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Futebol: uma grande paixão da periferia

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Fernanda Medeiros Wellington Santos Repórteres Eles são simples, anônimos, trabalhadores. Colocam - como supôs certa vez o fanático tricolor Nelson Rodrigues - o pé numa bola como se fossem enfrentar toda a alegria e a tristeza do mundo atrás da pelota ou, usando o jargão popular: Tem que ir na bola, como se fosse em um prato de comida. Mas, apesar de anônimos, figuras interessantes são encontradas nas outroras denominadas peladas, organizadas pelas ligas de futebol amador de Maceió. O fim de semana é sagrado para aquela peladinha. Mas isso não impede que durante a semana, à noite, dêem uma esticadinha nos mais diversos campos espalhados pela cidade. No Dique Estrada, por exemplo, existem seis campos: do Careca, do Cosmos, do Botinha, do Júlio, do São Paulo, da Santa. Todos ficam ocupados, sobretudo aos sábados e domingos, para a realização dos campeonatos. Vários deles têm refletores e são utilizados para jogos no horário noturno. E a torcida prestigia essas competições e algumas já estão em andamento. Charlle Brall O Campeonato do Charlle Brall é uma delas. Começou há quatro meses e está na fase das oitavas-de-final. Tem como favorito o Botafogo, time daquela região. Também foi realizado o Campeonato do Botinha, um dos mais famosos, organizado pelo ex-jogador Botinha, já falecido. Terminou em março. O campeão foi o Centro Comunitário e o vice, o Palmeiras. Pretendemos também promover os campeonatos juvenil e master, mas vamos definir numa reunião, no próximo dia 12, disse o diretor da Associação Desportiva da Integração da Zona Sul (Adizs), Erasmo da Silva. A Adizs foi fundada em novembro de 1977. Outra liga daquela região é a Fortaleza, criada em setembro de 1982. São mais de 160 times amadores somente na região do Dique Estrada e bairros como Ponta Grossa, Trapiche da Barra, Prado e Vergel do Lago. Esses clubes se mantêm com a ajuda dos moradores locais e dos próprios atletas, informou Erasmo. De acordo com uma pesquisa realizada pelo professor e mestre em Educação Física, Eduardo Luiz Lopes Montenegro, de junho de 2004, que faz parte do Atlas do Esporte no Brasil, lançado em dezembro, existem em Maceió 16 ligas de futebol amador, um total de 485 equipes, 7.102 atletas e 74 campos. A maior concentração de jogadores está na região que engloba o Tabuleiro do Martins, Clima Bom, Eustáquio Gomes e Village Campestre. Juntos, esses locais somam 2.225 atletas, distribuídos em quatro ligas, 89 equipes e 15 campos de futebol. O Benedito Bentes tem duas ligas, com 124 equipes, 2.020 jogadores e 16 campos, o maior número da capital. A região do Trapiche da Barra, Vergel do Lago, Prado e Ponta Grossa concentra a maior quantidade de equipes de Maceió, são 169 times, três ligas, 1.209 atletas e dez campos. A região de Pajuçara, Ponta Verde, Ponta da Terra e Jaraguá tem apenas três campos de futebol, uma liga, 16 equipes e 352 jogadores. ### Peladeiros sonham um dia chegar a um grande clube Os atletas que participam dessas competições são geralmente pessoas humildes, que moram nos bairros da periferia. A maioria sonha um dia jogar em um grande clube de Alagoas, como CRB e CSA. E esse sonho é alimentado pelo fato de que jogadores como Adriano (ex-CSA e Atlético-PR, Cruzeiro-MG), Souza (ex-CSA, Botafogo e São Paulo), Jadilson (ex-CRB e Goiás), também já passaram pela várzea. Outro destaque é a revelação do Dimensão Saúde, que disputou o Alagoano da 1ª Divisão, este ano: o atacante Marcos Alagoano, que já