app-icon

Baixe o nosso app Gazeta de Alagoas de graça!

Baixar
Nº 5730
Economia

Produtividade estanca a partir de 2003

| MARCELO BILLI Folha de São Paulo A produtividade da economia brasileira passou a crescer mais devagar nos últimos anos. De 2003 a 2005, o crescimento da produtividade foi de apenas 0,4% ao ano, contra o avanço de cerca de 4,4% no período imediatamente

Por | Edição do dia 08/01/2006 - Matéria atualizada em 08/01/2006 às 00h00

| MARCELO BILLI Folha de São Paulo A produtividade da economia brasileira passou a crescer mais devagar nos últimos anos. De 2003 a 2005, o crescimento da produtividade foi de apenas 0,4% ao ano, contra o avanço de cerca de 4,4% no período imediatamente anterior – de 1999 a 2002. Os cálculos são do economista Guilherme Maia, da consultoria Tendências, e preocupam porque, caso não seja revertida, a tendência de desaceleração do aumento da produtividade significará que o Brasil continuará convivendo com taxas de crescimento relativamente baixas e com taxas de juros mais ou menos elevadas. Quanto mais produtiva for uma economia, maior a taxa de crescimento que ela pode alcançar sem gerar pressões de preços e, portanto, menor o esforço de política monetária necessário para manter a inflação sob controle. Maia mediu a chamada Produtividade Total dos Fatores. Grosso modo, dois fatores explicam a produção de bens e serviços de uma economia em um ano, ou seja, o PIB (Produto Interno Bruto) de um período. Dois são os fatores de produção em si: o trabalho e o capital. Acelerada nos anos 90 Há uma parte do crescimento econômico, no entanto, que os economistas não conseguem explicar, nem pelo uso de mais mão-de-obra, tampouco por mais investimentos em máquinas e equipamentos. Essa parcela é explicada pelo que eles acabaram chamando de Produtividade Total dos Fatores. É o que poderia explicar, por exemplo, porque países com força de trabalho e estoque de capital mais ou menos parecidos registram desempenhos econômicos muito diferentes. No caso do Brasil, os dados elaborados pelo economista da Tendências mostram que a Produtividade Total de Fatores cresceu de forma acelerada no início da década de 90. Teve outro bom desempenho no período pós-1999, para estancar a partir de 2003. Entre 1992 e 2005, o crescimento médio da produtividade foi de 2,7% ao ano. Separando os mesmos anos em dois períodos distintos, é possível ter uma idéia da desaceleração verificada. De 1992 a 2002, o crescimento foi de 4,4% ao ano. Entre 2003 e 2005, de apenas 0,4%. Por que a produtividade é importante? Quanto maior o crescimento dela, maior o crescimento do chamado PIB potencial. Em outros termos, maior a capacidade de crescimento da economia brasileira. O PIB potencial é um dos métodos utilizados pelo Banco Central para calibrar a política monetária. Dada uma capacidade estimada de crescimento, o BC não deixa que a economia cresça a um ritmo muito mais forte para evitar pressões inflacionárias. É fácil entender o argumento: se com o nível de investimentos da economia brasileira, a força de trabalho disponível e um dado nível de produtividade a economia pode crescer 3,5% – que é a estimativa aproximada atual do PIB potencial brasileiro – , crescimento muito mais forte gerará gargalos, alta na procura de produtos e serviços que não poderá ser atendida pela capacidade de produção da economia. Resultado: haverá alta de preços. “Tarômetristas” Nem todos os economistas, claro, admitem a mesma estimativa do PIB potencial. Delfim Netto, por exemplo, costuma ironizar a estimativa, dizendo ser ela “trabalho de tarômetristas” – especialistas em uma mistura das técnicas de tarô com as da econometria. Maia, por exemplo, lembra que existem problemas metodológicos para medir o comportamento dos fatores de produção. Afinal, medir a contribuição de trabalho, capital e produtividade em toda a produção nacional não é exatamente uma tarefa simples. De qualquer forma, escreve ele, “os resultados só confirmam o que a simples intuição econômica apontaria. Após a consolidação de políticas macroeconômicas responsáveis, pouco se trabalhou, nos últimos anos, para se criar um ambiente mais propício para a atração de investimentos privados e o aumento da produtividade na economia”. Há muito debate acerca do quão relevante é o conceito de PIB potencial e parte dos economistas avalia que a capacidade de crescimento da economia brasileira é superior a 3,5%. Soltar para crescer Há quem avalie, por exemplo, que “soltar as amarras” dos juros altos e do câmbio valorizado permitiria crescimento maior, melhora nas expectativas para o futuro e, conseqüentemente, aumento dos investimentos e da capacidade de investimento. Ainda assim, há um quase-consenso de que é realmente necessário aumentar a eficiência e a produtividade econômicas. Seja promovendo o que convencionou-se chamar de “agenda perdida” no Brasil, ou seja, as reformas microeconômicas, como a Lei de Falências, a reforma tributária etc., ou melhorando o ambiente econômico, reduzindo juros e acertando câmbio, além de abrir espaço para investimentos em infra-estrutura. Cláudio Adilson Gonçalez, diretor-presidente da MCM Consultores Associados, por exemplo, elenca algumas das causas que podem ter levado à desaceleração do crescimento da produtividade: um período longo, no passado, em que a economia brasileira era extremamente fechada; debilidade de instituições que poderiam tornar o ambiente de negócios mais seguro no País; e a baixa qualidade do gasto público, com aumento da tributação, mas redução de investimentos do governo. “Há muito por se reformar, tanto na macro como na microeconomia, podendo-se citar a necessidade de mudanças nas áreas de tributação, do mercado de trabalho, da previdência, de independência do Banco Central, dos marcos regulatórios e da educação”, conclui Maia.

Mais matérias
desta edição