Economia
Nordeste pretende alavancar turismo
Vitória Alcântara Editora de Economia Os estados do Nordeste começam a traçar um ambicioso plano de negócios que pretende alavancar o turismo na região. A idéia é atrelar o setor turístico ao imobiliário e transformar a vocação natural da área mais ensolarada do Brasil em um dos mais rentáveis segmentos econômicos, transformando o destino nordestino de sol e praia em um dos mais procurados do mundo. O produto turístico-imobiliário, que engloba hotéis, imóveis residenciais e lazer em uma mesma área, já se consolidou em várias partes do mundo. Os resultados dessa parceria são destinos turísticos competitivos e que atraem centenas de milhares de turistas por ano, como, por exemplo, o Caribe, na América Central e Palma de Maiorca, capital da maior ilha do arquipélago das Baleares espanholas. A análise de especialistas no setor é de que o Nordeste passa por um período de mudanças. Eles se baseam em vultosos investimentos estrangeiros que estão viabilizando projetos turístico-imobiliários na região e, segundo eles, tendem a fortalecer o turismo na região, elevando-o a um dos pilares mais fortes das economias locais. De acordo com o estudo Brasil ? Investimentos Turístico-Imobiliários, de autoria de Diogo Canteras, Cristiano Vasques e Gustavo Moura, da HVS International, líder mundial em consultoria turística, e apresentado no Salão Imobiliário de Lisboa 2005 e no Nordeste Invest que ocorreu semana passada em Maceió, o Nordeste brasileiro teve no final da década de 90 e início de 2000 a ?primeira onda de grandes projetos hoteleiros?, quando se instalaram o primeiro hotel do Beach Park (CE), o complexo da Costa do Sauípe (BA), o Blue Tree Park de Cabo de São Agostinho (PE) e o Summerville Beach Resort (PE). O artigo destaca a recente ?segunda onda de grandes projetos empresarias?, muitos viabilizados com capital estrangeiro e que começam a surgir no Nordeste. ?A principal diferença entre os empreendimentos da primeira onda e os da segunda é que os primeiros eram empreendimentos exclusivamente hoteleiros e de lazer, enquanto os segundos agregam também uma componente imobiliária?. ### Especialistas fazem análise de projetos Esse fator imobiliário no setor turístico, explica o estudo Brasil - Investimentos Turístico-Imobiliários, de autoria dos consultores da HVS International, surge da ?inclinação do mercado internacional para compra deste produto imobiliário, majoritariamente destinado a segunda residência?. A segunda residência é a tendência de estrangeiros investirem em casas de férias no Brasil, em vez de se hospedarem em pousadas e hotéis. De 400 para 45 Em passagem por Maceió na semana passada, onde participou como palestrante do Encontro Internacional de Investimentos Turísticos e Imobiliários no Nordeste Brasileiro (Nordeste Invest), Diogo Canteras, um dos autores do estudo sobre investimentos turístico-imobiliários, que também é professor de Desenvolvimento de Projetos Turístico-Hoteleiros da Fundação Getúlio Vargas (FGV), enumerou os projetos deste porte que têm, segundo ele, ?boas chances de viabilização?. ?Falava-se em até 400 projetos turísticos-imobiliários em desenvolvimento no Nordeste. Mas depois de fazermos uma análise mais detalhada e passarmos todos eles por uma peneira que levou em consideração três características: se o projeto está em uma área com efetivo potencial turístico, tem de ser um lugar espetacular com experiência turística e acessibilidade; se possui entre os investidores de grupos fortes envolvidos, já que esse tipo de empreendimento exige uma considerável quantia de recursos, só a análise de viabilidade do projeto pode custar US$ 1,5 milhão e, finalmente, se foi formatado economicamente equacionada, se há sintonia entre os grupos de investidores?, explicou. Depois dessa triagem, dos prováveis 400 projetos, sobraram 46. ?