Economia
Sem coleta, 400 fam�lias perdem renda
As manifestações decorrentes do fechamento do lixão de Cruz das Almas, há duas semanas, expuseram de maneira clara o que muitas pessoas pareciam não enxergar. A quantidade de famílias que sobreviviam catando no lixo e vendendo materiais recicláveis de interesse comercial. Ao redor do lixão, e em função dele, cresceu uma comunidade, a Vila Emater, hoje com cerca de 1.400 pessoas, divididas em cerca de 400 famílias, que estão desesperadas, sem saber o que fazer. Era do lixão que elas tiravam a sua sobrevivência, e para a maioria era lá que estava a única fonte de renda, exceto por algum benefício do governo, como o Bolsa Família. Cerca de R$ 200, R$ 300 por família ao mês, essa a média declarada pelos próprios catadores, o que, num cálculo aproximado, leva ao resultado de uma economia informal que fazia gerar, do meio do lixo, por meio de um trabalho precário, desordenado e degradante, mais de R$ 100 mil por mês. E essa é a realidade em grande parte do Brasil e do mundo. Retorno econômico pode impulsionar soluções A realidade, em quase todos os cantos, é a mesma: os lixões que acumulam os resíduos recolhidos dos centros urbanos geram atividades informais, que geram renda e sustentam muitas famílias. E essas atividades minimizam os efeitos dos resíduos no meio ambiente. A pergunta é: considerando os benefícios ambientais e o potencial de geração de renda, por que os governos não assumem a separação do lixo com aspecto de política pública e atividade econômica, dando aos catadores de lixo o caráter mais digno de emprego, com todos os direitos reconhecidos e a proteção devida? ?Essa política de manter a figura do separador de lixo é inviável. É tanto cara quanto perigosa, por causa das questões legais e de saúde pública?, diz o secretário municipal de Proteção ao Meio Ambiente, Ricardo Ramalho. Na sua opinião, o ideal é promover a coleta seletiva na fonte. Coleta seletiva é quase nula em Maceió A maioria também não leva muita fé na organização de uma cooperativa que vem sendo encaminhada pelo Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu, que atua na Vila. ?É muita gente. O trabalho é muito e o dinheiro fica pouco quando é dividido. Não dá nem para tirar R$ 100 por mês. Isso não sustenta uma família?, diz o catador Domiciano Cavalcante. Mesmo assim, segundo Ana Lúcia, coordenadora do Centro Educacional, a CoopVila já conta com 50 pessoas e está quase pronta para operar. Faltam apenas alguns equipamentos. Em Sauípe, uma história que deu certo Na região turística da Costa de Sauípe (BA), 55 famílias sobrevivem dignamente do tratamento do lixo produzido pelos grandes complexos hoteleiros que se expandiram por lá nos últimos anos. Os chamados ?filhos da obra?, que sofreram o impacto do desemprego após a construção de Sauípe, encontraram no lixo gerado pelos novos empreendimentos a fórmula para a sobrevivência, no vilarejo que mais sofreu com a chegada dos grandes hotéis, que fizeram eclodir, de dois mil para 10 mil o número de habitantes da antiga vila de pescadores. Coco verde é transformado em fibra quilos de óleo de cozinha são recolhidos e reaproveitados pelos cooperados Com ajuda de um triturador elétrico, a VerdeCoop processa cerca de 2.000 cocos verdes por dia, descartados pelo movimento turístico, e transforma em fibra, que é vendida em fardos, para ser usada, geralmente, no beneficiamento de mudas nos coqueirais. Dos hotéis e restaurantes da região, eles recolhem cerca de dois mil quilos de óleo por mês, que são beneficiados na produção de sabão.