos de defeso, com a proibição temporária da pesca do carmarão?, afirma. ### Pontal do Peba perde 1/3 da produção desde seu auge Em Piaçabuçu, mais precisamente no Pontal do Peba, ponto extremo do Litoral Sul alagoano e a 183 quilômetros de Maceió, está um dos mais importantes pontos de pesca comercial do camarão espigão do Nordeste, através da pesca motorizada de arrasto duplo. ?A região do Peba foi pioneira e começou a pesca do camarão espigão no Nordeste, mas hoje tem um terço da capacidade que tinha no auge de sua produção, em 1986. Antes eram barcos pequenos, em arrasto simples, hoje viraram duplo, e até triplo. A ânsia do lucro é cada vez maior?, assinala a bióloga, oceanógrafa e coordenadora do Projeto Camarão Marinho do Nordeste, Maria do Carmo Ferrão, pesquisadora da Copene e uma especialista em camarões. Ela concluiu há 15 dias uma pesquisa exatamente sobre os aspectos biológicos do espigão - xiphopenaeus kroyeri - no Pontal do Peba. Sua principal conclusão no trabalho é um alerta que reforça a tese da inclusão do camarão espigão na lista vermelha. Afora a ?caçada? ao camarão de alto valor comercial pelo sistema de arrasto motorizado, os crustáceos ainda sofrem com os danos ambientais. ?A transposição vai atingir fatalmente o banco de camarões da região, pois piora ainda mais a diminuição do volume e da força da água do Rio São Francisco na foz, que deixa de levar nutrientes para os sedimentos do banco em alto mar. Quanto mais diminuir a vazão, menor a chegada de alimentos?, assevera Maria do Carmo. ### Acarajé baiano tem pitada do mar de AL Pontal do Peba - A captura do crustáceo - também chamado de sete-barbas, é realizada em alto-mar, principalmente na foz do Rio São Francisco, por barcos camaroneiros, de até 12 metros de envergadura, que praticam a pesca de duplo arrasto motorizado, que puxa - com o barco em movimento - uma rede-saco com peso presa ao fundo do mar - em uma profundidade média de 10 metros - arrastando toda a fauna marinha que vê pela frente - principalmente camarões. Terra sem lei Além dos danos ambientais, a região do Peba se transformou em um território sem lei, dominado por atravessadores, os chamados ?pombeiros?, que compram aos donos dos barcos e dos barracões de defumação, sem nenhum tipo de nota fiscal, e que revendem quase toda a produção para Salvador, driblando postos fiscais de Alagoas, Sergipe e Bahia. ?Eles compram produção fechada e levam em caminhões baú refrigerado para Salvador, e ditam o preço do mercado. Todo mundo aqui sabe que o acarajé da baiana é feito com o camarão de Alagoas?, diz José Natan Silva de Carvalho, o presidente da Colônia de Pescadores Z-25, do Pontal do Peba, que reúne 500 dos mais de 350 pescadores que lidam diretamente com a pesca do espigão, e também de outras espécies como o rosa e o branco. A frota pesqueira do camarão no Pontal do Coruripe contabiliza hoje quase 80 barcos, mas chegou a 300, no auge da produção. O presidente da Z-25 estende suas críticas a órgãos reguladores como o Ibama, que segundo ele não têm nenhum controle sobre a fiscalização da pesca do espigão no Pontal, um mercado que envolve hoje cifras mensais de R$ 4,8 milhões e produção de seis toneladas - em 2000, de acordo com o Mapa do Pescado do próprio Ibama - esse mesmo pólo produziu 2,5 toneladas. Berçários invadidos Mas o aumento da produção está seriamente ameaçado, e os pescadores podem perder sua subsistência em poucos anos. O próprio Ibama está colaborando para hari-kari do mercado, segundo o presidente da Z-25, José Natan, por não fazer cumprir a lei federal, que proíbe a pesca do arrasto a menos de uma milha náutica da costa - em Sergipe, a proibição chega a duas milhas, e na Bahia, a três milhas da costa. De acordo com Natan, os donos de barcos furam o cerco e levam seus pescadores a puxar o arrasto na chamada laminha - um estuário onde nascem e se criam os camarões, como também a utilização indevida de rede com malha menor. Autuações e multa O chefe da Área de Proteção Ambiental do Ibama em Piaçabuçu, José Carlos dos Santos, defende-se e diz que a fiscalização está atuante. Segundo ele, no começo de agosto o Ibama autuou e multou seis barcos que estavam pescando em área proibida. Para Santos, o problema da degradação do ambiente é a pesca altamente rotativa e contínua. ?Os barcos não param, os pescadores se revezam durante um dia inteiro puxando o arrastão, e tem os que passam uma semana em alto-mar?, diz. Rede mata espécies A pesca predatória do arrasto é também uma ameaça constante a outras espécies marinhas. A coordenadora do Laboratório Marinho da Ufal, a bióloga Mônica Dorigo, faz um alerta trágico, que põe a pesca do arrasto como verdadeiras armadilhas para a natureza. ?Essa pesca predatória está alterando o ciclo biológico de outras espécies e preocupa as autoridades científicas brasileiras?, diz ela. Um estudo desenvolvido pelo LabMar mostra que na mesma rede puxada no arrasto do camarão, chegam milhares de seres marinhos, a maioria filhotes, de outras espécies como medusas, cobras e estrela-do- mar, ouriços, moluscos, filhotes de peixe e uma infinidade de tipos de caranguejo. ML ### Pesca motorizada arrasta fundo do mar Pontal do Peba - No porto do Pontal do