Economia
Descaso deixa ferrovia em Alagoas fora dos trilhos
ROBERTO VILANOVA Abandonada há dois anos, a ferrovia para transporte de cargas em Alagoas está fora dos trilhos ? o último trem cargueiro circulou em maio de 2000. A proposta para recuperar a linha férrea destruída pelas cheias dos Rios Mundaú e Canhoto, discutida pela Companhia Ferroviária do Nordeste ? CFN ? com o governo do Estado, foi rechaçada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ? BNDES ? que considerou o pedido de financiamento de R$ 40 milhões elevado. O péssimo estado na malha ferroviária alagoana, a partir de Rio Largo na direção de Aracaju e Recife, ou seja, nos dois troncos, e a falta de perspectiva quanto ao êxito do governo estadual na negociação com o BNDES para a liberação dos recursos financeiros motivaram a exclusão do Porto de Maceió no novo traçado da Transnordestina, a ferrovia que vai interligar o Nordeste Setentrional e o Sertão do São Francisco às capitais do Nordeste, exceção de Maceió. ?Outra questão é a pauta de exportação minguada, apenas o álcool que a gente já transportava da Usina Laginha para o Ceará?, disse um funcionário da CFN em Maceió. Sem apoio O governo de Pernambuco decidiu não mais esperar por Alagoas e cuidou de viabilizar o trecho da ferrovia entre Recife e Salgueiro, fazendo em seguida a ligação Salgueiro-Cratéus, no Ceará, e o ramal Araripe-Salgueiro. A direção da CFN explica a posição pernambucana, sustentando que, na verdade, a Transnordestina só é viável economicamente com esses trechos recuperados ou instalados. ?Só o pólo gesseiro de Pernambuco garante 30% da carga a ser transportada pela Transnordestina. A ligação com Salgueiro é fundamental?, defendeu o funcionário da CFN. O projeto da nova ferrovia destaca ainda como oportunidades de cargas a fruticultura ? a exportação de frutas brasileiras cresce 35% ao ano com a exportação de mais de 500 mil toneladas; açúcar, combustíveis e até automóveis ? a produção baiana. Embora a direção da CFN não admita oficialmente a participação da economia alagoana, para a viabilização da nova ferrovia, é ínfima ? não há pólos industriais significativos no Estado e a produção alagoana, na maioria, é destinada ao consumo doméstico. E sem o apoio do governo federal, para recuperar a malha ferroviária do Estado, o transporte de carga não será reativado. Investimento A Companhia Ferroviária do Nordeste ? CFN - é formada pelo consórcio que reúne a Companhia Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional ? CSN ? e o Bradesco. A CFN arrematou a Rede Ferroviária Federal e hoje controla 4.534 quilômetros de ferrovia desde Alagoas ao Maranhão. E a malha ferroviária baiana e sergipana, que não está sob controle da CFN, tem a participação acionária da Vale do Rio Doce. ?De uma forma indireta, a CFN acaba controlando todo o sistema?, comenta o funcionário da empresa. Mas há muito o que fazer para recuperar a malha ferroviária nordestina. A CFN se compromete a investir na melhoria da linha férrea e nas comunicações, implantando cabos de fibra ótica, subterrâneos, paralelos à linha, desde que o governo federal garanta a ligação do Pólo Gesseiro de Pernambuco à Transnordestina ? o pólo é o novo filão do sertão pernambucano, com a instalação de 380 indústrias que exploram as jazidas de gipsita ou beneficiam a produção ? a região é responsável pela produção de 80% do consumo de gesso no País. Segundo o funcionário da CFN, também para os industriais de gesso a exportação da produção para o mercado externo só é rentável se o produto for transportado pela ferrovia. ?Para você ter uma idéia, o frete rodoviário custa 14 dólares e 60 centavos a tonelada; pela ferrovia, a tonelada custa 3 dólares, uma diferença estúpida?, salientou. Se for analisado o preço do produto pernambucano com o similar negociado na Europa, a diferença é ainda maior. Enquanto o gesso produzido no pólo de Araripe custa 280 dólares a tonelada, na Europa o produto chega a ser vendido a 700 dólares, a tonelada.