Economia
Fazenda Boa Sorte encerra atividades
| PATRYCIA MONTEIRO Editora de Economia É o fim de uma era que vai deixar saudades no consumidor alagoano. Após oito anos de existência a Fazenda Boa Sorte se despede do mercado de lácteos, deixando de produzir o leite tipo ?A? e seus derivados como a coalhada com frutas da marca Nude. O que levou o grupo Seresta a decretar o fim da empresa não foi a inviabilidade financeira como se poderia supor precipitadamente. Contrariando a lógica vigente no mundo dos negócios, a extinção da bem-sucedida marca Boa Sorte se dará por razões pessoais e até emocionais da família Vilela, controladora da empresa. ?Foi uma decisão difícil, mas desde a morte de José Aprígio tenho revisto valores, prioridades, e confesso que não vejo mais sentido em manter os laticínios da Fazenda Boa Sorte?, afirma a empresária Themis Vilela, mulher do industrial José Aprígio Vilela, que morreu de câncer há cerca de dois meses. ?Durante três anos me afastei da empresa, por causa do tratamento enfrentado por José Aprígio. Nessa fase, saímos dos mercados de Recife, João Pessoa e Natal, para onde tínhamos expandido. Com isso, diminuímos o tamanho da estrutura montada para comercialização dos produtos nessas capitais, o que provocou perdas no faturamento da Boa Sorte?, relembra a executiva. A partir daí, a empresa voltou ao seu projeto inicial e passou a vender seus produtos apenas para os consumidores de Maceió. A produção de leite diminuiu de nove mil litros de leite diários para três mil e a Boa Sorte passou a trabalhar com capacidade ociosa. Contudo, Themis frisa que a retração promovida nos mercados conquistados era de caráter provisório. ?Estava nos nossos planos retomar esses espaços, assim que José Aprígio se recuperasse. Entretanto, essa expectativa não se confirmou mais adiante?, explica. Nesse período de afastamento, Themis buscou a profissionalização na gestão da empresa, mas a experiência não obteve o retorno esperado. ### Empresa acumulou perdas ?A retração promovida nos mercados de Recife, João Pessoa e Natal se deu em uma fase de franco crescimento da Boa Sorte nessas capitais?, diz Themis Vilela. A decisão de sair de cena se deu porque a executiva teve de se dedicar exclusivamente ao marido durante o período de tratamento dele, que durou três anos. ?Como atuávamos no mercado com um produto natural, sem conservantes e altamente perecível, tive receio de que a qualidade dos nossos produtos caísse durante meu afastamento ? o que acabaria prejudicando a imagem da Boa Sorte ante o consumidor. Na verdade, foi uma saída estratégica?, afirma Com a morte de José Aprígio Vilela, Themis conta que resolveu retomar os negócios. Na primeira reunião com os funcionários da empresa, ela percebeu que a Boa Sorte vinha acumulando perdas desde que passou a comercializar seus produtos apenas em Maceió. Na capital alagoana, embora tivesse boa receptividade nos canais de venda e boa relação com os clientes fidelizados com a venda porta a porta e pagamento mensal, o mercado consumidor é muito pequeno. ?Calculei que era possível recuperar os prejuízos, reconquistando os mercados que foram deixados de lado. Mas, era como começar do zero. A empreitada exigiria de mim dedicação e tempo que já não sabia se estava disposta a dar. Estar ao lado de José Aprígio, que lutou pela vida até o último momento, deu-me uma outra perspectiva da existência. Hoje, quero viver cada dia como se fosse o único e me voltar mais para a minha família?, diz Themis. A empresária tem quatro filhos com José Aprígio Vilela. Três deles vivem em São Paulo e nenhum deles demonstrou interesse de dar continuidade aos negócios de lácteos da Fazenda Boa Sorte O que pesou na decisão de extingui-los definitivamente.