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Não poso nua nem se me derem um castelo

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Murilo Garavello Uol Em Belém, Daiane pôde comprovar o prestígio que tem hoje no País. Para ir do ginásio ao hotel, à distância de um quarteirão, precisou de uma van, quatro seguranças e três policiais para se proteger do assédio - que inclui pedidos de autógrafo, de fotos e até de beijos. Na capital paraense para a disputa do Brasileiro -em que se sagrou campeã no solo -, a ginasta gaúcha concedeu a seguinte entrevista. Há quanto tempo ocorre como aqui em Belém, que a cada lugar em que você vai as pessoas mal te deixam andar? Desde que você ganhou o Mundial (em agosto de 2003)? É, já são quase dois anos. Já se acostumou? Não. Eu tento fazer assim: onde quero ir, vou. E sem segurança. Só preciso disso quando saio de Curitiba. Em Porto Alegre também não uso. Só quando eu vou para lugares diferentes é mais difícil. A ginástica agora está em ascensão, então todos têm curiosidade. Tem pessoas que nem acreditam que a gente existe (risos). Ser um ídolo, uma referência para muita gente faz com que você mude seu comportamento? Sim, há algumas atitudes que a gente não pode tomar. Por exemplo, se você tá de mal humor, tem de pensar: ?não, calma?. Tem de se policiar para atender bem as pessoas. Procuro fazer tudo para dar um bom exemplo. Você vai posar nua para a Playboy? Recebi o convite, mas acho que não é o momento. Quanto a revista te ofereceu? Não conversei direito. Ando competindo muito, ainda não deu tempo. Eles me ligaram, a gente conversou, mas foi meio por cima. Mas não é o que eu quero. É como você falou, sou exemplo para várias crianças. Imagina só: as crianças com a revista, me vendo pelada. Agora não é o momento. Talvez, quando eu parar de competir. E se te derem um caminhão de dinheiro? Nem se for um caminhão, uma tonelada de dinheiro, um castelo, não. Se tivesse uma Olimpíada hoje você saberia lidar com a pressão? Existe aprender a lidar com a pressão? Acho que você nunca aprende, é uma coisa que você controla. Eu já estou um pouco mais escolada. E, daquela vez, não foi propriamente a pressão, foi uma coisa assim: o meu sonho está acontecendo. Uma pressão muito mais interna. É isso que eu tenho de controlar e te garanto que é mais difícil do que qualquer cobrança. Até que ponto um técnico é absoluto na ginástica? Você pode contestar, dizer acho que não é por aí? Na verdade, ginástica é 50% treinador, 50% ginasta. Um não existe sem o outro. Você já conversou com a Daniele depois do que aconteceu em São Paulo? A gente conversou aqui em Belém porque foi a primeira vez que a gente se encontrou. Vocês também não são amigas de ficar se ligando... Até porque acho que nenhuma das meninas do ginásio liga. Porque quando ela está treinando, a gente também está. Quando ela vai pra faculdade, a gente também vai. Não ficou nada de inimizade. Eu fiquei meio chateada porque saiu em vários lugares como se eu tivesse dito coisas que não disse. Eu só botei para fora o meu modo de pensar. O que ela fez, é da parte dela. Eu não tenho nada a ver com isso. Parece que a culpa foi minha. O que pareceu foi que você tomou as dores do Oleg. (Silêncio) Ele ficou chateado? Aí só você perguntando para ele. Que mexeu com ele emocionalmente, mexeu, porque é uma menina da seleção. Como eu falei, é uma família. Se você me perguntar, eu direi: claro que a gente também sentiu. Ela não é só uma ginasta. A gente convivia todos os dias, muito mais do que com nossas próprias famílias... Mexe? Mexe, mas você tem de continuar. Mudando de assunto, o que você ainda quer fazer na sua carreira? O que ainda falta, o que te motiva? Tem algum objetivo ainda? Depois da Olimpíada, tudo o que vier para mim, agora, é lucro. Meu objetivo era chegar a uma Olimpíada. E eu cheguei, fui finalista, acho que para mim foi um presente. Após 11 anos de ginástica. Então, consegui coisas que um monte de gente lá atrás não conseguiu. Então acho que Deus já me deu vários presentes. Se eu conseguir ir para outro Mundial, para outra Olimpíada, vai ser lucro para mim. Então você não faz planos? Enquanto seu joelho deixar, você continua? Não faço planos. Enquanto agüentar, quiser fazer ginástica, puder contribuir, eu vou continuar. No momento em que perceber que estou atrapalhando o grupo ao invés de fortalecê-lo, eu saio. E o joelho, ainda dói? Não vou dizer que não dói. Sempre vai incomodar um pouquinho. Todos os dias você tem de fazer fisioterapia? Todo dia, não adianta. Não vivo sem fisioterapia, sem um trabalho de mobilidade, de mexer no joelho, de fazer o trabalho de fortalecimento. E o duplo-twist estendido, morreu? (Daiane não executou o movimento nenhuma vez depois de utilizá-lo na Olimpíada) Não, a gente treina ele no ginásio. O problema é que é um elemento muito preciso. Aquele pouquinho a mais que eu passe do ponto ou que falte, dá errado. Optamos por só fazer, por só arriscar, quando realmente precisar. Você pensa em ser dirigente da ginástica? Não, dá muito trabalho. Não penso nem em continuar na ginástica. O que você quer fazer? Depois que eu parar quero trabalhar com crianças especiais. É uma coisa que sempre quis fazer. Continuo com essa idéia. ### QUEM É Nome: Daiane dos Santos Idade: 22 anos Principais Conquistas: Campeã mundial no solo, em 2003, e ouro, também no solo, na Superfinal da Copa do Mundo, em 2004. Não faço planos para o futuro. Enquanto agüentar, quiser fazer ginástica, puder contribuir, eu vou continuar.

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