Esportes
Times sobrevivem com dinheiro público
WELLINGTON SANTOS FERNANDA MEDEIROS Repórteres A Operação Guabiru, desencadeada há pouco mais de um mês, em Alagoas, pela Polícia Federal (PF), para apurar desvios de recursos públicos, parece ter sido um divisor de águas, também no futebol. Tudo porque, conforme foi divulgado por meio de escutas telefônicas feitas pela PF, parte dos recursos desviados foi direcionada, também, para financiar clubes de futebol, a exemplo do Bom Jesus, de Matriz do Camaragibe, então participante da 1ª Divisão do Campeonato Alagoano de Futebol. O principal fato que levou a crer em um esquema envolvendo o futebol, foi a conversa grampeada pela PF, em que houve um diálogo entre o principal acusado do esquema de desvios, Rafael Torres, com o prefeito de Matriz do Camaragibe, Marcos Paulo, divulgada pela Gazeta de Alagoas, na edição do dia 2 de junho deste ano. Em função disso, a Gazeta tentou ouvir prefeitos, dirigentes de clubes, torcedores, para ver como funciona a relação de clubes de futebol com suas respectivas prefeituras. Do ponto de vista das prefeituras, na maioria delas não foi possível falar com o prefeito. Em Olho d?Água das Flores o representante no Alagoano da 2ª Divisão é o Centro Esportivo Olhodaguense (CEO). Para se manter vivo e ter condições de encarar uma disputa com mais nove equipes, entre elas o poderoso CSA, o CEO conta com a ajuda da prefeitura local, segundo revelou o presidente do clube, Manoel Bezerra dos Santos. Recebemos recursos que cobrem cerca de 30% da folha do clube. Sem essa ajuda seria inviável o time se manter na competição, admitiu, acrescentando que a folha chega a R$ 25 mil. Além de recursos oriundos do poder público, o CEO tem o patrocínio de empresários locais e políticos. Eles também são nossos parceiros, revela o presidente do clube. Mas enquanto o CEO dá graças a Deus pela ajuda recebida, o mesmo não ocorre com a Desportiva Penedense, também da 2ª Divisão do Alagoano. Mal das pernas na competição - está em último lugar no Grupo B, com dois pontos ganhos -, a equipe não dispõe de recursos para realizar uma boa campanha e montar um grande time. Utilizamos na base jogadores da região. Não temos recursos para montar um time caro, pois não contamos com a ajuda da prefeitura. O órgão só nos deu R$ 250 para todo o campeonato e nada mais, revelou o presidente da Desportiva, Elias Peixoto. Lamentando a situação, ele informou que a Prefeitura de Penedo só ajuda ao Penedense, clube da 1ª Divisão do Alagoano. Para o Penedense, o órgão deu cerca de R$ 80 mil, divididos em três parcelas, para todo o campeonato. Não há interesse da prefeitura que tenhamos dois clubes de futebol na cidade, denunciou. Elias revelou que a única ajuda que o clube possui vem do ex-prefeito Alexandre Torres, referente a transporte e alimentação (lanche) dos atletas. Ele nos cede dois ônibus para transportar os jogadores nas viagens, destacou. Além disso, ele revelou que o clube tem a colaboração de amigos e desportistas. A Gazeta tentou ouvir os dirigentes do Penedense, bem como representantes da Prefeitura de Penedo, mas não teve êxito. No Capelense, segundo o presidente, José Cláudio da Silva, a prefeitura ajuda, mas não é muito (ele não revelou quanto). A verba para sustentar o clube na 2ª Divisão vem de empresários, fornecedores de cana e usineiros da região. É daí que vem a maior parte dos recursos, declarou. Ele disse que para 2006, assim como faz o Coruripe, o clube está tentanto viabilizar uma verba com a Câmara Municipal, para manter o time em 2006. ### Presidente diz que Coruripe tem orçamento na Câmara Trinta e cinco mil reais. Essa é a quantia que, segundo o presidente do Coruripe, Maicon Beltrão, é destinada para custear o clube do Litoral Sul do Estado. É um valor aprovado em projeto de lei pela Câmara Municipal de Coruripe, para evitar que o dinheiro seja usado para outros fins, informou Maicon, ao ser