Economia
Empr�stimo consignado vira pesadelo
| BLEINE OLIVEIRA Repórter Aposentados e funcionários públicos são o alvo principal das dezenas de jovens que, espalhados pelas ruas do Centro de Maceió, distribuem pequenos panfletos com ofertas de empréstimos em dinheiro, com total facilidade. Sem a mínima burocracia, muita gente tem assinado contrato para que o valor emprestado seja descontado na folha de pagamento do salário ou da aposentadoria. Mas os órgãos de defesa do consumidor têm recebido um número cada vez maior de pessoas endividadas que não estão conseguindo sobreviver com o que sobra do salário depois do desconto do já conhecido ?empréstimo consignado?. Socorro Essa nova modalidade de operação financeira se transformou num ganho fácil e seguro para bancos e financeiras, mas também num tormento para quem se vale dos empréstimos oferecidos em qualquer ponto da cidade. A presidente da Comissão de Proteção e Defesa dos Direitos do Consumidor da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/Alagoas), Neilde Rossiter, se diz assustada com o crescimento do número de pessoas que procuram socorro naquela instituição. ?O empréstimo consignado é um produto que não oferece a menor defesa para o consumidor?, afirma ela, que tem casos diversos para intermediar. Num deles, o consumidor chegou a uma situação desesperadora, incapaz de manter a família com o que sobra de seu salário depois que fez o empréstimo. Abordagem Em qualquer rua do Centro é possível encontrar os tais ?corretores? de empréstimo. O papel deles é abordar pessoas, especialmente idosos que tenham o benefício da aposentadoria. ?É um assédio violento, onde muita gente é induzida a fazer essa operação?, afirma Neilde Rossiter. Por sua experiência, a presidente da comissão afirma que o consumidor não tem noção do contrato que está assinando, iludindo-se com as facilidades que as operadoras e bancos oferecem. ?E em muitos casos pressionados por problemas familiares, que acreditam serão resolvidos com o dinheiro que chega às suas mãos logo que assinam o contrato?, acrescenta ela. Em muitos casos, o consumidor compromete um valor além do que pode pagar. O comprometimento é de até 30% da renda do interessado, más há bancos ignorando isso para seduzir quem está precisando de dinheiro. As normas proíbem ao agente financeiro ?impingir produtos ou serviços mediante o aproveitamento de eventual fraqueza, inexperiência ou falta de estudo ou cultura do consumidor, tendo em vista sua saúde, idade, conhecimento ou condição social?. Mas na hora da necessidade poucos pensam no amanhã. ### Taxas de juros baixas atraem servidores e aposentados ?A maioria de nós é analfabeto digital?, diz a advogada Neilde Rossiter, para explicar como os bancos e operadoras se aproveitam da ignorância de muitos para ?vender? esse novo produto. Como em muitos casos bastam três ou quatro comandos no terminal eletrônico para se ter acesso ao dinheiro, muita gente se ilude e contrai empréstimos em prazos longos demais. Antes que o governo limitasse em 36 meses o prazo máximo, havia bancos parcelando empréstimos em até 60 meses. ?Isso é uma tortura para o consumidor que recorre a essa modalidade de crédito, geralmente pessoas com renda entre dois e três salários mínimos?, afirma ela. A advogada mostra vários panfletos que recebeu ao passar por algumas ruas do Centro. Neles são oferecidas as mais diversas vantagens, uma verdadeira armadilha para o consumidor desavisado. Segundo Neilde Rossiter, os bancos se aproveitam de consumidores compulsivos, que só depois percebem o erro cometido. Sem risco Entre as facilidades estão taxas de juros bem mais baixas. Só que isso é possível por que as instituições não correm risco. Como o dinheiro é descontado direto na folha do servidor público ou pelo INSS no pagamento do aposentado, a garantia é total. ?Essas taxas poderiam ser ainda mais baixas, pois o banco tem segurança do crédito?, argumenta a presidente da Comissão do Consumidor mantida pela OAB. O empréstimo só não é seguro para o consumidor que se desespera ao se deparar com o desconto, ou seja, ao ?cair na real?. Para o aposentado que recebe salário mínimo é um susto. O desconto médio é de R$ 70,00. Se com a aposentadoria integral já é difícil manter a família, imagine com R$ 230,00. A Previdência Social quer evitar que os aposentados tomem empréstimos muito altos e fiquem endividados por muito tempo. |BL