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NEGÓCIOS

Alagoas registra quase 60 mil empresas inadimplentes

Juntos, esses negócios acumulam dívidas de R$ 778,6 milhões, aponta Serasa

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Dívida média das empresas de Alagoas é de mais de R$ 13 mil
Dívida média das empresas de Alagoas é de mais de R$ 13 mil | Foto: — Divulgação

Embora apresente um dos menores índices de inadimplência empresarial do Nordeste, Alagoas ainda convive com um cenário que preocupa. Em maio deste ano, 59.819 empresas estavam com pendências financeiras no estado, segundo levantamento da Serasa Experian. Juntas, elas acumulavam 254.656 dívidas negativadas, que somam R$ 778,6 milhões.

O volume coloca Alagoas na terceira menor posição entre os nove estados nordestinos, atrás apenas de Sergipe e Piauí, e entre os menores índices do país. Ainda assim, para especialistas, os números evidenciam um desafio que vai além das estatísticas: manter vivas empresas responsáveis pela maior parte dos empregos formais e da atividade econômica estadual.

A dimensão desse problema é conhecida pelo cabeleireiro Edmilson Martins, proprietário de um salão de beleza na parte baixa de Maceió. Depois de atrasar o pagamento de tributos em um período de dificuldades financeiras, ele precisou renegociar as dívidas para evitar que o negócio perdesse fôlego.

"Eu estava em uma situação ruim, mas fiz um acordo em várias parcelas. Com isso, voltei a ficar no azul e deixei a empresa em dia. O valor das parcelas ficou pequeno, porque continuo pagando todas as despesas do salão, mas consegui um compromisso que cabe no meu orçamento", conta.

Histórias como a de Edmilson ajudam a explicar por que a inadimplência preocupa economistas mesmo em estados que apresentam indicadores relativamente melhores. Empresas com pendências financeiras encontram mais dificuldades para acessar crédito, investir e ampliar suas atividades, o que acaba refletindo na geração de emprego e renda.

Na região Nordeste, o cenário é ainda mais expressivo. São 1,18 milhão de empresas inadimplentes, responsáveis por 6,37 milhões de dívidas, que somam mais de R$ 19,4 bilhões. A Bahia concentra o maior número de empresas negativadas (328 mil), seguida por Pernambuco (214 mil) e Ceará (191 mil).

Para o economista José Laurentino, a posição de Alagoas no ranking regional merece ser observada com cautela.

"É positivo que Alagoas mantenha um patamar inferior ao de outros estados nordestinos. Mas isso não significa que a situação seja confortável. São quase 60 mil empresas enfrentando dificuldades financeiras. Isso afeta investimentos, restringe o acesso ao crédito e interfere diretamente na geração de empregos."

PEQUENOS NEGÓCIOS

O perfil econômico de Alagoas ajuda a explicar parte desse desempenho. Segundo Laurentino, entre 65% e 70% da economia estadual é composta por microempreendedores individuais (MEIs), microempresas e pequenas empresas, segmento que costuma ter maior flexibilidade para reorganizar despesas e ajustar rapidamente o fluxo de caixa.

Ao mesmo tempo, justamente por concentrar grande parte da atividade econômica, qualquer dificuldade financeira desses empreendedores produz efeitos imediatos sobre o mercado de trabalho e o consumo.

"Quando uma pequena empresa deixa de investir, adia contratações ou reduz suas atividades, esse impacto aparece rapidamente na economia local", observa o economista.

Ele lembra que Alagoas possui poucas empresas de grande porte e que parte delas, especialmente no setor sucroenergético, enfrenta processos de recuperação judicial ou reorganização financeira.

Embora fatores macroeconômicos — como juros elevados, inflação e desaceleração do consumo — pressionem o caixa das empresas, Laurentino afirma que o principal motivo da inadimplência continua sendo a deficiência na gestão financeira.

Segundo ele, muitos empreendedores dominam a atividade que exercem, mas não possuem preparo para administrar o próprio negócio.

"O profissional sabe produzir, vender ou prestar o serviço. Mas administrar fluxo de caixa, controlar custos, planejar investimentos e acompanhar indicadores financeiros exige outro conjunto de competências. É essa gestão que faz diferença quando o cenário econômico fica mais difícil."

Para o economista, acompanhar o comportamento do consumidor, a concorrência, a carga tributária e os custos operacionais deixou de ser um diferencial e passou a ser condição para a sobrevivência das empresas.

EMPRESA ORGANIZADA

Outro ponto destacado por Laurentino é que empresas financeiramente organizadas conseguem acessar crédito em condições mais favoráveis.

Segundo ele, instituições públicas continuam desempenhando papel estratégico para os pequenos empreendedores, especialmente por meio de linhas de financiamento voltadas ao desenvolvimento regional.

"O Banco do Nordeste, por exemplo, mantém o Crediamigo, uma das principais modalidades de microcrédito do país. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal também oferecem linhas importantes para micro e pequenas empresas."

No entanto, o economista ressalta que nenhuma linha de crédito substitui uma boa gestão.

"Quando o CNPJ está regular, a empresa consegue melhores taxas, amplia sua capacidade de negociação com fornecedores e cria condições para investir."

Laurentino também defende que a formalização continua sendo um dos caminhos mais eficientes para reduzir a vulnerabilidade financeira dos pequenos empreendedores.

Na avaliação do economista, políticas públicas de crédito e renegociação são importantes, mas não substituem uma administração eficiente.

O desafio permanente dos empresários é equilibrar receitas e despesas, acompanhar indicadores do mercado e tomar decisões com base em planejamento.

Mesmo ocupando uma posição relativamente melhor que a maior parte dos estados nordestinos, Alagoas ainda reúne quase 60 mil empresas inadimplentes. Para especialistas, reduzir esse contingente dependerá menos de fatores externos e mais da capacidade de os empreendedores profissionalizarem a gestão, preservarem a saúde financeira dos negócios e transformarem acesso ao crédito em oportunidade de crescimento, e não apenas em alternativa para enfrentar crises.

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