despertou o interesse do São Caetano-SP. Ele jogou no Colo-colo do Dique Estrada. Eles jogaram conosco. Viviam no nosso meio. Por isso, também sonhamos em chegar a um time grande. O problema é que os empresários e dirigentes de futebol atrapalham, não valorizam os jogadores da casa. Eles só querem os de fora, lamenta o jovem Josualdo de Almeida, 19, zagueiro da equipe da Portuguesa. Torcedor do CRB, ele diz: Um dia, quem sabe, eu poderei jogar no Galo. Aqui há muitos atletas bons, só precisam de uma chance, mas os dirigentes dos grandes clubes preferem trazer jogadores ruins de outros estados do que aproveitar os da terra, acrescenta Heleno Alves, diretor do São Paulo, do Dique Estrada. |FM/WS ### O peladeiro que jogou no Corinthians Nas peneiras, outro termo usado pelos boleiros de fim de semana para designar as peladas dos campos de várzea de épocas mais românticas do futebol brasileiro, podem ser encontrados jogadores que saíram do chão duro e, às vezes, enlameados, para jogar em gramados como o do consagrado Morumbi, campo particular do São Paulo Futebol Clube-SP. É o exemplo de Paulo Sérgio Almeida, 27, que recentemente jogou pela Liga do Benedito Bentes II. Hoje estou aqui no Goiás do Benedito Bentes, mas já passei por clubes como Corinthians (aspirantes) e Portuguesa, ambos de São Paulo. Foi uma experiência maravilhosa poder entrar em estádios como o Morumbi e outros, relembra. Meia-atacante, ele já foi contratado para jogar na 2ª Divisão do Alagoano, pelo Bandeirante. Já o zagueiro Leonardo Borges, 22, que também joga pela Liga do Benedito Bentes II, não teve uma carreira tão promissora quanto o colega Paulo Sérgio. Hoje jogar é apenas hobby. Já me decepcionei, pois joguei no juniores do CRB, mas os caras não dão valor a quem está iniciando e pagam mal. Então, resolvi arrumar um emprego, disse o zagueiro, antes de entrar em campo para decidir o título da Liga contra o Palmeiras. Ele trabalha como serviços prestados e recebe cerca de R$ 300, mas avisa: Se pintar uma proposta boa, deixo o emprego para jogar num clube profissional decente. Eles são assim: atletas que estão engatinhando no futebol, outros que já jogaram em times profissionais. São peladeiros que sonham alto e alguns vão ter a chance de participar de um campeonato profissional, mas da 2ª Divisão, pelo Bandeirante. Atletas como Ivanildo, Cleiton e Cícero Barros, que já jogaram lá, vez por outra aparecem nos campos do Dique Estrada. O goleiro Cleiton, 22, foi chamado para jogar este ano no Bandeirante. Acreditamos que ele vai ficar para a 2ª Divisão, dizem os amigos do atleta que, porém, nega a informação. Eu não acertei nada com o clube, desconversa. Ex-atletas também costumam aparecer nesses campos, segundo relato dos peladeiros que freqüentam o local. Zé Pedro (ex-CSA), Maraca (ex-São Domingos), Uiris (ex-CSA), Jean (ex-CSA), Ricardo Silva (ex-Capela), que treinou o Dimensão, no Alagoano, entre outros que jogaram em clubes como CSA e CRB, costumam vir bater uma bolinha aqui, diz o zagueiro Josualdo, da Portuguesa. Prestígio E quem pensa que o futebol de várzea acabou está enganado. Isso aqui parece formigueiro. Durante todo o campeonato era só a bola rolar que juntava gente, meu amigo!, afirma Airone Teixeira, o Papada, presidente da Liga do Benedito Bentes II, disputada nos chamados sabadão e domingão. O Goiás foi o campeão da Liga, ao vencer o Palmeiras (2x0), no domingo. Exemplos assim, de fidelidade ao futebol, mostram que o romantismo dos sabadão e domingão na periferia vai ser eterno como seus personagens. FM/WS

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