Peba - o nome vem de tatu-peba, que já foi muito abundante na região - a Colônia Z-25 registra atualmente 73 barcos camaroneiros que ficam fundeados ao longo da praia, num vaivém contínuo para o mar. Os pescadores se revezam em dois tipos de pescaria: os arrastos dia-a-dia, geralmente entre 10 a 15 horas no alto-mar, e os semanais, quando os homens chegam a passar a semana inteira fazendo o arrasto. Esses chegam a trazer até 600 quilos de espigão. Afinal, tem que compensar os custos dos mantimentos: uma tonelada de gelo, mil litros de óleo e 200 litros de água potável, e mais arroz, feijão, açúcar e café. Nas ondas A Gazeta acompanhou um dia de pesca de arrasto duplo na quarta-feira passada, com os pescadores Welington dos Santos, 42 anos, e Leandro, 25 anos. O embarque é feito em canoas chamadas de caíque, junto com os mantimentos, até o camaroneiro ancorado. O barco é divido em três compartimentos, na popa fica uma parte coberta, com espaço para manobrar a rede de arrasto; no meio, a cabine, com pequenos beliches, um armário com panelas, o leme, o rádio e santinhos na parede; na proa, quatro grandes caixas para congelar o pescado capturado e uma grande estrutura de ferro fundido em ?v? que se abre em dois braços laterais, onde correm grossas cordas de sisal, manobradas por roldanas. Em cima da cabine, os cestos, os salva-vidas e alguns mantimentos. Pesca em velocidade O motor diesel WM de 4 cilindros é acionado e imprime uma velocidade média constante entre 5km/h e 20km/h; o barulho é ensurdecedor e contínuo; ondas assustadoras batem por todos os lados; a paisagem na costa é deslumbrante: montanhas de dunas, praias desertas e o povoado do Peba cada vez mais longe, até perder de vista. É hora de soltar a rede, com o barco em constante movimento. Os pescadores arriscam manobras vigorosas de ambos os lados e lançam a porta - uma grade de madeira que puxa a rede em forma de saco de nylon para até 10 metros de profundidade. Ao ritmo do motor, a rede vai sendo arrastada. Cada lance dura em média de 4 a 5 horas - a reportagem não agüentou mais que duas. O recolhimento é feito com o barco parado, e os pescadores puxando a rede com a ajuda das cordas. É um espetáculo de tirar o fôlego! Junto com camarões, siris, peixes, cobras do mar, surge uma nuvem de gaivotas mergulhando em volta da rede para beliscar alguma presa. A rede é despejada dentro do barco e a alegria é geral. ?Tem dia, quando eu passo uma semana fora, chego a pescar até 600 quilos, o barco chega a ficar baixo?, afirma Welington, pai de oito filhos - ele começou a pescar espigão aos 15 - e ganha entre R$ 150 a R$ 200 por semana, conforme a produção. ?Sempre sustentei minha família com esse bichinho?, diz segurando um camarão maior entre os miúdos. Para passar o tempo, os dias e as noites em alto-mar, Elinton diz que fica pescando com linha de mão, ?olhando as estrelas e cozinhando peixe pescado na hora?, diz Elington. O defeso Eles só não podem pescar duas épocas no ano, quando o Ibama impõe o ?defeso?, período em que a pesca é proibida, para que os jovens camarões possam se desenvolver em seus berçários. No período de 1º de dezembro a 15 de janeiro, perdendo inclusive os lucros das vendas de final de ano, e de 15 de março a 30 de abril, passando em branco na semana santa. ?São dois período cruciais para a venda, mas como pescadores temos que obedecer às leis, e proteger o banco de camarões, antes que eles acabem?, afirma Natan, presidente te da Z-25. ML ### Defumar camarão é o final do processo Na volta do arrasto motorizado pelas águas cristalinas do mar de Alagoas, após enfrentar ondas de alto calibre, os balaios de camarão são desembarcados, lavados e pesados nos barracões, onde se defuma o crustáceo. José Pequeno, 62 anos, é um dos dez defumadores do Pontal do Peba, que tem sua ?linha de montagem? em duas pequenas casas, ao lado do porto das barcas. É ele quem recebe os cestos com o camarão in natura e começa o processo de defumação à base água e sal. Depois de ser misturado com um corante vermelho - na verdade o conhecido coloral - toda produção é escaldada em fornos de barro por 15 minutos. Secagem O camarão é levado a uma esteira para a secagem, sob fogo brando e fumaça de cascas de coco - o Ibama proíbe a secagem com madeira, que dá um gosto melhor, segundo seu José Pequeno. O espigão fica então tostado, como aqueles que se encontram em saquinhos vendidos na praia, no recheio do acarajé e depois ensacado para a venda. José Pequeno diz que produz entre 500kg e 600kg por mês, em sacos de 20 quilos. O preço do quilo do camarão defumado oscila entre R$ 0,80 e R$ 1,00. Ele apela para a prefeitura e para os órgãos ambientais, no sentido de melhorar a qualidade de sua produção, e chega ficar acanhado quando mostra o mal estado do seu barracão. A reportagem constatou filetes de esgoto a céu aberto correndo na rua que abriga o barracão. Sem nenhum selo de garantia, seja da Vigilância Sanitária ou da Secretaria de Agricultura do Estado. ?Na verdade, esses pescadores estão abandonados e precisam se fortalecer em associações. Em Sergipe, o grau de organização é muito maior e até as mulheres ajudam no processo?, afirma a bióloga Maria do Carmos, do Cepene/Ibama.|ML