Economia
Atividade precisa superar entraves
| PATRYCIA MONTEIRO Editora de Economia A criação de caprinos e ovinos do sertão alagoano, assim como a do semi-árido nordestino, apresenta baixa produtividade ? por ser em regime extensivo e dependente da vegetação natural empobrecida pela escassez de chuva ? e é de caráter de subsistência familiar. É o que aponta o recente Diagnóstico da Cadeia Produtiva da Ovinocaprinocultura no Estado de Alagoas do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A pesquisa vai servir como base para as estratégias para o desenvolvimento do Arranjo Produtivo Local (APL) de Ovinocaprinocultura do Sertão tocado pelo Sebrae em parceria com a Secretaria de Planejamento e Orçamento do Estado (Seplan). O estudo afirma que, embora a atividade seja numericamente expressiva e tradicional na região, o nível tecnológico dos sistemas de produção ainda é muito baixo. ?Os diagnósticos sobre ovinocaprinocultura no Nordeste do Brasil têm apontado a baixa capacidade de coordenação dos agentes da cadeia produtiva como um dos principais entraves ao desenvolvimento do setor?, diz o relatório do Sebrae. Segundo o texto, as principais dificuldades encontradas pelos produtores hoje estão na ociosidade de produção, na comercialização, na pouca diferenciação dos produtos ? que têm baixo valor agregado e escasso uso de tecnologia. Entre os animais jovens há uma alta taxa de mortalidade, de até 30%, e baixo desempenho. ?O caráter fundiário é outra caracterítica da ovinocaprinocultura no Nordeste. As criações servem para diversificar os escassos recursos, contribuindo para a redução de riscos, a atenuação da pobreza e a estabilização das unidades de base familiar?, descreve o diagnóstico. Contudo há um déficit na oferta de carnes e couro do animal, o que torna seus preços superiores aos dos bovinos. De acordo com o diagnóstico, considerando a diferença entre a taxa de crescimento da população animal e o crescimento vegetativo da população há um déficit entre demanda e oferta de 24 mil toneladas de carne de ovinos e caprinos por ano. Mas, diante de um diagnóstico não muito animador, Vânia Brandão de Britto, consultora do Sebrae, garante que a atividade tem futuro no semi-árido alagoano. ?A atividade é viável, primeiramente por sua vocação natural, seja pela rusticidade do animal, pelos aspectos climáticos ou pela cultura local?, afirma ?No entanto é necessário levar aos produtores melhores técnicas de manejo e gestão da propriedade?, explica. Para garantir um nível de remuneração digno ao produtor sertanejo, Vânia diz que é preciso tirar os criadores do isolamento. ?A cultura do cooperativismo é fundamental para que os criadores obtenham rendimentos razoáveis e possam se estabelecer como empresários rurais. Outro aspecto relevante é a realização de boas práticas de manejo para que eles possam produzir o animal nas condições que o mercado consumidor exige. Além disso, organizar sua criação no modelo de produção em escala?, sugere a consultora. Para vencer a dificuldade de comercialização decorrente da oferta inconstante da carne de ovinos e caprinos Vânia afirma que o primeiro passo é organizar a produção em escala, utilizando tecnologias de reprodução e manejo. ?Outra forma de estabilizar e regular o mercado é por meio da implantação de um sistema de integração, onde tenhamos um grupo de produtores que só forneça matrizes (aqueles que já investem em genética), e um outro grupo de produtores que só faça a engorda?, explica. Outro ponto importante na visão de Vânia Britto está relacionada às políticas públicas voltadas para o setor descritas no levantamento como ?dispersas?, ?superficiais? e que não apresentaram ?nenhuma mudança de impacto em termos de resultado?. ?Primeiramente o Estado deveria retomar para si a responsabilidade de prover aos pequenos produtores rurais a assistência técnica, pois a maioria dos produtores, muitas vezes, não tem nem condições de prover sua família do mínimo necessário, muito menos de investir em assistência técnica?, ressalta. Outro aspecto relevante, segundo Vânia, diz respeito à oferta de crédito com juros compatíveis com nível de renda dos produtores e minimizando o excesso de burocracia e garantias reais. De acordo com Vânia Brito, a maioria da carne de ovinos e caprinos consumida em Alagoas ainda vem de Pernambuco e do Ceará. Os beneficiadores do produto no Estado dão preferência para os fornecedores dos estados vizinhos porque os animais dos produtores alagoanos normalmente não estão no padrão desejado pelo mercado. ?Para atingirmos a autosuficiência no abastecimento em Alagoas acredito que levaremos cerca de 20 anos, no mínimo?, diz Vânia. ### Em Alagoas há poucas indústrias de beneficiamento ?Temos apenas um frigorífico em São Miguel dos Campos com capacidade de abater 30 animais/dia, um curtume em Arapiraca e uma ou duas usinas de leite caprino. No entanto, o próprio frigorífico tem buscado animais até na Bahia, em virtude da não regularidade de entrega dos animais e ainda pelo fato de os animais dos produtores alagoanos não estarem no padrão desejado pelo mercado?, conta. ?O fato é que as indústrias citadas não têm condições de atender à demanda reprimida do mercado local, mas não é apenas ampliando a capacidade de produção das mesmas ou mesmo criando novas unidades produtivas que resolveremos o problema de demanda pelos produtos?, frisa. Segundo o diagnóstico do Sebrae, para atender à demanda de carne de ovinos e caprinos em Maceió e municípios vizinhos seria necessário produzir 433 toneladas a mais por ano, sendo preciso triplicar o número do rebanho atual. resistência cultural Mas para vencer a resistência cultural dos consumidores à carve de ovinos e caprinos, outro entrave apontado no Estudo, Vânia acredita que campanhas de marketing são excelentes ferramentas. ?Se especificarmos as vantagens oferecidas pelos produtos, valores nutricionais, baixo teor de gordura, conquistaríamos muitos consumidores?, diz. ?Outra forma é o que o Sebrae já vem fazendo, que é a realização de festivais gastronômicos, proporcionando ao consumidor o acesso às delícias das cozinhas regional e internacional, despertando de forma saudável a competitividade entre os bares e restaurantes alagoanos. Para quebrar o paradigma de que carne de ovinos e caprinos é ruim pode-se realizar degustações, mostrando que quando temos um animal jovem e bem preparado, o sabor da carne pode ser inigualável?.|PM