É um número muito representativo para a região. São 17 empreendimentos na Bahia; nove no Ceará; nove no Rio Grande do Norte; um na Paraíba; cinco em Pernambuco; quatro em Alagoas e um em Sergipe?. Canteras ressalta que considerando o tamanho de Alagoas (segundo menor Estado da região Nordeste, apenas Sergipe é menor), o número de empreendimentos no Estado é considerado grande. Os nomes dos 46 projetos não foram divulgados. Canteras afirma que, apesar da expressiva quantidade de projetos viáveis em andamento, é importante destacar que sendo a costa do Nordeste grande ? são 3 mil quilômetros de extensão ? mesmo nos estados mais desenvolvidos ainda há uma variedade de áreas com potencial turístico. |VA ### Estabilidade econômica atrai investidor A viabilidade de projetos turístico-imobiliários, que necessitam de pelo menos uma década para se consolidar e recursos estrangeiros para se tornar realidade, é defendida pelo sócio-diretor da HVS International no Brasil e professor da Fundação Getúlio Vargas, Diogo Canteras. Segundo ele, alguns pontos contribuem para essa crença. ?A economia brasileira está se organizando e a inflação está sob controle. O País dá sinais de ter estar num período de estabilidade econômica. O câmbio baixo que talvez fosse um obstáculo aos investimentos não deve baixar ainda mais nos próximos anos. Na próxima década, a perspectiva é de que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) seja de 3,5% a 4%. O fluxo de turistas no Brasil deve crescer nos próximos anos. Em 2002, segundo dados da Infraero, o movimento de passageiros internacionais no Nordeste foi de cerca de 400 mil, em 2005 passou de um milhão. E finalmente a propensão de empreendedores externos de investir no Brasil?, observa Canteras. Desafios O presidente da Comissão de Turismo Integrada do Nordeste (CTI-NE) e secretário de turismo do Ceará, Allan Aguiar, destaca outros pontos específicos da região e que, segundo ele, são positivos. ?Temos um litoral de mais de 3 mil quilômetros com o preço médio do metro quadrado de terreno praiano bem mais barato que nosso concorrente. Não temos desastres naturais como furacões e nem ameaça terrorista e temos em abundância o que o nosso destino se propõe: sol e praia. Sem esquecer a cultura e gastronomia da nossa região?. Mas Aguiar reconhece que não basta apenas um litoral extenso e poucos dias de chuvas ao ano para atrair os turistas, principalmente os internacionais. Segundo ele, é imprescindível o investimento em infra-estrutura e na acessibilidade aos destinos vendidos. ?Precisamos de energia, água, esgoto, aeroportos, comunicação, rodovias. Precisamos melhorar nossa imagem, pois as mazelas sociais podem atrapalhar o turismo. A exploração sexual infanto-juvenil é uma dessas mazelas e precisa ser combatida?, afirma. Como a idéia é investir na qualidade do turista ? aquele que tenha um poder aquisitivo mais alto e assim deixe mais dinheiro na região ? e não na quantidade, Aguiar propõe que os estados nordestinos se unam para alcançar esse objetivo. ?Não podemos cair na armadilha de achar que nossas praias são mais bonitas que as praias do mundo afora. Precisamos posicionar nossos produtos para atrair os turistas. Os estados nordestinos não são concorrentes, mas complementares para conquistar o turista internacional?, garante o presidente da CTI-NE. Dinheiro da Europa Os levantamentos da HVS International mostram que os investimentos no Nordeste são majoritariamente de europeus. Há na região capital português, espanhol, sueco, dinamarquês, finlandês, holandês e italiano. ?Não há investimento dos EUA, Japão, China e Oriente Médio. Mas isso é uma questão de percepção, eles acham que devem investir em outras regiões do mundo. Pelo menos 3% dos norte-americanos afirmam, por exemplo, que investiriam em uma segunda residência na China e 0% que investiria na América do Sul. Mas isso é percepção e percepção muda?, diz Canteras. VA ### Investidor elogia belezas, mas reclama de malha aérea Para o investidor Victor Foroni, um dos responsáveis pela Villa Trump, condomínio que deve ser construído nas montanhas de Itatiba, interior de São Paulo, e conta com a parceria do empresário norte-americano Donald Trump, a ?hora? é do Nordeste. ?É um trabalho que vem sendo feito há algum tempo, mas só agora parece que a ficha caiu para os governantes locais. Antes só se falava do Nordeste por causa da miséria da seca. Parece que agora o setor público decidiu investir no turismo. E há um conjunto de fatores favoráveis: a saturação de outros empreendimentos no resto do mundo, a beleza natural da região. Mas é preciso investir em infra-estrutura. Eu senti na pele a dificuldade para chegar em Alagoas, em um dos vôos eu deveria sair de Recife, ir para Brasília para poder voltar para Maceió. Terminei vindo de carro?, diz. Foroni esteve em Maceió semana passada participando do Nordeste Invest. ?Estou procurando uma área no Nordeste para aquisição imediata?, revelou sem adiantar do que se trata o empreendimento. ?Posso dizer que é um grande investimento?. Na sexta-feira, ele fez um sobrevôo sobre o litoral alagoano para conhecer o potencial turístico do Estado. |VA