Esportes
Um som eterno ao clube do coração
WELLINGTON SANTOS FERNANDA MEDEIROS Repórteres Numa época em que as notícias sobre violência em estádios de futebol têm sido destaque na mídia, a veia poética e a volta de um futebol com a visão romântica parecem ser um contraponto às badernas em nossos gramados. A visão romântica dos bons e velhos tempos vem contaminando, no bom sentido, é claro, muitos de nossos torcedores e espalhando um surto de arte e cultura entre as torcidas nos estádios. Pelo menos é isso que o torcedor alagoano, nesses últimos anos, tem se acostumado a ver e a ouvir. Azulinos, regatianos, alvinegros, corintianos e outros têm colocado toda a arte e criatividade em canções, frevos e hinos dedicados a seus clubes de coração e até dedicadas aos rivais. Mas para quem é um pouco mais jovem, a moda de cantarolar e compor a paixão pelo clube amado e mostrá-la por meio de músicas e gravações de discos - e agora CDs -, já vem de outras épocas. Quem não se lembra, por exemplo, da canção que diz assim: O Clube de Regatas Brasil é a paixão de todos nós. Quando o Galo aparece no gramado, grita a galera numa só voz... Essa música foi sucesso nos anos 70, composta pelo regatiano e radialista Edécio Lopes, em homenagem ao CRB, e continua no inconsciente de muita gente. Há ainda quem não esqueça a canção que declara: O CSA é bi, bicampeão, o CSA é bi, bicho-papão!, de autoria de Roberto Becker, azulino de quatro costados e compositor de mão e voz cheias, cantada em prosa e verso pela torcida azulina no início dos anos 80. Os novos poetas O sucesso dessa gente tem sido tão grande junto à galera que se tornou comum nos estádios o cantarolar das canções. O resultado é o feedback (retorno) que se torna um frisson só. Muitas vezes cantado até pelos mais ferrenhos adversários de camisa, tal a beleza e o feitiço que a composição provoca. Um exemplo claro desse sucesso na mistura do dueto música/futebol é o cantor e compositor alagoano Eliezer Setton. Azulino confesso, ele ultrapassou o bairrismo futebolístico e fez uma canção em homenagem ao CRB, maior rival do CSA. ### Roberto Becker fez 20 músicas para o CSA Não são apenas os regatianos que têm o privilégio de ver o clube de coração cantado em verso e prosa. Os azulinos também têm canções dedicadas ao CSA, o Azulão do Mutange. Exemplo disso são as de autoria de Roberto Becker. Já fiz 20 músicas em homenagem ao meu CSA. A primeira foi quando ele foi bicampeão, em 1981, e se chama CSA, Bicampeão. Nessa época não existia CD e a música saiu em um compact player, com quatro faixas, explica. Pai de cinco filhos, ele afirma que todos são azulinos e botafoguenses. Apenas um resolveu ser Flamengo, revela o artista alagoano, 65, com 40 anos dedicados à música. Sou azulino doente. Só ando vestido de azul, exagera. Foi a partir dessa paixão pelo CSA que tive a idéia de compor as músicas. Ele lembra que um dia criou um folheto sobre o CSA, quando o time derrotou o CRB e entrou para o Campeonato Nacional. Foi no início da década de 80. Mas o CSA perdeu para o Misto-MT (3x0) e para o Dom Bosco-MT (4x0). Daí, os regatianos ficaram zombando de mim: ?Agora, Becker, faça uma música?. Aí eu fiz, revelou. E acrescenta: A letra é assim: ?Olha aqui seu CRB, perco pra todo mundo só não perco pra você. O mais querido do Brasil é o Flamengo, que também andou perdendo no Nacional passado. Estou sendo goleado, mas não canso de dizer: perco pra todo mundo só não perco pra você?. Após a conquista do Alagoano da 2ª Divisão, um aglomerado de azulinos, em volta de um veículo fora do Estádio Rei Pelé, no dia 7 deste mês, ouvia animadamente a música feita pelo poeta azulino Becker: Segundona Nunca Mais!, composta especialmente para o título da Segundona. Vamos juntá-la com outras músicas do passado e elaborar um CD para o CSA, que será lançado em outubro, diz Becker. |WS/FM ### Azulino roxo faz música para o rival Com a música Eu sou CRB, Eliezer Setton deu início a um verdadeiro frisson nos estádios. Resultado: sucesso absoluto entre os regatianos e a cobrança desmedida dos azulinos, digamos que traídos pela encomenda poética. Essa música nasceu no dia do jogo entre CRB x Botafogo-RJ em 2003. O radialista Antônio Guimarães me provocou para que fizesse uma música falando em futebol, relembra