Economia
Alagoas inaugura beneficiadora de leite de cabra
MAIKEL MARQUES Repórter São José da Tapera - O agricultor Danilo Silva dos Santos (35), pai de quatro crianças nascidas no calor do Sertão, escancara o sorriso e não esconde a satisfação quando o assunto são as 10 cabras que a família cria num rudimentar curral montado na caatinga em São José da Tapera. Além de manter a ?saúde das crianças?, o leite produzido diariamente pelos animais de Danilo e de outros 42 agricultores significa perspectiva de progresso econômico. Eles uniram forças e acabam de fundar a primeira indústria de beneficiamento de leite caprino do Sertão alagoano. A indústria dos agricultores ?acostumados? à agonia do verão, por falta de alternativa ou orientação técnica, está encravada no Assentamento Selma Bandeira, entre São José da Tapera e Pão de Açúcar. ?Só aparecia aqui nesse fim de mundo quem tinha negócio?, brinca Danilo Silva. E foi justamente a perspectiva do bom e próspero negócio que é produzir derivados de leite de cabra para satisfazer o paladar de exigentes consumidores abastados que pôs no destino dos 43 agricultores representantes do Sebrae, Iteral e Banco do Nordeste. Valor agregado ?Eles não agregavam valor ao leite pelas suas cabras. Então, discutimos com a associação sobre a viabilidade de criar uma indústria beneficiadora de leite de cabra na região?, diz Vania Brandão, consultora do Sebrae para o programa de Arranjo Produtivo Local (APL) de Ovinocaprinocultura. A partir da criação de um condomínio de empreendedores sob comando da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Alagoas (Cafisa), os 43 agricultores compreenderam a necessidade de eliminar a figura do atravessador que só lhes pagava R$ 0,30 pelo litro de leite de cabra. ?A procura pelo leite era indício de que havia comprador?, explicou Marco Antônio Nunes Salgueiro, presidente da Cafisa e um dos responsáveis pela ?mudança de comportamento? dos agricultores que até então ?só vendiam mão-de-obra? e agora ?são empreendedores rurais?. Antes de se livrar do atravessador, os empreendedores rurais concordaram em se submeter, durante um ano e meio, a um longo processo de capacitação gerencial sob coordenação de Reginaldo Guedes, agrônomo gestor do APL de Ovinocaprinocultura em Alagoas. ?A gente trabalha agora com produto de qualidade e cujo destino um dia será a mesa do barão?, explica o criador e empreendedor Juraci Pedro de Souza (48), presidente da Associação do Assentamento Selma Bandeira, viabilizado com recursos do Programa Banco da Terra. O sonho de empreendedorismo e renda certa no fim do mês virou realidade quarta-feira passada, quando lideranças políticas enfrentaram o calor escaldante para testemunhar, em plena caatinga, a inauguração da primeira indústria de beneficiamento de leite caprino de Alagoas. ?Encravada numa região com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País, a iniciativa é prova concreta de que o sertanejo não precisa depender sempre de esmola oficial para sobreviver com dignidade?, arrematou José Antônio, prefeito de São José da Tapera. ### Comunidade aposta no iogurte e no licor São José da Tapera - A indústria começa a operar oficialmente no dia 2 de janeiro de 2006 com potencial de produção (pasteurização) de até 600 litros de leite empacotados por dia. Os agricultores consorciados também receberam orientação para produzirem iogurte e até licor de leite de cabra. Considerados nobres, os produtores sairão do Sertão com marca própria e já registrada em território nacional: ?Dcabra?. ?A marca faz parte da estratégia de agregar valor ao produto derivado do leite de cabra?, explica Vânia Brandão, consultora do Sebrae, entidade que desenvolveu a marca. Animado com a empreitada, o produtor Danilo Silva aponta a primeira vantagem da indústria de beneficiamento. ?No lugar do prejuízo, terei até R$ 1 de lucro em cada litro de leite?, diz, animadamente. Produto valorizado Ao contrário do leite de vaca ? ?mais barato que um copo de cachaça? e que não