Economia
Profiss�es somem com o avan�o da tecnologia
As mãos habilidosas fazem com perfeição o ofício que aprenderam há algumas décadas. Se a máquina de datilografia enguiçou, seu Arlindo sabe consertar. Se a barba só fica rente feita com navalha, entra em cena seu Zé Maria. Se a precisão for uma foto para documento, pode contar com a paciência do ?lambe-lambe?, por 20 anos, Cícero Benedito. Se o convite de casamento tem de ser feito à mão, Elineide se esmera, não escrevendo, mas desenhando as letras. Profissões essenciais no passado e raridades no presente se encaminham para a extinção no futuro. Os instrumentos de trabalho já praticamente sumiram do mercado, os clientes são cativos e os novatos quase exceção. Os ofícios que sustentaram famílias inteiras estão fadados ao esquecimento, em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia. ### Mecânico de máquinas de datilografia ainda resiste Com experiência apenas em jardinagem, mas muita disposição para aprender, o mecânico de máquinas de datilografar Arlindo de Melo conta que não impressionou o patrão ao chegar de ?calças curtas e pés descalços? no primeiro dia de trabalho. ?Eu fui para substituir o outro auxiliar que estava doente. Mas eu não me contentava em apenas varrer e arrumar as coisas, ficava no pé do seu Mário Lins Feijó vendo como ele consertava as máquinas?, conta e se diverte ao recordar: ?Uma vez ele me mandou lixar um cilindro e enquanto lixava fiquei olhando ele trabalhando, foi poeira pra todo lado?. A vontade de aprender a fazer as máquinas voltarem a funcionar dobrou o patrão quase sempre sisudo. O trabalho que seria temporário virou permanente. Na véspera de receber o primeiro salário, lá pelos idos de 1955, seu Arlindo, um adolescente que ao lado da mãe trocou Murici por Maceió não conseguiu pregar o olho. ### Clientes cativos garantem trabalho em barbearia Em outubro de 2002 foi lançada a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), um documento utilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Ministério do Trabalho e do Emprego que reconhece, dá nome e codifica os títulos e o conteúdo das ocupações do mercado brasileiro. A edição atualizou a publicação de 1994, trouxe novas ocupações e também aponta para o fim de algumas. São mudanças econômicas, sociais e tecnológicas alterando o mercado de trabalho. O economista e diretor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), professor Luiz Antonio Cabral, afirma que é impossível pensar na permanência de profissões sem a evolução natural das tecnologias e dos processos de trabalho e cita como exemplo clássico a rede bancária. Segundo o economista, ?cada vez mais os clientes são atendidos por um número menor de bancários, graças à tecnologia digital, aos postos de auto-atendimento e a forma de organizar o trabalho nas agências. Isso também exige que a população se adapte a essas novas práticas, como por exemplo, o uso adequado desses terminais de auto-atendimento?, salienta. ### Lambe-lambe recorre à máquina digital Há pouco mais de três anos, quem precisava fazer fotos para documentos e estava no Centro de Maceió não pestanejava: procurava logo os serviços de um lambe-lambe. Hoje, com a maioria das repartições públicas oferecendo serviços fotográficos digitais e com a concorrência de máquinas cada vez mais modernas, o fotógrafo ambulante que era quase sempre a primeira opção dos clientes foi obrigado a se adaptar, deixar de lado a velha máquina de mais de 20 quilos e começar a usar as famosas digitais. Chegava ao fim uma era de trabalho quase artesanal, em que o profissional para saber se a foto estava no ?ponto? experimentava um pouco do produto químico utilizado na revelação; quanto menos salgada, melhor e mais duradoura seria a imagem. Era um ?lambe-lambe? para garantir a qualidade da foto. ### ?O ser humano é e será insubstituível? Nas bem traçadas linhas, com letras desenhadas, cheias de técnicas e amor pelo ofício, a arquiteta e calígrafa Elineide Valença de Andrade, 30, vai escrevendo a história de uma das profissões que resistem a vários programas de computador e técnicas de impressão de convites. O que começou como curiosidade de adolescente virou trabalho quando as encomendas começaram a chegar. ?Primeiro foram os parentes e depois os serviços personalizados para vários clientes?, conta Elineide. As facilidades de impressão, técnicas que usam carimbos e os programas de computador ampliaram a oferta de serviços e reduziram ainda mais o campo de atuação dos calígrafos. ?Ficou mais restrito. Hoje em dia até lojas de noivas fazem esse tipo de trabalho?, afirma Elineide. /// Arlindo de Melo aprendeu a consertar máquinas de datilografia e contabilidade aos 12 anos e fez do ofício seu único trabalho. Foto: Marcelo Albuquerque