Setton, ao acrescentar: A partir dali, fiquei no meu cantinho no estádio, mas já pensando na letra e na melodia. Havia uma placa no estádio com os dizeres ?sou regatiano?. E continua: Além disso, ainda tinha o narrador Arivaldo Maia, da Rádio Gazeta, que usava o jargão Ah! eu sou alagoano!. Enfim, tudo isso me inspirou para terminar a música ali no estádio. Quando saí de lá, já estava com ela na cabeça, relata. Do resultado de sua inspiração saíram os versos que muita gente canta até hoje: Sou Galo, sou regatiano, sou alagoano e gosto é de vencer, vermelho é a minha cara, sou da Pajuçara, eu sou CRB.... Panela de pressão A música, contida no trabalho em que considera sua obra-prima, está no CD O carnaval alagoano de Eliezer Setton. Se para compor a música do Galo ele caminha pela Pajuçara e na paixão por Alagoas, para o seu CSA - depois de receber uma pressão pior do que panela de pressão da torcida azulina, ele vai até o espaço e se inspira em Yuri Gagari para compor A terra é azul. Nela, o artista passeia poeticamente com seu enredo na trilogia Da verde, do Mutange e da Lagoa Mundaú. A expressão Da Verde era uma antiga barraca encostada em muros de onde os azulinos assistiam aos jogos do CSA nos anos 60 e 70, no Velho Mutange. A TERRA é azul Azul e branco é o CSA, Centro Sportivo Alagoano. Marujo, azulino, altaneiro e soberano é união e força a todo o pano... Da Verde, do Mutange e da Lagoa Mundaú, Gagari foi quem disse: A Terra é azul..., diz um dos trechos da obra azulina, contida no mesmo CD onde está a música do rival. |WS/FM ### A paixão de todos, afirma compositor O segundo CD oficial do CRB foi lançado recentemente. Tal qual o primeiro, tem o dedo do compositor, cantor e torcedor regatiano Milton Peixoto, funcionário da Caixa Econômica Federal, que tem uma banda, a MPB, cujas iniciais significam Milton Peixoto e Banda. A idéia de criar o CD do CRB foi em 2002, quando juntamos algumas músicas que existiam e colocamos num único CD. Foi aí que surgiu a primeira obra: ?A Paixão de Todos Nós?, explica Milton, que já ganhou vários festivais de música, acrescentando que nesse CD há canções de Edécio Lopes e dele próprio. Já para o segundo CD, ?Clube de Regatas Brasil?, eu compus seis músicas, orgulha-se. O CRB é um dos poucos times do Brasil que têm um CD exclusivamente com músicas. Somos pioneiros nisso, pois em outros CDs de clubes há músicas, gols e histórias da equipe, emenda o também cantor e ex-presidente do Galo Darlan Brandão, que no segundo CD canta as faixas Eu sou Alvirrubro, de Sabino Romariz, e Confraria na Folia, em dupla com o cantor Yaldo, de autoria de Milton Peixoto. Ele explica que o amor ao Alvirrubro falou mais alto, por isso aceitou a participação no CD. Em 2002, na Copa do Nordeste, estávamos em Aracaju-SE, num barzinho, e comecei a cantar ?Eu sou Alvirrubro?. Todos gostaram e este ano o Milton me fez o convite para participar do segundo CD, explica, acrescentando que o carro-chefe do segundo CD do Regatas é a canção Galo eu te Amo, de Almir Rouche, nas vozes de Milton e Osman. ASA gigante Para o papão de títulos de Alagoas nos anos 2000, a arte em forma de música não ficou atrás dos rivais. O ASA também ganhou músicas em sua homenagem. A mais famosa e que virou o hino da vitória do clube foi ASA Gigante, composta em 2000, quando o Alvinegro foi campeão estadual em cima do CSA. A letra é de autoria do médico e torcedor Clyton Houly, em parceria com Edgard Lima. As músicas do ASA foram surgindo com os títulos que o time foi ganhando. Juntamos as músicas que já existiam e fizemos o CD, com o hino oficial do ASA, em várias versões, e o hino de Arapiraca, revela Houly. Em 2001, outra canção foi criada por ele e Edgard Lima: Alvinegro eu Sou. E a dobradinha Clyton/Edgard se repetiu em 2003, quando compuseram Vai lá meu ASA. E mais uma vez o Alvinegro conquistou o Alagoano, desta vez em cima do CRB. Coruripe e Corinthians Clyton Houly também fez a letra da música do Coruripe: Alviverde eu Sou, em 2003, quando o Coruripe subiu para a 1ª Divisão do Alagoano. O Corinthians também tem músicas em sua homenagem: o hino Tricolor de autoria do radialista Antônio Guimarães, cantada no original por Carlos Moura e orquestrada na voz de Sandro Barros; e ainda um frevo, na voz de Carlos Moura. WS/FM