ultrapassa R$ 0,40 centavos no Sertão ? cada agricultor receberá R$ 1,40 pelo litro do leite de cabra levado à indústria de beneficiamento. Desse total, R$ 0,40 centavos ficam para a gestão do negócio. R$ 1,00 por cada litro de leite cai direto no bolso do produtor. O cálculo é feito com base na promessa de governo do Estado, por meio do Programa do Leite, de absorver 70% da produção e pagar R$ 1,40 pelo litro do produto. ?O governo absorverá a produção sim?, garantiu o secretário estadual de Planejamento Márcio Pinto, sertanejo, e se diz ?entusiasta? da iniciativa dos produtores dos assentamentos Mucambo e Selma Bandeira. Além da venda ao governo, a cooperativa aposta na diversificação de produtos como iogurte, queijo e até licor de leite de cabra. O objetivo é abastecer padarias e supermercados de Maceió e Arapiraca. Nesse caso, o litro sairá da indústria por R$ 1,70. Levando-se em consideração um rebanho inicial de 10 cabras ? com produção diária de 10 litros de leite ao dia ? cada um dos 43 produtores pode auferir renda bruta superior ao salário mínimo a cada mês. ?A viabilidade do negócio depende do empenho dos empreendedores. Se garantirmos qualidade, teremos comprador certo?, reforça Marco Nunes, presidente da Cafisa. Para incrementar a renda, os agricultores consorciados já falam no aumento do rebanho. MM ### Leite de cabra é tido como produto nobre EDITORIA DE ECONOMIA Por muito tempo, o leite de cabra substituiu o materno e o de vaca em casos de alergia ao alimento. Seus minúsculos glóbulos de gordura homogeneízam-se naturalmente. Além disso, ele é mais rico em cálcio, fósforo, potássio, vitaminas A, B2 e pobre em alergênicos. O produto é valorizado como bebida diferenciada ou ingrediente de pratos elaborados, apreciado pelo aroma e sabor exóticos. Nos pratos salgados, vai bem com queijos, aspargo, tomate, abobrinha e brócolis. Com ele se faz molho branco, terrines, recheios para tortas e bolos salgados. Na sobremesa, entra em sorvetes, cremes, musses, recheios. E combina com figos, frutas vermelhas, ameixas, laranjas, gengibre, mel. ### Qualidade que vem desde os currais São José da Tapera - O sucesso da indústria depende dos padrões de higiene no curral e no local do processamento do leite para transformação nos chamados ?produtos nobres?, que podem garantir lucro certo aos 43 associados que seguirem um princípio básico no agronegócio: o animal produz pela boca. ?Se estiver bem alimentado, o animal terá produção maior de leite?, reforça o agrônomo Ivanildo Alves, do Instituto de Terras de Alagoas (Iteral), segundo o qual a produção média de leite de um caprino da região é de até 1,5 litro de leite. Ao visitar a indústria de beneficiamento, a reportagem da Gazeta constatou que as normas de higiene na recepção e processamento do leite precisam ser seguidas à risca. ?Se o nível de acidez do leite estiver elevado, o produto será rejeitado?, avisa Reginaldo Guedes, gestor do APL/Ovinocaprinocultura. No curral, a higiene também é princípio básico ao sucesso do negócio. ?Lavo sempre as mãos. Em seguida, lavo as tetas das cabras. Deixo tudo enxuto para começar a ordenha. Em seguida, coloco o leite em recipiente adequado e levo com rapidez à indústria?, explica Danilo Santos. Para o agrônomo Reginaldo Guedes, a higiene é princípio indispensável ao processo de pasteurização do leite vindo da roça. ?As normas de higiene são seguidas à risca?, assegura. Outro diferencial do produto são as embalagens. Ela tem padrão de higienização do fabricante pernambucano. O produtor e empreendedor Danilo Santos aposta no sucesso de seu negócio. Ele sustenta esposa e uma ?escadinha de quadro filhos? com o leite das cabras que cria e com R$ 300 oriundos do trabalho braçal em fazendas da região. ?Quero vender leite e não apenas força no cabo da enxada?, avisa. Até um ano e meio atrás, ele trabalhava sem orientação técnica e tinha dificuldades para conseguir uma valor mais alto e necessário ao pagamento das prestações do financiamento contraído para