GAZETA 92 ANOS
ARNON E COLLOR: o legado que moldou o DNA da Gazeta
A história de pai e filho revela os valores que consolidaram o veículo como referência e embrião da OAM



Enquanto a física impõe o tempo como uma via de mão única, o legado atua nas dobras da história, onde alguns homens descobrem como driblar a finitude. Atravessar o tempo exige mais do que longevidade; demanda a coragem de diluir a própria identidade em grandes feitos, expondo-se ao escrutínio dos dias. É o triunfo da memória sobre o esquecimento. Mas como, afinal, se conquista esse tipo de imortalidade? A vida de dois desses homens ajuda a decifrar esse enigma e a revelar o DNA da Gazeta de Alagoas.
Arnon de Mello era um menino de engenho, que nasceu em Rio Largo no dia 19 de setembro de 1911. A Primeira Guerra Mundial, em 1914, tratou de minar as economias da família e os jogou na estrada. O garoto fez dessa estrada um caminho. Em Maceió, aos 14 anos, começou a trabalhar como office boy e a vender assinaturas do Jornal de Alagoas, onde, mais tarde, atuou como revisor. Pelo olhar criterioso de Arnon, inclusive, passaram textos de nomes como Graciliano Ramos e outros que se projetavam nas letras.
Aos 15 anos, fundou seu primeiro jornal, chamado O Eco, enquanto estudava no Ginásio de Maceió. Ainda na adolescência, virou repórter e já publicava poemas, críticas literárias e reportagens, consolidando sua paixão pelo jornalismo.
Não demorou muito para que o Brasil percebesse o talento do jovem Arnon. Aos 21 anos, ele recebeu a missão de viajar a São Paulo num trem que levava militares ao combate, em 1932. Arnon de Mello acompanhou as tropas, registrou as estratégias e decisões políticas, além do repúdio ao cerceamento da liberdade. Era a “revolução constitucionalista”.
Após 10 anos no Rio de Janeiro, então capital federal, Arnon volta para Alagoas. O menino de Rio Largo se destacou por suas grandes reportagens para os veículos da cadeia dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.
Anos mais tarde, já contribuindo com a Gazeta de Alagoas, resolveu adquirir o veículo e transformá-lo em algo completamente novo, acabando para sempre com o costume dos alagoanos de se informarem por jornais pernambucanos ou do Sudeste. Daquele momento em diante, Alagoas tinha um jornal com a sua cara e a chancela do jornalista best-seller e orgulho local.
Esses foram os primeiros passos de um alagoano obstinado em sua busca por mudar o mundo e que se tornaria o 14º governador de Alagoas, além de fundador do maior complexo de comunicação do Estado e um dos mais importantes do Brasil: a Organização Arnon de Mello.
"Fale sempre com o coração"

A visão de Arnon de Mello ergueu a Gazeta e continua a reverberar em cada página do diário dos alagoanos. A marca do visionário é indelével. Ser grandiosa e pioneira continua sendo sua vocação. Quem garante isso é o jornalista e ex-presidente da República Fernando Collor de Mello. Collor seguiu os passos do pai. Na política, continuou a incentivar o progresso e a buscar soluções para problemas reais do povo. No jornalismo, segue com o mesmo propósito: informar como um parceiro da sociedade, de forma isonômica e responsável.
O ex-presidente lembrou, em entrevista extraída do documentário “40 anos sem Arnon” (2023), que o matutino sempre esteve na vanguarda e foi o primeiro impresso do estado a contar com tecnologias de última geração. Em meados de 1950, a Gazeta foi a primeira empresa de Alagoas a contratar uma mulher como jornalista: Arlene Miranda, descoberta por Arnon.
Ele ressaltou, no entanto, que a Gazeta de Alagoas se reinventou sem perder sua essência. “A Gazeta é um patrimônio cultural, é a memória alagoana. É a voz destas terras caetés, um coro de histórias que se entrelaçam, formando a sinfonia da vida em Alagoas”, apontou.
Collor recorda o incentivo do pai à leitura e os aprendizados com um verdadeiro gênio da comunicação.
“Eu tinha um carinho muito grande, um respeito muito grande por ele, sobretudo lealdade, uma absoluta lealdade ao meu pai. Nunca faltei a ele em nenhum momento, e ele também nunca me faltou em nenhum instante”, afirmou Collor.
O ex-presidente diz lembrar que o pai soltava algumas frases, enquanto falavam de assuntos diversos. “Uma delas foi essa: as dificuldades ensinam e fortalecem, as facilidades iludem e enfraquecem”, revelou.
O filho de Arnon de Mello também seguiu os passos do progenitor quando resolveu que entraria para a história — não só de Alagoas, mas do Brasil. “Ele sempre despertava em nós, além do amor, o compromisso com Alagoas, com a nossa gente, que eu carinhosamente chamo de minha gente. Não no sentido possessivo, mas no sentido afetivo que a palavra ‘minha’ carrega”, relatou Collor.
“Ele dizia sempre: meu filho, procure falar pelo coração. Nunca deixe de falar pelo coração, sobretudo no contato com o povo”, expôs.
De tão vigorosas, as paixões do pai reverberaram nos filhos. Em relação ao jornalismo, não foi diferente. “Ele sempre foi um jornalista de redação, era o que ele gostava. E de papel, do impresso, da Gazeta de Alagoas”, relembrou Collor.
“Na nossa família, todos foram jornalistas, com exceção da Ledinha. Leopoldo, o mais velho, foi jornalista. Ana Luiza foi uma grande jornalista, com texto fabuloso. Eu, jornalista. E Pedro, o mais novo, que também foi jornalista”, detalhou.
Para o jornalista e ex-presidente Collor, todo esse amor por Alagoas e pelas pessoas atravessa os 92 anos de história da Gazeta.
“A Gazeta de Alagoas nunca parou. Nunca cedeu. Nunca se curvou. Ao longo de todos esses anos, manteve-se firme em sua missão de informar com independência e credibilidade. Mesmo diante dos desafios mais árduos – sejam políticos, econômicos ou de ordem sanitária, como na pandemia –, a Gazeta seguiu sua trajetória inabalável, cumprindo o dever de bem informar o povo alagoano. Isso não é apenas história, é um legado que se renova e se fortalece a cada edição”, enfatizou Collor.
