Meio ambiente
Caatinga ganha protagonismo com modelo inédito de crédito de carbono
Associação busca construir sistema participativo, de baixo custo, capaz de ser replicado diretamente pelas comunidades locais
Desde 2022, a Associação dos Produtores de Crédito de Carbono Social do Bioma Caatinga vem reunindo agricultores familiares, comunidades tradicionais e técnicos em torno de um objetivo inovador: desenvolver um modelo brasileiro de crédito de carbono que valorize a vegetação nativa em pé e assegure protagonismo às populações do semiárido.
A proposta surge diante de um cenário em que a maior parte das metodologias de certificação existentes foi criada na Europa, com custos elevados e pouco adequadas à realidade da Caatinga. A associação busca, portanto, construir um sistema participativo, de baixo custo, capaz de ser replicado diretamente pelas comunidades locais, sem a necessidade de recorrer a consultorias internacionais.
Mas, afinal, o que é um crédito de carbono? O presidente da associação, Haroldo Almeida, explica de forma simples: “Toda planta absorve gás de efeito estufa. A folha, no seu crescimento, já vai sugando a poluição, e não só ela: as raízes, o tronco, o caule e até mesmo os frutos absorvem carbono. Quando a gente calcula e chega a uma tonelada de carbono absorvida, isso equivale a um título de crédito de carbono”.
O processo está diretamente ligado ao crescimento da vegetação. Cada hectare de área nativa da Caatinga, por exemplo, pode absorver até cinco toneladas de carbono por ano. “Isso significa que um único hectare pode gerar cinco títulos de carbono que podem ser colocados no mercado”, complementa o presidente.
Joalheiria é alvo de assalto em plena luz do dia em Teotônio Vilela
Prefeitura remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara
Operação prende suspeito de tráfico de drogas em Arapiraca
Polícia inicia 6ª fase da Operação Cerco Fechado
Ação da Semsc remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara
Essa explicação ganha ainda mais relevância quando se observa o papel da Caatinga no equilíbrio climático do país. Embora ocupe apenas 10% do território brasileiro, o bioma é responsável por mais de 50% de todo o carbono sequestrado no Brasil.
Esses dados foram recentemente publicados na revista Science, em estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que reforça a importância estratégica da região, inclusive em comparação com a Amazônia. “Foi uma das primeiras vezes que ficou claro, em dados científicos, o quanto a Caatinga é decisiva para o equilíbrio climático do Brasil”, destaca o presidente da associação.
Com base nesses indícios, a entidade já tem resultados relevantes no campo científico. Foram cinco artigos aprovados em eventos nacionais, além de outros dois em avaliação, todos tratando da metodologia participativa de certificação.
A associação também conquistou apoio de instituições de peso, como o Centro Brasil no Clima (CBC), o Fórum Brasileiro de Mudança do Clima e o Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. Lideranças como Sérgio Xavier têm contribuído diretamente para o fortalecimento da iniciativa.
Em termos de metas, a expectativa é preservar entre 50 mil e 100 mil hectares de vegetação nativa já nos dois primeiros anos de funcionamento pleno do sistema. Considerando a taxa média de absorção da Caatinga, isso pode significar a emissão de até 200 mil créditos de carbono nesse período.
Para alcançar esses números, a associação aguarda a aprovação de projetos submetidos ao Banco do Nordeste, além de buscar parcerias com entidades nacionais e internacionais que possam apoiar a criação de uma plataforma digital, o desenvolvimento de um aplicativo de monitoramento e a consolidação de uma certificação participativa acessível a agricultores e comunidades.
Hoje, a Associação dos Produtores de Crédito de Carbono Social do Bioma Caatinga já reúne 108 associados, sendo a maioria de Alagoas, mas com participação também de agricultores e técnicos de Sergipe, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Paralelamente, foi criada uma cooperativa de apoio, que já soma 25 cooperados e atua na comercialização dos créditos.
“A associação cuida da identificação e monitoramento, enquanto a cooperativa apoia a venda. Sempre priorizamos que as próprias cooperativas locais façam esse trabalho, fortalecendo o protagonismo da comunidade”, afirma Haroldo.
O público-alvo dos créditos de carbono são empresas e empreendimentos de grande porte. A justificativa está na legislação: a Lei nº 15.042 exige que organizações que emitam mais de 10 mil toneladas de gases de efeito estufa por ano compensem suas emissões, adquirindo títulos de crédito de carbono. Isso coloca multinacionais e grandes companhias entre os principais clientes em potencial da associação.
Dessa forma, a ideia de criar uma iniciativa dessa natureza surgiu em 2020, a partir de conversas com agricultores da Caatinga que enfrentavam dificuldades para gerar renda sem recorrer ao desmatamento. A proposta evoluiu, ganhou respaldo científico e foi fortalecida pela colaboração de pesquisadores como Aldo Torres Salles, Gustavo Irgangue, Fernando Pinto Coelho e Thiago Vieira, além de lideranças locais como Pedro Soares Neto, Nilson Lopes Alves e Fabiana Colto. O apoio de entidades territoriais, comitês de bacias hidrográficas, prefeituras e institutos também foi fundamental para estruturar o projeto.
Mais do que um ativo financeiro, o crédito de carbono na Caatinga é encarado como uma ferramenta de inovação social e ambiental. “O nosso foco é dar voz às comunidades e mostrar que a Caatinga não é apenas resistência, mas também oportunidade. Estamos transformando o bioma em ativo econômico, científico e social, capaz de gerar desenvolvimento e preservar a vegetação nativa”, conclui Haroldo.
*Estagiária sob supervisão.