comprar as cabras. ?Agora, tenho perspectiva e já planejo o aumento do rebanho. Sonho com um rebanho de 50 animais?, diz o produtor. Ele planeja comprar mais oito cabras de alta qualidade genética para aumentar sua produção de leite. Até lá, conta com ajuda do pequeno Daone Silva Santos (6), que ?brinca e cuida? de suas quatro cabras quando não está na escola. ?Ele se diverte e cuida de alguns animais?, diz Danilo Santos, cujo rebanho de dez animais foi adquirido com recursos do Banco do Nordeste (BNB), que também financiou seu lote de terra no Assentamento Selma Bandeira, por intermédio do Programa Banco da Terra. Origem A origem dos caprinos domésticos é asiática. Foi um dos primeiros animais a ser domesticado pelo homem há 12 mil anos, além disso, foi também o primeiro a ser utilizado na produção leiteira. Sua domesticação se deu no sudoeste asiático, provavelmente no Vale do Tigre e Eufrates, local de muitas espécies selvagens. Após o seu período de esplendor, houve longa fase de decadência, na qual a cabra passou a ser considerada o ?animal dos pobres?. A cabra é popularmente conhecida como um animal manso, limpo e rústico. Do animal, só não se aproveita o ?berro?, uma vez que seu leite consumido in natura é de alta digestibilidade se comparado ao leite de vaca, sendo indicado principalmente para crianças, idosos e enfermos. É muito indicado para utilização na produção de queijos sofisticados de alto consumo tanto no mercado nacional quanto internacional. Sua carne é bem apreciada e sua pele tem preço alto no mercado internacional, sendo curtida como camurça, pelica e marroquim. Até seu esterco é tido como de ótima qualidade, rico em nitrogênio, fósforo e potássio, além de apresentar uma lenta taxa de liberação destes nutrientes para o solo, o que favorece a agricultura. MM ### Agroindústria recebeu R$ 2 milhões São José da Tapera - A primeira indústria de beneficiamento de leite caprino de Alagoas pertence a agricultores de dois assentamentos: Selma Bandeira e Mocambo. O projeto é financiado com recursos do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Para o superintendente do banco em Alagoas, José Expedito Neiva, os R$ 2 milhões investidos na comunidade ?resgatam a cidadania? de quem tinha pouca possibilidade de progresso econômico. O Banco do Nordeste do Brasil (BNB) é a entidade responsável, inclusive, pelo financiamento dos lotes para os assentados. ?A iniciativa faz parte da reestruturação do agronegócio de ovinocaprinocultura em Alagoas. Nossa função é gerar desenvolvimento a partir do trabalho organizado e com orientação técnica, que é realidade aqui em Tapera?, explica o superintendente do BNB. O investimento de recursos na comunidade tem significado especial para políticos e representantes do BNB. Isso porque a unidade de beneficiamento de leite caprino está encravada na região que já teve o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País. Ou seja: onde não havia perspectiva de progresso, agora há horizonte com boas oportunidades de negócio. ?Depois do treinamento sobre cooperativismo e da mudança de hábito dos produtores, agora todos são empreendedores rurais de olho na valorização e na demanda de seus produtos?, comemora Marco Antônio Nunes, presidente da Cafisa, que reúne agricultores de 14 assentamentos em São José da Tapera, Poço das Trincheiras e Pão de Açúcar. INVESTIMENTO O superintendente do BNB, José Expedito Neiva, explicou que o banco fecha 2005 com volume de R$ 50 milhões investidos no campo por meio do Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf). ?É o maior investimento dos últimos tempos na agricultura familiar?, reforçou Expedito Neiva, segundo o qual o BNB encerra o ano com investimento de R$ 400 milhões em todo o Estado. Além do BNB, são parceiros da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Alagoas (Cafisa) o Sebrae, governo do Estado e o Instituto de Terras de Alagoas (Iteral), cujos técnicos dão orientação sobre alimentação, normas de higiene e manejo dos animais. MM