Esportes
Boleiros contra a corrente
No senso comum do estilo de vida do boleiro brasileiro, jogador de futebol ? em sua grande maioria ? estampa um jeito estereotipado de ser. É aquele sujeito que normalmente as pessoas identificam como adorador de pagode ou do som sertanejo. Ou adepto do movimento Atletas de Cristo. Não raro, é só olhar boa parte deles fazer um gol e lá vão as duas mãos em direção aos céus, no gesto de agradecimento a Deus pelo feito. Ou então usa brinquinho e, em um fenômeno mais recente, não perde a chance de aproveitar uma câmera de tevê para fazer aquele gesto já bem manjado, com as mãos em forma de coração. Que tal ainda mandar aquele beijo para mulher, o filhinho que nasceu... Agora, além dessas performances, surgiu o ?João Sorrisão? (João Teimoso). Esse comportamento, na maioria das vezes, desprovido de originalidade e caracterizado pela repetição automática na maior leva do jogador brasileiro, suscitou uma inquietação. É possível encontrar jogador de futebol na atualidade que fuja desse clichê, inclusive em Alagoas? A Gazeta foi à luta e responde: sim, é. Professor justifica o perfil de atletas ?estereotipados? Para fazer um contraponto ao conceito ?estereotipado? do boleiro, o professor Sávio de Almeida, doutor em História pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), coloca ainda mais lenha na discussão, ao justificar o perfil-base dos atletas. ?Não são só os jogadores que nos brindam com essa automação, mas a maior parte da população brasileira é assim. Seria injusto impor somente a eles?, defende Sávio, que adora futebol, torce pelo CRB e admira o Flamengo-RJ. ?Se observarmos bem, a maioria dos torcedores do estádio ou espectadores da tevê tem os mesmos gostos: pagode, sertanejo, a maior parte tem problemas com escola de qualidade. E eles são também o reflexo da sociedade de consumo e de mídia?, sustenta Almeida. Na contramão do pagode Depois de muito tentar, a Gazeta conseguiu, também, ?caçar? outro personagem raro em meio aos pagodeiros da bola na atualidade. O atacante Pedro Henrique, 18, que está no Corinthians Alagoano há apenas um mês e meio. Natural de Belo Horizonte, o mineiro é um dos poucos exemplares que andam na contramão do pagode e afins. Aficionado pelo rock, ele admite: ?É muito difícil você encontrar um jogador de futebol que curta rock and roll. Mas eu mesmo curto?, revela o jovem que se diz fã do grupo mineiro de pop rock Skank, de Samuel Rosa, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti. ?Eles são de Minas Gerais, então, eu, como bom mineiro e fã do rock, curto muito em termos de bandas brasileiras. Além disso, o Samuel Rosa é cruzeirense, clube onde joguei por quatro anos, nas divisões de base?, afirmou Pedro. Outro grupo brasileiro que o jovem atleta roqueiro gosta é o também mineiro J. Quest, do vocalista Rogério Flausino, com Marco Túlio Lara, PJ, Paulinho Fonseca e Márcio Buzelin. Atleta gosta de ser ?diferenciado e criativo? Mas se dependesse de Pedro Henrique, essas coreografias e gestos seriam modificados e bem mais criativos. ?O jogador é muito do tipo de querer ser igual ao outro. Eu já gosto de ser diferenciado também nesse sentido. Quero que me olhem e me vejam como um garoto a ser imitado e não a imitar os outros?, revelou. Então, de que modo você comemora os gols que faz? ?Comemoro fazendo com as mãos o símbolo usado pelos roqueiros (aquele com os dedos mindinho e indicador levantados). Quero criar o meu estilo nas coreografias. Hoje está tudo muito manjado. Eu não preciso fazer um gol e mostrar para todo mundo que amo alguém, fazendo o gesto do coração?, opinou. Pedro Henrique Lima Talim também pensa no futuro. Quando decidir pendurar as chuteiras, ele já sabe qual carreira vai seguir: Educação Física. ?Quero entrar nessa área porque tem a ver com o esporte. É o meio que eu gosto de viver?, afirmou. Velhos e novos transgressores Recentemente, na grande imprensa nacional, com o advento do ?Rock In Rio?, alguns boleiros de maior grandeza no Brasil ?saíram do armário? e surpreenderam ao mostrar um estilo diferenciado. Um deles foi o roqueiro perdido do Fluminense-RJ, atacante Rafael Sobis. Em sua tribo, o samba e o pagode predominam. Ele joga ?contra? a tendência e é fã confesso dos acordes pesados da guitarra. De acordo com a reportagem do portal Globoesporte.com, no lugar do Exaltasamba, Sorriso Maroto e outros grupos que fazem a cabeça da imensa maioria dos companheiros, o atacante preenche seu iPod com nomes como Blink 182, Metallica e Strokes. A opção pouco comum para os boleiros faz com que o jogador do Fluminense sofra com a provocação de companheiros. Em vestiários antes dos jogos, o som do pandeiro e do cavaquinho impera, seja ao vivo ou em aparelhos de som. ?O samba está no sangue do jogador, eu que acho que estou no lugar errado. O samba tem muito a ver, ainda mais no Brasil. É nossa música, nosso estilo. Não tem como fugir. Não sei como não entrei nessa?, justificou Sobis.