Economia
Pernambucanos adotam litoral norte de Alagoas
ROBERTO VILANOVA Japaratinga - As bandeiras de Pernambuco e do Sport Clube Recife, hasteadas em mastros de cinco metros de altura, em terras alagoanas, delimitam o espaço físico ocupado pelo vizinho e escancaram a história da influência pernambucana no Litoral Norte de Alagoas. Os símbolos tremulam no terreiro em frente a uma casa de veraneio na Avenida Beira-Mar, em Japaratinga, a 118 quilômetros de Maceió, e servem de marco da dominação econômica da região cada vez mais dependente dos investimentos de empresários e profissionais liberais de Pernambuco, além dos turistas que chegam através de pacotes fechados em Recife. As bandeiras pernambucanas tremulando em terras alagoanas podem confundir quem visita a cidade de Japaratinga, mas para os nativos, nada demais - os dois símbolos são mais comuns na região que o pavilhão de Alagoas ou a bandeira de clubes de futebol local. ?Procure uma bandeira do CSA ou do CRB aqui e eu duvido que você encontre. Agora procure uma bandeira do Santa Cruz, do Náutico ou do Sport que você vai encontrar por quilo?, comenta o pescador e atleta José Guilherme, 33, que não se importa ? ?Tudo é Brasil?, ensina, agradecendo porque os pernambucanos tiraram a região do marasmo. O dono Pelo menos na divisa do Litoral Norte, os 185 anos de emancipação política de Alagoas não conseguiram acabar com a influência exercida por Pernambuco; na alta estação turística, de cada 10 reais que circulam na cidade, oito reais são gerados por pernambucanos ou pelos turistas que chegam através do Recife. No caminho inverso da economia, bens e serviços são mais fáceis de obter do lado pernambucano; até a assistência médica é melhor em Palmares ou Barreiros, sem falar na rodovia sempre bem conservada. ?Natural de Japaratinga, só quem nasceu em casa, com a parteira?, tornou Guilherme, que nasceu em Palmares. A casa localizada defronte ao mar, onde tremula a Bandeira de Pernambuco, pertence ao piloto da Varig, Sérgio Conti, um pernambucano que se apaixonou pelo lugar e se instalou há cinco anos como veranista. Devido às bandeiras hasteadas o ano inteiro - o comandante Conti também mandou hastear a Bandeira Nacional ? a casa é conhecida pelos nativos como embaixada e virou o marco do domínio pernambucano no Litoral Norte. O dono do imóvel não se exibe, apenas presta a homenagem ao Estado de origem; bem relacionado, aproximou-se dos nativos e, igual ao pescador Guilherme, resume a geografia: ?Tudo é Brasil?. Histórico A influência de Pernambuco sobre a divisa do Litoral Norte é antiga, mas se ampliou com o boom turístico. A presença pernambucana é tão forte na região, que o Hotel Salinas, um dos mais bonitos do País, localizado em Maragogi, já foi apresentado no noticiário de televisão como pertencendo à cidade pernambucana ? o noticiário considerou Maragogi como se fosse localizada em Pernambuco. A dependência também pode ser medida pelos números da economia ? com exceção do coco, da pesca e da cana-de-açúcar, tudo vem de fora. Quer dizer: de Pernambuco. O Litoral Norte foi por onde Alagoas começou. A divisa fixada pelo Rio Persinunga, separando Maragogi de São José da Coroa Grande, assinala também o ponto de partida para a ocupação da influência do território alagoano. E mesmo quando impedidos de ultrapassarem a divisa, como os ônibus sem autorização para fazerem a linha interestadual, dá-se um jeito; os coletivos que fazem o transporte alternativo não cruzam a ponte, mas fazem o transbordo. O impedimento burocrático não inibe o fluxo, de modo que a movimentação no sentido para Pernambuco é dez vezes maior que para as cidades alagoanas. E qualquer esforço compensa, se o resultado vem no bolso com a economia. Dona Maria José Carvalho Batista, 46, alagoana, nascida no povoado São Bento, em Maragogi, teve cinco filhos ? três homens e duas mulheres ? que nasceram nas cidades pernambucanas de Palmares, Barreiros e Ipojuca. ?Tudo do lado de lá é mais barato. Eu prefiro ir para o Recife, comprar lá, mesmo pagando passagem e alimentação, sai mais em conta?, disse. Há também os que nasceram em Recife, apesar de a distância ser a mesma para Maceió. São os casos de Arnaldo Pedro Lemos, 52, sapateiro que trabalha na pracinha em frente à Igreja de Nossa Senhora das Candeias, e Bruno Ricardo Bezerra Maranhão, 22, filho do China, dono do caldo de cana mais famoso de Japaratinga, ambos pernambucanos da capital. ?A rodovia até Recife é um verdadeiro tapete. É mais fácil ir para lá, do que para Maceió. Além disso, os preços das mercadorias são mais baratos?, explicou Arnaldo, o único e, segundo ele, o último sapateiro da cidade.