questionado de onde sairiam os recursos para ajudar o clube. Já o presidente do Ipanema, Robério Malta, clube que disputa a 2ª Divisão do Alagoano, afirmou que existe um convênio entre o clube e a Prefeitura de Santana do Ipanema. A quantia repassada ao time sertanejo é de R$ 10 mil, todo mês, segundo ele, para ajudar a pagar a folha salarial, complementada por meio de patrocinadores. Ele adiantou que a folha total está em torno de R$ 25 mil. O Ipanema é um dos poucos clubes que suporta pagar a folha porque, além da ajuda da prefeitura, conta com boas rendas, explicou o presidente. De acordo com ele, a renda do clube no campeonato tem tido uma média de lucro líquido entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. O deputado Isnaldo Bulhões também contribui com o clube porque ele comprou espaços publicitários no estádio da cidade, informou o supervisor Fernando Aguiar, coordenador de futebol do Ipanema. Isnaldo Bulhões, além de contribuir com o Ipanema, é filho da prefeita da cidade, Renilde Bulhões. A reportagem da Gazeta tentou vários contatos com os dois, mas não conseguiu. Em Arapiraca, a situação do ASA é mais cômoda. Disputando a 1ª Divisão do Alagoano e na briga pelo título estadual com o Coruripe, o time tem apoio da prefeitura. Temos uma parceria com o ASA, que entra com a sede social para a realização de eventos do município e, em contrapartida, recebe a verba, informou o secretário municipal de Esportes, Daniel Rocha, acrescentando que os recursos são encaminhados à Secretaria de Finanças, que repassa ao clube. Segundo o presidente do ASA, Moisés Machado, o valor é de R$ 15 mil mensais. Se não fosse isso, não teríamos condições de manter a equipe, disse. Não chega a ser uma grande ajuda, mas é uma parceria importante para incentivar o esporte. É um retorno positivo para a sociedade, pois estamos oferecendo uma forma de entretenimento boa e barata: o futebol, emendou Daniel Rocha, que foi a Brasília, na última semana, para uma audiência com o ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, tentar recursos para ampliar o Estádio Municipal. |WS/FM ### Repasses devem ser fiscalizados A ajuda dos municípios aos clubes de futebol tem algumas divergências, principalmente em relação ao modo como os recursos são destinados às equipes. Os torcedores acham que todo repasse deve ser muito bem fiscalizado, para que a verba não seja desviada. Para o torcedor do ASA, Clyton Houly, se o futebol é uma forma de lazer, diversão e ajuda a divulgar o município, esses apoios devem ser retirados da clandestinidade e colocados de modo transparente na legislação municipal. Acho que se o apoio ao futebol pelas prefeituras envolve procedimentos contábeis fraudulentos, deve ser fiscalizado e coibido com rigor, opinou. Se assim não for feito, ele afirma que é contra a ajuda das prefeituras aos clubes. A questão da participação das prefeituras no custeio da folha ou mesmo da hotelaria dos jogadores, eu diria que os próprios clubes, principalmente os do interior, cobram do prefeito essa participação, assim como muita gente cobra do governador Ronaldo Lessa um apoio explícito ao futebol profissional. Mas se isso não for fiscalizado e dentro da Lei, eu sou terminantemente contra, explica. Na opinião do torcedor regatiano Petrúcio Sá, no caso do interior, as prefeituras devem ajudar os clubes. A população não tem opções de lazer e o futebol é motivo de alegria para todos, movimenta a economia local, gera renda e empregos informais, disse. Já em Maceió, ele afirma que os clubes não devem ter apoio financeiro da prefeitura nem do governo. Neste caso, o apoio deve partir da iniciativa privada. As grandes empresas devem apoiar o esporte. Já o governo do Estado deve ajudar dando incentivos fiscais aos empresários que colaboram com os clubes, opina. Petrúcio diz que assim como a prefeitura, o governo tem que cuidar do social, sobretudo da educação e da saúde. |WS/FM