DINHEIRO
Popularização do Pix alerta pais sobre ensino de educação financeira aos filhos
Usuários de até 19 anos já respondem por 5,98% das movimentações financeiras via chave, aponta BC
Toda vez que a família viajava, a cena se repetia. Já na estrada, os filhos do servidor público Wagner Hebert de Araújo Santos lembravam que o dinheiro havia ficado em casa. O problema, aparentemente simples, fez o pai buscar uma solução: abrir uma conta bancária para cada um deles e criar uma chave Pix. O que ele não imaginava era que a praticidade resolveria um problema logístico e criaria outro, bem maior: ensinar educação financeira a crianças que praticamente não convivem com o dinheiro físico.
O que começou como uma medida para facilitar pequenas compras durante os passeios acabou mudando a forma como a família conversa sobre dinheiro. Se antes bastava entregar algumas notas para o lanche ou um passeio, agora cada transferência se tornou uma oportunidade para ensinar planejamento, responsabilidade e limites. "A criação do Pix para que eles pudessem usar nas viagens", disse Wagner Hebert.
A história dos Hebert reflete uma mudança silenciosa que vem acontecendo em milhares de lares brasileiros. A popularização do Pix não transformou apenas a forma de pagar contas ou fazer compras. Ela também alterou a maneira como crianças e adolescentes têm acesso ao dinheiro e obrigou pais a repensarem a educação financeira em uma geração que praticamente não cresceu usando cédulas e moedas.
Os números mostram a dimensão dessa transformação. Em julho deste ano, o Pix movimentou R$ 3,22 bilhões em todo o Brasil, crescimento de 5,8% em relação a junho e de 25,8% na comparação com o mesmo mês de 2025, quando foram registrados R$ 2,56 bilhões em transações, segundo dados do Banco Central.
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Embora adultos entre 20 e 49 anos concentrem a maior parte das operações, os mais jovens já ocupam espaço importante nesse cenário. Usuários de até 19 anos responderam por 5,98% das movimentações, o equivalente a R$ 192,7 milhões apenas em julho. Entre eles, o celular tornou-se o principal instrumento para movimentar dinheiro.
Para o economista Jarpa Aramis, o desafio das famílias não está na tecnologia, mas na forma como ela é utilizada. Segundo ele, o Pix não deve ser visto como um inimigo da educação financeira, mas como uma ferramenta que exige ainda mais diálogo entre pais e filhos.
"Quando a gente fala de educação financeira, não significa proibir o uso do Pix. O importante é ensinar responsabilidade. Os pais precisam estabelecer regras claras, definir um valor semanal, quinzenal ou mensal e explicar que aquele dinheiro tem limite. Quando acabar, será preciso esperar o próximo período. O limite não deve estar apenas no aplicativo do banco, mas principalmente na conversa dentro de casa", afirma.
O economista observa que a facilidade dos pagamentos instantâneos criou um desafio inédito para as famílias. “O dinheiro físico permitia que a criança enxergasse as notas saindo da carteira. Hoje basta um clique. O dinheiro ficou invisível. Ensinar o valor do dinheiro em um mundo onde ele praticamente não aparece mais é um dos grandes desafios da educação financeira. Aqui em casa eu tento ensinar para o meu filho, o Marcio Machado”, diz.