|PM ### Criação de eqüinos e suínos permanece A Fazenda Boa Sorte está saindo do mercado aos poucos, embora o seu fim já esteja definido no seio da família Vilela. As vendas em domicílio foram suspensas e alguns pontos-de-venda estão sendo desabastecidos. Atualmente os médios e grandes revendedores, como a rede Bompreço e o Palato, têm tido fornecimento regular. Vale ressaltar que todos os contratos serão honrados e que a Fazenda Boa Sorte, situada em Viçosa, continuará fazendo parte dos ativos do Grupo Seresta. Nela será mantida a criação comercial de eqüinos e suínos. Como e quando será o fim definitivo dos negócios de lácteos é uma decisão que será tomada por Themis Vilela nos próximos dias. As outras empresas da família Vilela prosseguem sem sobressaltos ou previsões de mudanças abruptas de ordem estratégica. Faz parte do espólio empresarial do grupo a Usina Seresta ? liderada por Elias Vilela, irmão de José Aprígio e do senador Teotônio Vilela ? e parte das ações da Socôco, presidida pelo empresário Emerson Tenório. Themis Vilela está à frente da Fazenda Boa Sorte. Mas tem novos projetos empresariais que prefere não revelar imediatamente. Ela conta que a possibilidade da venda dos negócios de lácteos foi afastada porque não seria possível repassar parte da propriedade da família, que está sob inventário, para um novo investidor. Por isso, a estrutura industrial da Boa Sorte será vendida por partes em leilões. Parte das vacas do rebanho da empresa já foi comercializada. Além disso, está nos planos da empresária instituir a Fundação José Aprígio Vilela na Fazenda Boa Sorte, onde serão desenvolvidas atividades culturais e educativas. O projeto está em fase de elaboração. Themis ressalta que toda a mão-de-obra rural da Fazenda Boa Sorte será mantida, porque há outras atividades agrícolas que demandam o trabalho destes funcionários. Mas as demissões nas áreas industriais e comerciais serão inevitáveis. ?Entretanto, esses desligamentos serão feitos aos poucos ? como vinham sendo realizados desde a época em que saímos de Recife, Natal e João Pessoa. Inclusive boa parte destes funcionários será reaproveitada no novo projeto empresarial que tenho em mente?, afirma e empresária. PM ### Rebanho dorme em colchão e ouve música clássica Para atender ao rigoroso nível de exigência da legislação brasileira ? que determina que o leite tipo ?A? deve ter até 500 bactérias por mililitro, enquanto nos Estados Unidos o patamar é de mil bactérias e na Europa é de até 1,2 mil ? a Fazenda Boa Sorte sempre investiu em qualidade nos processos de fabricação de seus alimentos. No início, o rebanho da empresa era formado apenas por vacas da raça pardo suíça, importadas da Europa. Os animais escolhidos, embora viessem do continente europeu se adaptaram bem ao clima quente e úmido de Viçosa, assim como havia ocorrido no Egito e outros países de clima menos ameno. Em um segundo momento, de plena expansão, houve a necessidade de ampliar o rebanho e a opção mais viável, pela necessidade de fazer a reposição em um curto período de tempo, foi por vacas holandesas do Brasil. Até hoje, as duas raças convivem no rebanho da Boa Sorte. Todas as etapas de fabricação dos produtos lácteos eram centralizadas na empresa ? desde a atividade rural, passando pela industrialização até a comercialização dos produtos. A Boa Sorte, ao contrário das outras empresas do setor não comprava a matéria-prima de seus produtos, o leite, de outros produtores. Essa medida visa garantir a elevada qualidade industrial. As vacas eram ordenhadas por mulheres, três vezes por dia. A alimentação dos animais era balanceada e fresca, à base de milho, soja e aveia. ?Por ser um produto natural não podemos adicionar substâncias como ferro, ômega 3 ou cálcio. Todos os nutrientes tinham de fazer parte da composição natural do leite. E esse resultado só era obtido por meio da alimentação das vacas?, conta Themis. Os animais tinham de produzir em um ambiente de absoluta tranqüilidade, sem estresse, para que não houvesse descarga de hormônios no leite durante o processo de ordenha. Assim, para tornar os custos mais baixos, evitando que as vacas adoeçam, elas são ordenhadas ao som de música clássica e dormem em colchões feitos de pneus e lona. ?Tanto cuidado se refletiu nos níveis de eficiência e em pouco tempo os nossos investimentos se pagaram?, diz Themis |PM