MEIO AMBIENTE
Alerta: caatinga perde 88% de vegetação em AL em 40 anos
Extração de madeira e especulação imobiliária são principais causas da devastação
Com uma extensão de 12 mil km² que abrangem 43% do território da Alagoas – o que representa 44 municípios espalhados pelo Sertão e Agreste do Estado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, a caatinga perdeu 88% de sua vegetação nas últimas quatro décadas, aponta levantamento do Instituto SOS Caatinga, Organização da Sociedade Civil (OSC) que atua na preservação, restauração e defesa do bioma no Sertão de Alagoas.
O estudo é feito baseado nos dados compilados no MapBiomas Brasil, plataforma alimentada por Organizações Não Governamentais (ONGs), universidades e empresas de tecnologia.
Médico veterinário do Instituto SOS Caatinga, Rick Taynor Andrade Vieira ressalta que a situação do bioma é altamente preocupante. Ele aponta como principal causador do desmatamento a retirada de vegetação de forma irregular (supressão da vegetação sem autorização dos órgãos ambientais), para abertura de novas áreas de pastagens (pecuária), especulação imobiliária para implementação de empreendimentos de luxo (comum em Piranhas e Delmiro Gouveia, especialmente próximo a calha do São Francisco), e a queima da vegetação para fazer carvão.
“Precisamos de mais políticas públicas voltadas para recuperação de áreas degradadas no bioma e de uma legislação voltada para a caatinga, pois hoje é aplicado o Código Florestal, que não contempla as características do bioma, como volume lenhoso e porte da vegetação”, ressalta Rick Taynor.
Ele alerta que o fomento de unidades de conservação não acontece de forma satisfatória. Mesmo sendo a região árida mais densamente povoada do mundo, ainda não existe uma lei específica para proteção do bioma, assim como existe para outros ecossistemas.
Nessa terça-feira (28), quando se comemorou o Dia Nacional da Caatinga, o Consórcio Nordeste destacou a importância da caatinga para a economia não apenas da região, mas do país. "O semiárido mais biodiverso do mundo abriga 28 milhões de pessoas e uma floresta que responde por quase metade de todo o carbono capturado pelo Brasil. Com mais de 3,3 mil espécies de plantas, o bioma é hoje um pilar da transformação ecológica, polo de biotecnologia e berço de tecnologias sociais essenciais para o convívio com as mudanças climáticas", enfatizou a entidade em nota.
“Colocamos a caatinga no centro do Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica porque reconhecemos que é desse patrimônio natural que está emergindo uma nova economia sustentável, impulsionada por ciência, tecnologia e saberes tradicionais, e que trará desenvolvimento e riqueza para a nossa população”, afirma Paulo Dantas, presidente do Consórcio Nordeste e governador de Alagoas.
Ele lembrou que o território abriga cadeias já consolidadas e um conjunto de potenciais biotecnológicos: no Piauí, cactos viram biotêxteis; em Alagoas, fibra de ouricuri substitui plásticos; em Pernambuco, velame e faveleiro alimentam a indústria de fitoterápicos e anti-inflamatórios; no Rio Grande do Norte, mamona pode virar lubrificantes especiais e materiais médicos; e em Sergipe, o alecrim-do-mato se transforma em fungicidas e bactericidas naturais para a lavoura.
Pesquisas do Observatório do Carbono, da Água e da Energia na Caatinga (Onda-CBC) mostram que o bioma é uma usina silenciosa de sequestro de carbono — e um trunfo do Brasil no enfrentamento da crise climática. Segundo os estudos, em áreas mais úmidas, o ecossistema chega a sequestrar até 7 toneladas de CO₂/ha/ano; nas mais secas, mantém 1,5 a 3 toneladas, com uma eficiência de uso do carbono de 58%.
“O segredo está, sobretudo, debaixo da terra: 72% do carbono fica armazenado no solo – cerca de 125 toneladas por hectare. A caatinga é, ao mesmo tempo, sumidouro ativo e cofre natural de longo prazo. Podemos dizer: basta uma gota de chuva e ela renasce. Cada galho, folha e grão de solo viram cofres silenciosos de carbono”, destaca o documento.
Outro estudo na Science of the Total Environment divulgado no ano passado mostrou que a caatinga respondeu por cerca de 50% do sequestro líquido de carbono do Brasil.